Cultura de Paz como Mercadoria: uma crítica à captura neoliberal das categorias éticas




Cultura de Paz como Mercadoria: uma crítica à captura neoliberal das categorias éticas

Vanessa Maria de Castro
Da Série: Cadernos de Estudos
Brasília, junho de 2026


Resumo

Este ensaio propõe a categoria analítica Cultura de Paz como Mercadoria para compreender o processo pelo qual a Cultura de Paz, originalmente comprometida com a transformação das estruturas produtoras da violência, converte-se em um dispositivo de governabilidade voltado à administração dos conflitos, à gestão do sofrimento e à estabilização da ordem. A hipótese central é que o neoliberalismo não destrói categorias emancipatórias, mas reorganiza sua função política, preservando seu prestígio ético enquanto as converte em instrumentos de reprodução da ordem. A partir do diálogo entre Johan Galtung, Antonio Gramsci, Michel Foucault, Herbert Marcuse, Hannah Arendt, Jacques Rancière, Paulo Freire, Frantz Fanon e a psicanálise, o ensaio demonstra que a Cultura de Paz pode ser capturada pela racionalidade neoliberal e passar a administrar o sofrimento fabricado pela política da guerra em vez de superá-lo. A pergunta que orienta a reflexão — o que uma sociedade faz com o sofrimento que ela própria produz? — revela-se como o critério ético fundamental para distinguir projetos efetivamente comprometidos com a justiça daqueles que se limitam a administrar seus efeitos. A Cultura de Paz como Mercadoria não é apenas uma apropriação discursiva, mas uma alteração profunda na função política de uma categoria historicamente vinculada à crítica da violência.

Palavras-chave: Cultura de Paz; Neoliberalismo; Sofrimento; Governamentalidade; Mercadoria; Captura Semântica.

Introdução

Há palavras que parecem ter escapado ao conflito político. Poucas desfrutam de tamanho consenso moral quanto a Paz. Incorporada ao vocabulário de organismos internacionais, políticas públicas, programas educacionais, movimentos sociais e instituições de diferentes naturezas, ela passou a ocupar um lugar de inquestionável legitimidade na imaginação política contemporânea. Falar em Cultura de Paz tornou-se quase um imperativo ético. Afinal, quem poderia posicionar-se contra a paz? Quem defenderia a violência como fundamento da vida coletiva?

É precisamente essa aparente unanimidade que torna a Cultura de Paz um objeto privilegiado da reflexão crítica. A história do pensamento político demonstra que nenhuma categoria dotada de forte legitimidade permanece imune às disputas pelo poder. Ao contrário, quanto maior sua capacidade de mobilizar consensos, maior tende a ser o interesse em capturá-la, reorganizar sua função política e incorporá-la a novos projetos de sociedade. O neoliberalismo revelou extraordinária habilidade para operar esse movimento. Em vez de destruir categorias historicamente comprometidas com a emancipação, preserva seu prestígio ético enquanto desloca silenciosamente sua função histórica. Direitos humanos, participação, cidadania, sustentabilidade, inclusão, diversidade e a própria Cultura de Paz continuam ocupando posição central no discurso público, mas podem deixar de orientar processos de transformação para converter-se em instrumentos de governabilidade, estabilização e reprodução da ordem.

Este ensaio parte da hipótese de que nenhuma categoria política permanece imune às disputas de poder. Ao contrário, quanto maior sua legitimidade social, maior tende a ser o interesse em capturá-la, reorganizar suas funções e reinscrevê-la em novos projetos políticos. O neoliberalismo demonstrou extraordinária capacidade para realizar esse movimento. Em vez de eliminar categorias historicamente vinculadas à emancipação, como direitos humanos, participação, inclusão, sustentabilidade, cidadania ou a própria Cultura de Paz, ele as incorpora ao seu próprio vocabulário, preservando seu prestígio ético enquanto altera profundamente sua função política. Não se trata apenas de uma mudança de linguagem ou de significado, mas de uma reorganização das próprias categorias por meio das quais interpretamos a realidade e concebemos os horizontes da ação política.

É nesse contexto que proponho a categoria analítica Cultura de Paz como Mercadoria. Com ela, procuro compreender o processo pelo qual a Cultura de Paz deixa de constituir prioritariamente um horizonte de transformação das estruturas produtoras da violência para converter-se em um dispositivo de governabilidade voltado à administração dos conflitos, à gestão do sofrimento e à estabilização da ordem social. A mercantilização aqui proposta não significa que a Cultura de Paz tenha perdido completamente seu potencial emancipatório, tampouco que todas as experiências realizadas em seu nome reproduzam essa racionalidade. Significa reconhecer que uma categoria historicamente vinculada à crítica da violência pode ser capturada e reorganizada para desempenhar funções distintas daquelas que originalmente fundamentaram sua constituição.

Essa reorganização produz profundas consequências políticas. O conflito deixa de ser reconhecido como expressão das contradições sociais para tornar-se problema de gestão. A desigualdade converte-se em dificuldade de convivência. A violência estrutural transforma-se em objeto de mediação. O sofrimento é acolhido, reconhecido e administrado, mas as estruturas responsáveis por sua produção permanecem praticamente intocadas. A crítica continua autorizada, desde que não coloque em questão os fundamentos da ordem que continuamente reproduz aquilo que denuncia.

A construção dessa hipótese exige o diálogo entre diferentes tradições intelectuais. Johan Galtung oferece a distinção entre paz negativa e paz positiva e recoloca a violência estrutural no centro dos Estudos para a Paz. Antonio Gramsci permite compreender como determinadas racionalidades se tornam hegemônicas ao converter-se em senso comum. Michel Foucault demonstra que o poder opera por meio da produção de subjetividades e tecnologias de governamentalidade. Hannah Arendt restitui à política sua dimensão da ação e da pluralidade, enquanto Jacques Rancière evidencia o dissenso como condição constitutiva do político. Herbert Marcuse revela os mecanismos pelos quais a crítica pode ser absorvida sem ameaçar a reprodução da dominação. Paulo Freire e Frantz Fanon mostram que toda emancipação começa pela nomeação política da violência e do sofrimento produzidos pela opressão. A psicanálise, por sua vez, permite compreender como esse sofrimento é inscrito nas subjetividades e administrado como tecnologia de poder.

Uma única pergunta atravessa todo o percurso desenvolvido neste ensaio: o que uma sociedade faz com o sofrimento que ela própria produz? A resposta a essa questão permite distinguir projetos efetivamente comprometidos com a transformação das estruturas que fabricam a violência daqueles que se limitam a administrar seus efeitos. É nesse deslocamento que a Cultura de Paz pode converter-se em mercadoria: quando deixa de enfrentar as causas da violência para gerir suas consequências; quando substitui a justiça pela estabilidade; quando transforma a política em governabilidade e a emancipação em administração.

Mais do que uma crítica à Cultura de Paz, este ensaio procura compreender um dos mecanismos mais sofisticados de funcionamento da racionalidade neoliberal. Seu objetivo é demonstrar que categorias historicamente comprometidas com a emancipação podem ser capturadas, reorganizadas e convertidas em dispositivos de reprodução da ordem sem perder sua legitimidade ética. A Cultura de Paz constitui o caso privilegiado desta investigação. Contudo, a hipótese aqui formulada ultrapassa esse campo específico e convida a refletir sobre um problema mais amplo: o que acontece quando as próprias categorias com as quais imaginamos justiça, democracia, direitos humanos e emancipação passam a operar segundo a lógica da governabilidade? É a partir dessa questão que se desenvolve a reflexão apresentada nas páginas que seguem.


1. A tradição da paz negativa e suas raízes filosóficas

A primeira questão que se impõe é aparentemente simples: o que se entende por paz? A resposta dominante tende a associar paz à ausência de conflito. Essa concepção encontra raízes profundas na tradição filosófica, remontando a Thomas Hobbes (1588-1679), para quem a paz é a condição oposta ao estado de guerra, assegurada por um poder soberano capaz de impor a ordem (Thomas Hobbes, 1651). Para Hobbes, a guerra não consiste apenas na batalha ou no ato de lutar, mas no tempo em que a vontade de disputar pela força é suficientemente conhecida; a paz, portanto, é o período em que essa disposição para o conflito não existe (Thomas Hobbes, 1651, p. 109). A paz hobbesiana é uma paz imposta de cima, uma trégua garantida pelo medo do soberano.

Em outra tradição da filosofia política, John Rawls (1921-2002), ao formular a ideia de uma Sociedade dos Povos bem ordenados, procura fundamentar a paz internacional na estabilidade entre sociedades que compartilham princípios de justiça (John Rawls, 1999). Sua formulação parte da hipótese de instituições justas ou suficientemente justas e concentra-se na construção de uma ordem internacional estável entre os povos. Nessa perspectiva, a persistência de violências estruturais no interior de sociedades formalmente democráticas permanece em segundo plano, aspecto que constitui um dos limites dessa abordagem para a reflexão desenvolvida neste ensaio.

É precisamente contra essa tradição que Johan Galtung (1930–2024) formula a distinção entre paz negativa e paz positiva, produzindo uma das mais importantes inflexões nos Estudos para a Paz (Johan Galtung, 1969). Até então, a paz era predominantemente compreendida como ausência de guerra ou de violência direta. Galtung desloca esse entendimento ao sustentar que uma sociedade pode não estar em guerra e, ainda assim, produzir níveis profundos de sofrimento humano. A ausência de confrontos armados, portanto, não basta para caracterizar uma sociedade como pacífica.

A originalidade de sua contribuição reside na elaboração do conceito de violência estrutural. Diferentemente da violência direta, que possui agentes identificáveis e se manifesta por meio da agressão física, da guerra ou da repressão, a violência estrutural encontra-se inscrita na própria organização da sociedade. Ela opera por meio das instituições, das relações econômicas, das desigualdades sociais e dos mecanismos de exclusão que impedem parte da população de acessar os bens necessários a uma vida digna. Nessa perspectiva, a violência não decorre apenas da ação deliberada de um indivíduo contra outro, mas também das estruturas que produzem, reproduzem e naturalizam o sofrimento evitável.

A fome em sociedades capazes de produzir alimentos suficientes, a pobreza persistente em economias altamente produtivas, o racismo estrutural, o patriarcado, a precarização do trabalho, a negação do acesso à saúde, à educação, à moradia e à participação política constituem expressões dessa violência. Não se trata de acontecimentos excepcionais, mas de formas permanentes de organização social que distribuem desigualmente oportunidades, direitos, reconhecimento e condições de existência. A violência estrutural manifesta-se precisamente quando pessoas morrem, adoecem ou têm suas possibilidades de desenvolvimento reduzidas por condições sociais que poderiam ser transformadas.

É nesse contexto que Galtung distingue paz negativa e paz positiva. A paz negativa corresponde à ausência de violência direta. A paz positiva, por sua vez, exige a superação das estruturas que produzem injustiça e sofrimento. Uma sociedade pode apresentar estabilidade institucional, baixos índices de criminalidade ou ausência de guerra e, ainda assim, permanecer profundamente violenta se mantiver relações estruturais de exploração, discriminação e exclusão. A paz deixa, assim, de ser compreendida como simples ausência de conflito e passa a ser concebida como presença de condições efetivas de justiça social.

Essa formulação é decisiva para a hipótese desenvolvida neste ensaio. Quando o discurso hegemônico reduz a paz à estabilidade, à governabilidade e à ausência de contestação, realiza uma operação ideológica que esvazia a contribuição de Galtung. A violência deixa de ser procurada nas estruturas que produzem sofrimento e passa a ser atribuída prioritariamente aos sujeitos que denunciam ou resistem a essas estruturas. O conflito torna-se o problema; a desigualdade deixa de sê-lo. A paz converte-se, então, em sinônimo de ordem, enquanto a contestação passa a ser percebida como ameaça à convivência social. Nesse enquadramento, a ausência de conflitos não constitui evidência de justiça, mas pode revelar apenas a eficácia de mecanismos políticos, institucionais e simbólicos de contenção do dissenso.


2. A produção do consenso e a naturalização da ordem

Se a paz negativa é a definição dominante, como ela se torna hegemônica? É nesse ponto que a teoria da hegemonia de Antonio Gramsci (1891-1937) se torna indispensável. Gramsci não afirma apenas que as classes dominantes produzem consenso; ele teoriza a hegemonia como um processo de direção intelectual e moral em que determinadas visões de mundo são universalizadas e apresentadas como naturais (Antonio Gramsci, 2000). A hegemonia não é imposição, mas sedimentação de sentido: valores, crenças e interpretações se tornam senso comum, deixando de ser percebidos como contingentes e interessados.

O neoliberalismo, nessa perspectiva, não é apenas uma política econômica; é um projeto hegemônico que conseguiu naturalizar a racionalidade de mercado como horizonte inescapável da vida social. Sua genialidade política consiste em se apropriar do léxico emancipatório – participação, inclusão, cidadania, paz – e ressignificá-lo dentro de sua própria gramática. Ao incorporar a cultura de paz ao seu discurso, o neoliberalismo a esvazia de seu conteúdo crítico e a converte em dispositivo de governamentalidade: a paz não é mais o resultado da justiça, mas a condição para o bom funcionamento do mercado.

Herbert Marcuse (1898-1979) oferece um conceito fundamental para compreender um dos mecanismos de funcionamento da Paz Como Mercadoria: a tolerância repressiva (Herbert Marcuse, 1969). Para Marcuse, a tolerância perde seu potencial emancipatório quando trata como equivalentes discursos comprometidos com a transformação social e discursos voltados à reprodução da dominação. Nessas circunstâncias, a liberdade de expressão permanece formalmente assegurada, mas sua capacidade de produzir mudanças substantivas é progressivamente neutralizada. A crítica é admitida desde que não ameace as estruturas de poder estabelecidas; o dissenso é tolerado desde que não se converta em práxis transformadora. A linguagem da paz, do diálogo e da inclusão pode, assim, funcionar como mecanismo de estabilização da ordem quando desvinculada das condições concretas de justiça social. A crítica permanece autorizada, mas sua potência política é reduzida à condição de opinião, incapaz de alterar as estruturas que produzem desigualdade e exclusão.

A análise de Gramsci e Marcuse encontra um complemento decisivo na obra de Michel Foucault (1926-1984). Para Foucault, o poder não é uma substância que se possui, mas um tipo particular de relações que se exercem por meio de dispositivos e práticas cotidianas (Michel Foucault, 2008). A governamentalidade neoliberal, nessa perspectiva, não se limita a produzir consenso ou a tolerar a crítica; ela molda subjetividades, produzindo sujeitos que internalizam a lógica do mercado como horizonte inescapável da vida. A Paz Como Mercadoria, lida à luz de Foucault, revela-se como um dispositivo de poder que não apenas silencia vozes, mas produz corpos dóceis que naturalizam a desigualdade e a exclusão (Michel Foucault, 1975).

A contribuição específica de Foucault para a compreensão da Paz Como Mercadoria reside em sua análise do poder como produtor de realidades, e não apenas como repressor de conflitos. A Paz Como Mercadoria opera por meio de tecnologias de governo que não se contentam em silenciar a crítica: elas a incorporam como elemento do próprio jogo de poder. A crítica à desigualdade é permitida, incentivada mesmo, desde que permaneça no nível do discurso e não ameace os mecanismos de produção de subjetividades. A governamentalidade neoliberal atua produzindo sujeitos que governam a si mesmos segundo a racionalidade do mercado, internalizando a competição, a responsabilização individual e a gestão de riscos como normas de conduta. Nesse quadro, a paz não é um valor a ser conquistado, mas uma competência a ser desenvolvida: a capacidade de administrar os próprios conflitos, de gerenciar as próprias emoções, de adaptar-se às transformações do mundo sem questionar suas estruturas.

Foucault nos mostra, assim, que a Paz Como Mercadoria não é apenas uma ideologia que oculta a violência estrutural; é um dispositivo que produz corpos, subjetividades e modos de vida compatíveis com a ordem do mercado. A paz torna-se uma técnica de si, um exercício de autogoverno que dispensa a intervenção direta do Estado porque os próprios sujeitos se encarregam de sua normalização. A violência estrutural, nesse quadro, não precisa ser imposta pela força; ela é reproduzida cotidianamente por sujeitos que aprenderam a naturalizar a desigualdade como condição inevitável da vida social. A biopolítica – a gestão da vida e da população – constitui o correlato necessário dessa produção de subjetividades: a Paz Como Mercadoria administra corpos, regula nascimentos, controla migrações, gerencia a saúde e a educação, tudo em nome de uma estabilidade que é, na verdade, a perpetuação da ordem do mercado.

Antonio Gramsci, Herbert Marcuse e Michel Foucault, lidos em conjunto, mostram como a hegemonia neoliberal opera: ela não precisa silenciar a crítica pela força; ela a incorpora, a esvazia e a converte em dispositivo de governamentalidade. A crítica à desigualdade é apresentada como ameaça à paz, e a adaptação à ordem como comportamento racional. Os conceitos historicamente associados às lutas emancipatórias são subvertidos: participação vira gestão da pobreza, inclusão vira integração subordinada, direitos humanos viram retórica humanitária, e paz vira aceitação da desigualdade.


3. A destruição da política e o esvaziamento do espaço público

A Paz Como Mercadoria não é apenas consenso e governamentalidade; ela é também a destruição da própria política. Hannah Arendt (1906-1975) oferece a crítica mais profunda a essa lógica, ao teorizar a política como ação na pluralidade. Em A condição humana, Arendt situa o conflito como condição ontológica da política: a política nasce do fato de que os seres humanos são diferentes, ocupam posições diversas e têm interesses que não se reduzem a um denominador comum (Hannah Arendt, 2010). A eliminação do conflito, portanto, não é um aprofundamento da democracia, mas sua destruição, pois elimina a própria condição de possibilidade da ação política.

O discurso neoliberal da paz como governança opera uma despolitização sistemática. Ao transformar questões de poder, pobreza, exclusão e desigualdade em meros problemas técnicos de gestão, o neoliberalismo esvazia o espaço público de seu caráter propriamente político. Não se trata mais de disputar projetos de sociedade, mas de administrar eficientemente os efeitos da desigualdade. A Paz Como Mercadoria, nesse enquadramento, é a ausência de irrupções que perturbem a administração.

Jacques Rancière aprofunda essa crítica ao teorizar a política como dissenso em O desentendimento (Jacques Rancière, 1996). Para Rancière, a política não é a administração do consenso, mas a irrupção daqueles que não são contados no ordenamento social. A política emerge precisamente quando os sem-parte reivindicam o direito de serem ouvidos, rompendo a distribuição hierárquica das posições e dos discursos. O dissenso, portanto, não é um defeito da democracia, mas sua própria essência.

Quando a cultura de paz hegemônica apresenta o diálogo como valor supremo, ela está, na verdade, estabelecendo as condições do diálogo: só pode falar quem já está incluído na ordem; só é escutado quem não questiona os fundamentos da ordem. O consenso absoluto, que o discurso neoliberal apresenta como ápice da maturidade democrática, é, para Rancière, o sintoma da exclusão: quando todos parecem concordar, é porque aqueles que discordariam foram silenciados.

Hannah Arendt e Jacques Rancière, lidos em conjunto, mostram que a Paz Como Mercadoria não é a afirmação da política, mas sua negação. A paz é definida como a ausência daquilo que constitui a própria essência da política – o aparecimento dos sujeitos no espaço público, a deliberação sobre o comum, o dissenso que interrompe a ordem estabelecida. A Paz Como Mercadoria é, portanto, a paz dos mortos: uma sociedade sem conflitos porque sem sujeitos políticos capazes de irromper e questionar.


4. A violência originária e o poder de nomeação

A Paz Como Mercadoria não apenas destrói a política; ela criminaliza aqueles que resistem à ordem. Paulo Freire (1921-1997) oferece uma contribuição decisiva para desmontar essa lógica, ao inverter o senso comum sobre a origem da violência. Em Pedagogia do Oprimido, Freire teoriza a opressão como violência originária (Paulo Freire, 1987). Ao afirmar que a violência dos opressores é a primeira violência, aquela que instaura a própria relação de desumanização, Freire desloca o ônus da acusação: a reação dos oprimidos não é o ponto de partida da violência, mas uma resposta a uma violência prévia e constitutiva.

Essa teorização é fundamental para compreender o mecanismo de silenciamento operado pela Paz Como Mercadoria. Quando o discurso institucional classifica a denúncia do racismo estrutural como divisão da sociedade, ou a reivindicação de territórios indígenas como obstáculo ao desenvolvimento, ele está operando uma inversão que Freire já antevia: a violência estrutural é apagada, e a violência reativa é hipervisibilizada e condenada. O silêncio dos oprimidos torna-se, assim, a condição para a paz, o que revela o caráter profundamente autoritário dessa suposta pacificidade.

Frantz Fanon (1925-1961) aprofunda essa análise ao situá-la no contexto colonial, onde a relação entre violência e ordem adquire uma clareza paradigmática. Em Os condenados da terra, Fanon diagnostica a violência colonial em seus efeitos mais profundos: a dor e o sofrimento dos colonizados (Frantz Fanon, 1968). A violência colonial penetra a subjetividade, produzindo alienação, desumanização e sofrimento psíquico. O colonizado é submetido a uma violência que o despossui de si mesmo, que o faz duvidar de sua própria humanidade.

O que Fanon demonstra é que o colonizador detém não apenas o monopólio da força, mas também o monopólio da nomeação: é ele quem define o que é violência e o que é ordem, o que é progresso e o que é barbárie. A Paz Como Mercadoria, ao silenciar esse sofrimento e ao exigir moderação dos que resistem, opera uma violência adicional: nega ao colonizado o direito de nomear sua própria dor. Para Fanon, o sofrimento, no entanto, não é o fim da história; ele pode tornar-se o ponto de partida da resistência. É precisamente porque o colonizado sofre que ele pode reconhecer a injustiça e transformar sua dor em luta.

Paulo Freire e Frantz Fanon, lidos em conjunto, mostram que a Paz Como Mercadoria não é a superação da opressão, mas sua consolidação sob a forma de consenso. A violência estrutural é naturalizada, enquanto a resistência a ela é patologizada. A paz, nesse quadro, não é o horizonte da justiça, mas a legitimação da ordem opressiva por meio da linguagem.


5. O sofrimento como categoria política

O sofrimento não é, em si mesmo, uma categoria política. Todos sofrem. A perda, o luto, a dor de existir são constitutivos da condição humana. Não há vida sem sofrimento, não há amor sem perda, não há existência sem a dor de saber que tudo pode terminar. O que torna o sofrimento uma categoria política é sua produção, sua fabricação, sua instrumentalização como arma de guerra. Há um tipo específico de sofrimento que não é da ordem da vida, mas da ordem da política: o sofrimento que é produzido deliberadamente para silenciar corpos, desmobilizar resistências, eliminar oponentes. É desse sofrimento, e apenas desse, que falo.

A mãe palestina que perde o filho sob bombardeios, a mãe indígena que perde o filho por falta de atendimento, a mãe do morro que perde o filho numa operação policial, a mãe pobre que perde o filho recrutado pelo tráfico, a família que vive sob a mira das facções: todas essas pessoas sofrem um sofrimento que foi fabricado, produzido, instrumentalizado como arma de guerra. Não é o sofrimento da mãe que perde o filho para uma doença incurável. Esse sofrimento é da ordem da vida, da finitude, do mistério da existência. A paz não pode eliminá-lo, nem deve prometer que o fará. Mas o sofrimento fabricado pela guerra, o sofrimento produzido pela política de extermínio, pela violência estrutural, pelo racismo, pela negligência do Estado, pela lógica das facções, esse sofrimento é evitável. É político. É uma arma. E é sobre ele que a cultura de paz promete agir.

A pergunta que orienta este capítulo é: o que uma sociedade faz com o sofrimento que ela própria produz, quando esse sofrimento é fabricado como estratégia de guerra? A hipótese aqui defendida é que ela pode construir dispositivos políticos, institucionais e discursivos que, em vez de enfrentar as estruturas produtoras da violência, transformam esse sofrimento em instrumento de silenciamento, em mecanismo de desmobilização e em tecnologia de contenção das resistências. Quem sofre encontra maiores dificuldades para lutar. Quem vive sob o peso permanente da dor, do medo, da perda e da insegurança vê reduzidas suas possibilidades de transformar a própria experiência em ação política. O sofrimento prolongado desorganiza vínculos, consome energias psíquicas, estreita os horizontes da existência e desloca a atenção para a sobrevivência imediata. A família que perdeu um filho para as facções, para a violência policial ou para outras formas de violência estrutural dificilmente consegue organizar-se politicamente no tempo do luto; sua existência passa a ser ocupada pela dor, pelo medo e pela necessidade de continuar vivendo. É precisamente esse o efeito político da guerra: produzir corpos exauridos, subjetividades atravessadas pelo sofrimento e comunidades cuja energia é continuamente absorvida pela administração da própria sobrevivência. Quando a fome, a miséria, o medo permanente e a violência se tornam experiências cotidianas, o sofrimento deixa de ser apenas consequência da guerra e converte-se em um de seus principais instrumentos de desmobilização política.

A cultura de paz, contudo, não permanece ausente diante do sofrimento que a guerra produz. Ela intervém. O problema é a forma dessa intervenção. Em vez de orientar-se pela transformação das estruturas que produzem a violência, sua atuação tende a deslocar o conflito para o plano da gestão do sofrimento. É nesse sentido que proponho compreender o tangenciamento como um de seus principais mecanismos de funcionamento: o sofrimento é reconhecido, mas sua origem estrutural é deslocada; a dor é acolhida, mas as condições que a produziram permanecem intocadas; a vítima é escutada, mas o conflito é despolitizado.

A mãe que perde o filho para a violência policial, para as facções ou para outras formas de violência estrutural pode encontrar acolhimento em programas de assistência, campanhas de conscientização ou discursos comprometidos com a cultura de paz. Esse reconhecimento, entretanto, torna-se insuficiente quando interrompe a pergunta fundamental: por que esse sofrimento foi produzido? Ao deslocar a atenção das estruturas para seus efeitos, a acolhida converte-se em administração; o reconhecimento transforma-se em gestão; e o cuidado deixa de constituir um ponto de partida para a transformação política.

É precisamente nesse deslocamento que situo a categoria Cultura de Paz como Mercadoria. Ela não necessita silenciar a crítica pela força, pois opera de maneira mais eficaz: incorpora o sofrimento ao discurso institucional, reconhece sua existência, mas neutraliza sua potência política ao convertê-lo em objeto de gestão. A crítica permanece autorizada, desde que não questione as estruturas que continuamente produzem a violência. O sofrimento é visível; sua origem, porém, torna-se progressivamente invisível. É essa separação entre o reconhecimento da dor e a transformação de suas causas que permite à Cultura de Paz funcionar como dispositivo de administração da ordem e não como horizonte de sua transformação.

Frantz Fanon foi um dos primeiros autores a compreender que a violência política não se limita à destruição física dos corpos. Em Os condenados da terra, demonstra que a violência colonial produz subjetividades desumanizadas, indivíduos privados da possibilidade de reconhecer-se como sujeitos históricos. A desumanização não constitui um efeito colateral da guerra, mas uma de suas principais estratégias, pois corpos desumanizados encontram maiores dificuldades para organizar-se, resistir e produzir ação coletiva (Frantz Fanon, 1968). Essa leitura permite compreender que o sofrimento das famílias submetidas às facções, à violência policial e às diferentes formas de violência estrutural que atravessam as periferias não é apenas consequência da guerra; ele é parte de sua própria racionalidade.

Paulo Freire aprofunda essa reflexão ao demonstrar que a opressão não se mantém apenas pela força, mas também pela produção de um silêncio que impede os sujeitos de reconhecerem politicamente a própria experiência (Paulo Freire, 1987). A libertação começa quando o sofrimento deixa de ser vivido como destino individual e passa a ser compreendido como expressão de relações históricas de dominação. A mãe que perde o filho para a polícia ou para as facções, se não consegue nomear essa perda como produção política da violência, permanece aprisionada ao espaço privado do luto. A Cultura de Paz como Mercadoria oferece acolhimento para essa dor, mas frequentemente tangencia sua origem estrutural. O sofrimento é reconhecido, mas não é politizado; é acolhido, mas não se converte em denúncia das estruturas que o produziram.

É precisamente esse deslocamento que Michel Foucault permite compreender. O sofrimento fabricado pela guerra cotidiana não atua apenas sobre a consciência; ele se inscreve nos corpos, organiza condutas e produz subjetividades cuja principal energia passa a ser dirigida à sobrevivência (Michel Foucault, 1975). O medo permanente, a insegurança, a precarização da vida e a violência cotidiana reduzem progressivamente a capacidade de organização coletiva. A gestão do sofrimento converte-se, assim, em uma sofisticada tecnologia de poder. Em vez de eliminar a violência, administra seus efeitos, regula sua intensidade e controla sua expressão política.

Quando essa experiência deixa de ser percebida como resultado de relações históricas de poder e passa a parecer inevitável, ingressamos no terreno descrito por Antonio Gramsci. A hegemonia se consolida precisamente quando determinadas formas de dominação deixam de ser percebidas como construções históricas e passam a constituir o próprio senso comum (Antonio Gramsci, 2000). O sofrimento fabricado transforma-se em fatalidade, a resignação substitui a indignação e a adaptação passa a parecer mais racional do que a resistência. É nesse ponto que a Cultura de Paz como Mercadoria realiza um de seus movimentos mais eficazes: desloca o debate das estruturas que produzem a violência para a administração de seus efeitos.

Herbert Marcuse acrescenta outro elemento decisivo a essa reflexão. A crítica ao sofrimento pode ser admitida, desde que permaneça incapaz de alterar a ordem que continuamente o produz (Herbert Marcuse, 1969). A dor pode ser narrada, denunciada e até reconhecida institucionalmente; entretanto, quando deixa de produzir transformação política, converte-se apenas em discurso tolerado. O sofrimento permanece visível, mas sua potência crítica é neutralizada.

É justamente nesse ponto que Hannah Arendt se torna indispensável. A política nasce quando homens e mulheres aparecem no espaço público para agir em conjunto e inaugurar novos começos (Hannah Arendt, 2010). Quando o sofrimento é deslocado para a esfera privada ou reduzido a problema técnico de gestão, perde sua capacidade de mobilizar a ação coletiva. A Cultura de Paz como Mercadoria não elimina o sofrimento; ela o administra. Não interrompe a violência estrutural; administra seus efeitos. O resultado é a substituição da ação política pela gestão permanente da dor.

A psicanálise, por sua vez, oferece uma contribuição específica, ainda que não exclusiva, para esta reflexão. Ela não explica as estruturas políticas, nem poderia. Sua contribuição é outra: ela escuta o que acontece com o sujeito quando essas estruturas o atravessam. O sofrimento fabricado, quando silenciado, quando administrado, quando transformado em objeto de gestão, não desaparece. Ele retorna. Retorna como depressão, como violência, como adoecimento psíquico, como revolta que não encontra linguagem. Freud mostrou que o sofrimento é estrutural, que a cultura exige renúncias que produzem dor (Freud, 2011). Lacan, ao desenvolver a categoria de gozo, mostrou que determinadas formas de repetição podem aprisionar o sujeito em circuitos dos quais ele dificilmente consegue escapar (Lacan, 1986). O gozo não é prazer; é um excesso que o sujeito repete mesmo quando lhe causa sofrimento. A mãe que perde um filho para a violência policial, a família que vive sob ameaça das facções, a comunidade que sobrevive à guerra cotidiana: todas essas experiências podem tornar-se circuitos de repetição dos quais o sujeito não consegue escapar. A psicanálise pode nomear esse retorno, essa repetição, esse aprisionamento. Mas não explica por que ele é produzido. Isso é tarefa da teoria política, e é essa tarefa que os demais autores mobilizados neste ensaio realizam.

O sofrimento produzido pela política da guerra, portanto, não pode ser confundido com o sofrimento inerente à condição humana. A mãe que perde um filho para uma doença incurável experimenta a dor da finitude. Já a mãe palestina que perde o filho sob bombardeios, a mãe indígena privada de atendimento, a mãe da periferia que perde o filho para uma operação policial ou para as facções vivenciam um sofrimento produzido por estruturas políticas, econômicas e sociais. É precisamente esse sofrimento que a Cultura de Paz como Mercadoria administra. Ao deslocar continuamente a atenção das estruturas que produzem a violência para a gestão de seus efeitos, transforma a potência política da dor em objeto de administração.

O verdadeiro critério para julgar qualquer projeto de Cultura de Paz, portanto, não reside na estabilidade que produz, mas em sua capacidade de enfrentar as estruturas responsáveis pela produção do sofrimento. Quando a Cultura de Paz limita-se a administrar a dor sem transformar as condições que continuamente a produzem, ela deixa de constituir um horizonte emancipatório e passa a integrar, por outros meios, a racionalidade da própria guerra que afirma combater.

O percurso desenvolvido neste capítulo permite sustentar que a disputa contemporânea não ocorre apenas em torno da paz, mas do próprio significado político do sofrimento. Enquanto este permanecer reduzido à condição de experiência privada ou objeto de gestão, continuará incapaz de produzir ação coletiva e transformação histórica. A Cultura de Paz torna-se mercadoria precisamente quando desloca essa disputa do campo da política para o campo da administração. É nesse movimento que reside o núcleo da crítica desenvolvida neste ensaio.


6. Cultura de Paz Como Mercadoria

A hipótese que proponho neste ensaio apoia-se na compreensão de que a racionalidade neoliberal não atua apenas sobre a economia, as instituições ou as políticas públicas. Ela opera também por meio da reorganização de categorias éticas e políticas historicamente comprometidas com projetos emancipatórios. Nessa perspectiva, categorias como direitos humanos, participação, sustentabilidade, cidadania e a própria Cultura de Paz permanecem dotadas de elevado prestígio moral e ampla legitimidade social, mas passam progressivamente a desempenhar funções políticas distintas daquelas que originalmente orientaram sua constituição. É nesse horizonte interpretativo que proponho a categoria analítica Cultura de Paz como Mercadoria, não como descrição de um desvio, mas como chave para compreender o funcionamento contemporâneo do poder.

Essa categoria não pretende afirmar que a Cultura de Paz tenha surgido como mercadoria, nem negar sua importância histórica ou seu potencial ético. Ao contrário, parte do reconhecimento de que ela se constituiu como um campo comprometido com a redução das violências, com a educação para a paz, com a mediação dos conflitos e com a construção de sociedades mais justas. A questão que este ensaio coloca é outra. Interessa compreender o processo histórico por meio do qual a Cultura de Paz passa a desempenhar funções políticas distintas daquelas que originalmente justificaram sua formulação.

Por Cultura de Paz como Mercadoria compreendo o processo pelo qual a Cultura de Paz deixa de orientar prioritariamente a transformação das estruturas produtoras da violência para converter-se em um recurso político voltado à administração de seus efeitos. O conflito deixa de ser compreendido como expressão de relações históricas de poder e passa a ser tratado como problema de gestão. A violência estrutural cede lugar à linguagem da convivência. A desigualdade transforma-se em dificuldade de diálogo. A exclusão converte-se em problema de inclusão. O sofrimento torna-se objeto de acolhimento, mediação e acompanhamento, mas deixa progressivamente de constituir fundamento para a transformação das estruturas que continuamente o produzem.

Essa transformação não constitui um fenômeno isolado. Ela integra um mecanismo mais amplo que proponho denominar captura semântica das categorias emancipatórias. O neoliberalismo não governa apenas por meio da economia, das instituições ou da força. Ele governa também reorganizando os sentidos das palavras com as quais interpretamos o mundo. Seu poder não reside apenas na produção de mercadorias materiais, mas também na capacidade de redefinir o significado de categorias que acumulam elevado prestígio moral e ampla legitimidade pública.

É precisamente por essa razão que o neoliberalismo não destrói categorias como Cultura de Paz, direitos humanos, participação, sustentabilidade, inclusão, diversidade ou cidadania. Seria politicamente mais custoso abandoná-las do que preservá-las. O movimento é mais sofisticado. As palavras permanecem. O prestígio ético permanece. A legitimidade social permanece. O que se altera é sua função política. Categorias historicamente orientadas para questionar relações de dominação passam, progressivamente, a organizar sua administração. Continuam produzindo consenso, mas deixam de produzir, com a mesma intensidade, transformação.

A Cultura de Paz oferece um exemplo particularmente expressivo desse processo. Sua linguagem conserva enorme força normativa. Falar em paz continua mobilizando adesão, legitimidade e reconhecimento social. Entretanto, quando essa linguagem passa a operar prioritariamente como instrumento de governabilidade, seu centro de gravidade desloca-se. Em vez de perguntar por que determinadas formas de violência continuam sendo produzidas, passa a concentrar-se na administração de seus efeitos. Em vez de transformar estruturas, administra conflitos. Em vez de enfrentar as condições que produzem sofrimento, organiza mecanismos para regulá-lo, acolhê-lo e torná-lo suportável. A paz deixa de constituir um horizonte político de transformação para converter-se em tecnologia de gestão da ordem.

É exatamente nesse deslocamento que a Cultura de Paz adquire características de mercadoria. Como toda mercadoria, ela passa a circular, produzir legitimidade e gerar utilidade política. Seu valor deixa de decorrer apenas de seu conteúdo ético e passa a depender de sua capacidade de responder continuamente aos problemas produzidos por uma realidade que permanece estruturalmente inalterada. A violência, o sofrimento e os conflitos deixam de representar apenas aquilo que deve ser superado; tornam-se também as condições que justificam a permanente expansão dos dispositivos encarregados de administrá-los. Quanto menos as estruturas produtoras da violência são transformadas, maior se torna a necessidade de ampliar programas, políticas, metodologias e práticas voltadas à gestão da convivência e do sofrimento.

É a partir dessa hipótese que os autores mobilizados neste ensaio passam a dialogar. Johan Galtung demonstra que sociedades podem apresentar baixos índices de violência direta e, ainda assim, reproduzir formas profundas de violência estrutural. Antonio Gramsci explica como determinadas racionalidades tornam-se hegemônicas ao converter-se em senso comum. Michel Foucault mostra que a governamentalidade produz sujeitos capazes de administrar a si mesmos segundo as exigências da ordem. Herbert Marcuse evidencia que a crítica pode ser incorporada sem alterar as estruturas que a tornam necessária. Hannah Arendt recorda que a política desaparece quando o conflito deixa de inaugurar novos começos e passa a ser reduzido à administração. Paulo Freire e Frantz Fanon demonstram que toda emancipação começa quando o sofrimento produzido pela opressão é politicamente nomeado. Nenhum desses autores formula a categoria Cultura de Paz como Mercadoria. Contudo, colocados em diálogo, permitem compreender o processo histórico pelo qual uma categoria originalmente comprometida com a transformação social pode ser progressivamente reorganizada para servir à estabilização da ordem.

A hipótese aqui apresentada ultrapassa, portanto, a própria Cultura de Paz. Ela sugere que a captura semântica constitui um dos mecanismos mais sofisticados da racionalidade neoliberal. Ao preservar a legitimidade ética das categorias emancipatórias enquanto reorganiza silenciosamente suas funções políticas, o neoliberalismo governa não apenas as instituições ou os mercados, mas também os significados por meio dos quais interpretamos a realidade. A Cultura de Paz como Mercadoria constitui a manifestação exemplar desse processo.


Conclusão

O percurso desenvolvido ao longo deste ensaio permitiu formular uma hipótese que, embora atravesse os autores mobilizados, não se encontra explicitamente em nenhum deles. Proponho que o neoliberalismo não apenas captura a linguagem da paz, nem apenas a ressignifica em seu próprio benefício, mas a converte em uma mercadoria, operando por meio do dispositivo da cultura de paz. A categoria Cultura de Paz como Mercadoria designa o processo pelo qual a Cultura de Paz deixa de constituir um horizonte orientado pela transformação das estruturas produtoras da violência para converter-se em uma racionalidade voltada à administração dos conflitos, à gestão do sofrimento e à estabilização da ordem. Não se trata de uma simples apropriação discursiva, mas de uma alteração profunda em sua função política: a Cultura de Paz deixa de operar como critério de crítica das estruturas que produzem a violência e passa a administrar seus efeitos, deslocando a ação política para práticas de mediação, governança e gestão do sofrimento.

A Cultura de Paz como Mercadoria não é, portanto, uma ideia vazia; ela é uma prática política que produz efeitos concretos sobre os corpos e as subjetividades. Ela administra conflitos em vez de superá-los, comercializa estabilidade em vez de construir justiça, regula comportamentos em vez de libertar sujeitos, preserva as estruturas produtoras de sofrimento em vez de transformá-las. Como toda mercadoria, a Cultura de Paz como Mercadoria depende da existência de uma falta para justificar sua circulação e, nesse sentido, ela depende da permanência das guerras, das violências estruturais, da produção de inimigos e do sofrimento fabricado para continuar sendo oferecida como promessa. Sem sofrimento fabricado, a Cultura de Paz como Mercadoria perderia seu valor político e simbólico, pois é precisamente a permanência da dor que justifica a oferta perpétua de uma cultura de paz que nunca se realiza plenamente.

O verdadeiro problema contemporâneo, no entanto, talvez não seja apenas a disputa pelo significado da paz. O problema mais profundo é a crescente capacidade do neoliberalismo de capturar categorias éticas fundamentais — paz, direitos humanos, justiça social, inclusão, diversidade, participação —, esvaziar seu conteúdo emancipatório e convertê-las em mercadorias políticas e simbólicas, operando por meio de dispositivos como a cultura de paz. A Cultura de Paz como Mercadoria constitui uma manifestação exemplar desse processo mais amplo, que atinge o próprio coração da linguagem com que nomeamos nossas aspirações coletivas.

A reflexão final a que este ensaio conduz é que o sofrimento fabricado pela política da guerra precisa ser recolocado no centro da teoria crítica. O sofrimento não pode ser tratado como externalidade, como efeito colateral da ordem, como inevitabilidade natural. Ele deve aparecer como critério ético fundamental para julgar qualquer projeto de cultura de paz. A pergunta que orientou este ensaio — o que uma sociedade faz com o sofrimento que ela própria produz? — revela-se, assim, como a questão política por excelência. Uma sociedade que responde a essa pergunta administrando o sofrimento, silenciando-o, transformando-o em objeto de gestão e em gozo, não produz paz. Produz apenas estabilidade mercantilizada, uma estabilidade que preserva intactas as condições de produção do sofrimento que a própria cultura de paz deveria eliminar.

A Cultura de Paz Como Mercadoria é, nesse sentido, o nome que a cultura de paz assume quando se torna incapaz de responder à pergunta fundamental que toda política deveria enfrentar: como reconhecer, acolher e transformar o sofrimento fabricado pela guerra? A cultura de paz que se oferece como substituta da justiça, que administra o sofrimento em vez de superá-lo, que acolhe para silenciar, que inclui para controlar, não é paz. É a continuidade da guerra por outros meios. Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, a cultura de paz continuará a ser oferecida como mercadoria, uma mercadoria que promete aquilo que nunca entrega, que circula enquanto o sofrimento persiste, que se reproduz exatamente porque a justiça nunca chega.

O desafio que se coloca, portanto, não é apenas o de criticar a Cultura de Paz Como Mercadoria, mas o de inventar novas formas de vida, novas práticas e novas linguagens que recoloquem o sofrimento fabricado no centro da reflexão política — não como objeto de administração ou de gozo, mas como horizonte ético da transformação do mundo comum. A cultura de paz que não enfrenta a produção do sofrimento nas periferias, que administra o sofrimento fabricado em vez de superá-lo, que silencia a dor das famílias que perderam seus filhos para a polícia ou para as facções, não é paz. É a continuidade da guerra por outros meios. A epistemologia da cultura de paz, nesse sentido, é a epistemologia da governamentalidade neoliberal: ela não elimina a guerra; ela a administra.

_______________________________________
Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1975.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Original publicado em 1930.

GALTUNG, Johan. Violence, peace and peace research. Journal of Peace Research, v. 6, n. 3, p. 167-191, 1969.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Original publicado em 1651.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

MARCUSE, Herbert. A tolerância repressiva. In: WOLFF, Robert Paul; MOORE JR., Barrington; MARCUSE, Herbert. Crítica da tolerância pura. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 1996.

RAWLS, John. O direito dos povos. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Original publicado em 1999.


_______________________________
Como citar:

CASTRO, Vanessa Maria de. Cultura de Paz Como Mercadoria: uma crítica à captura neoliberal das categorias éticas. Palavras em Transe, Brasília, jun. 2026. Disponível em: httpshttps://palavraemtranse.blogspot.com/2026/06/cultura-de-paz-como-mercadoria-uma.html Acesso em: [data de acesso].



_________________________________
Sobre a autora

Vanessa Maria de Castro é professora da Universidade de Brasília (UnB), onde atua na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia (FCTE) e no Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania. É também psicanalista. Mantém o blog Palavras em Transe, espaço no qual estabelece um diálogo aberto sobre os temas que pesquisa e que a interpelam como pensadora, com destaque para as relações entre política e sofrimento. Este ensaio, sobre cultura de paz: um convite a pensar a cultura de paz a partir de uma perspectiva crítica, motivado pelo diálogos os(as) discentes da graduação, do mestrado e do doutorado.


Adeus, Edgar Morin

 

Adeus, Edgar Morin

A morte de um mestre é sempre um momento de profundos sentimentos. De um lado, a dor que inaugura a eterna ausência. De outro, a gratidão por tudo o que foi vivido em sua presença.

A obra de Edgar Morin é monumental. Poucos intelectuais marcaram de forma tão profunda o pensamento dos séculos XX e XXI. Sua reflexão atravessou a filosofia, a sociologia, a educação, a política, a cultura, a ecologia, a ciência e a epistemologia, produzindo uma das mais importantes contribuições intelectuais de nosso tempo.

Entre suas maiores contribuições está a formulação do pensamento complexo. Em uma época marcada pela fragmentação dos saberes, Morin chamou atenção para a necessidade de religar aquilo que havia sido separado. Para ele, compreender a realidade exigia reconhecer as múltiplas relações que constituem os fenômenos humanos, sociais, culturais e naturais. O pensamento complexo não era uma defesa da complicação, mas um convite a reconhecer que a vida, a sociedade e a humanidade não podem ser reduzidas a explicações lineares e simplificadoras.

Edgar Morin foi também um dos grandes pensadores epistemológicos dos séculos XX e XXI. Sua obra produziu uma profunda reflexão sobre os modos de construção do conhecimento. Ao questionar a excessiva especialização dos saberes, mostrou que conhecer exige contextualizar, relacionar e compreender as interdependências que ligam os diferentes fenômenos. Sua reflexão contribuiu para uma verdadeira transformação na forma de pensar a produção do conhecimento, influenciando universidades, centros de pesquisa e projetos educacionais em diferentes países.

Sua reflexão ultrapassou fronteiras disciplinares e nacionais, alcançando universidades, centros de pesquisa e projetos educacionais em diferentes partes do mundo. No Brasil e na América Latina, Edgar Morin encontrou um espaço particularmente fértil de diálogo. Seu pensamento marcou gerações de pesquisadoras, pesquisadores, educadoras, educadores e estudantes, tornando-se uma presença importante nos debates sobre educação, democracia, cidadania, cultura, meio ambiente e produção do conhecimento. Era um intelectual profundamente respeitado e querido entre nós, não apenas pela força de sua obra, mas também pela generosidade intelectual e pela forma sensível com que pensava os destinos da humanidade.

A trajetória de Edgar Morin confunde-se com a própria história do último século. Nascido em 1921, viveu uma infância marcada pelas consequências da Primeira Guerra Mundial e, ainda jovem, participou da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Testemunhou os totalitarismos, a reconstrução da Europa, a Guerra Fria, os processos de descolonização, a globalização, as revoluções tecnológicas e as profundas transformações culturais e políticas do mundo contemporâneo. Sua obra foi construída em diálogo permanente com essas experiências históricas, o que lhe conferiu uma rara capacidade de compreender as crises, as incertezas e os desafios de seu tempo.

Uma das contribuições mais importantes de Edgar Morin foi mostrar que a humanidade não pode ser pensada de forma isolada de seu contexto planetário. Ao longo de sua obra, interrogou continuamente a condição humana. Quem somos? Como nos constituímos como indivíduos e como espécie? Como convivemos com nossas contradições, nossas fragilidades, nossas violências e nossas esperanças? Como construir um futuro comum diante dos desafios que ameaçam a vida na Terra?

Ao refletir sobre nossa presença nesta espaçonave chamada Terra, Morin convidou-nos a reconhecer que compartilhamos uma comunidade de destino. Sua preocupação não era colocar a humanidade acima ou no centro de tudo, mas religá-la ao planeta, à natureza, à vida e às múltiplas interdependências que constituem a existência humana. O que significa habitar esta Terra? Que responsabilidades temos diante das futuras gerações? Como enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras nacionais, culturais e disciplinares? Essas perguntas atravessam sua obra e permanecem particularmente atuais em um mundo marcado por crises ambientais, conflitos, desigualdades e incertezas.

Sua reflexão sobre a relação entre humanidade e planeta também antecipou debates que se tornariam centrais nas décadas seguintes. Muito antes de a crise ambiental ocupar o centro das preocupações globais, Morin já insistia na necessidade de compreender a Terra como uma comunidade de destino compartilhado. Sua defesa de uma consciência planetária permanece uma das contribuições mais importantes para os debates contemporâneos sobre sustentabilidade, democracia e futuro da humanidade. Uma das maiores lições de Edgar Morin foi justamente esta: compreender que o destino da humanidade não pode ser separado do destino da própria Terra.

Há pessoas que têm a rara capacidade de nos traduzir o mundo de uma forma poética. Edgar Morin era uma delas.

Havia em sua obra algo de ciência, algo de filosofia, algo de arte e algo de profunda humanidade. Morin parecia escutar o mundo antes de interpretá-lo. Escutava suas dores, suas crises, suas esperanças e suas contradições. Somente depois falava. Por isso suas análises permanecem tão atuais. Elas não encerram questões. Elas abrem caminhos.

Sua obra é um esplendor de beleza, inquietação e incômodo. Beleza porque amplia horizontes e nos ajuda a compreender melhor a aventura humana. Inquietação porque jamais permite acomodações diante da complexidade do mundo. Incômodo porque desafia certezas, questiona explicações simplificadoras e nos confronta permanentemente com as contradições da condição humana. Edgar Morin nos convida a pensar para além das fronteiras disciplinares, dos reducionismos e das respostas prontas.

Ainda na graduação, nos idos da década de 1980, comecei a estudar a obra de Edgar Morin. Desde então, seu pensamento acompanhou minha trajetória intelectual. O que mais me impressionava em sua reflexão era a coragem de enfrentar a complexidade da condição humana sem recorrer a simplificações. 

Ao longo das décadas, tive o privilégio de ouvi-lo em diferentes momentos e de acompanhar sua produção intelectual. Em 2018, fui convidada a realizar um período sabático junto ao Centro Edgar Morin, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Foi um período de grande aprendizado, reflexão e convivência intelectual em um ambiente profundamente marcado pelo pensamento complexo. As fotografias que acompanham este texto foram registradas naquele período e estão entre as últimas que tirei de Edgar Morin.

Considero um privilégio ter podido ouvi-lo diversas vezes ao longo dos anos e estar em sua presença. São lembranças que hoje se unem à gratidão por tudo aquilo que sua obra representou em minha trajetória intelectual.

Ao reler os textos que escrevi por ocasião de seu centenário, reencontro uma ideia que continua a me acompanhar: Edgar Morin foi a expressão de uma vida intelectualmente ativa. Sua inquietação diante do mundo nunca cessou. Ao longo de mais de um século de existência, continuou refletindo, escrevendo, dialogando e interrogando os destinos da humanidade. Sua grandeza residia justamente nessa capacidade de permanecer em movimento, de continuar aprendendo e de não renunciar ao esforço de compreender a complexidade da condição humana.

Ao longo de seus 104 anos de vida, Edgar Morin permaneceu intelectualmente ativo, curioso, generoso e profundamente comprometido com a tarefa de compreender seu tempo.

Perdemos hoje um grande mestre. Sua partida deixa um vazio. Permanecem, contudo, sua obra, suas perguntas, sua ética, sua generosidade intelectual e a inquietação que atravessa todo o seu pensamento.

Há a dor da partida. Mas há também a gratidão por tudo aquilo que Edgar Morin nos deixou: uma obra monumental, uma reflexão profundamente humana e um legado intelectual que continuará acompanhando muitas gerações.

Sou profundamente grata por ter vivido em um tempo em que foi possível aprender com Edgar Morin, estudar sua obra, ouvi-lo diversas vezes e estar em sua presença. Considero um privilégio ter podido encontrá-lo e testemunhar, ainda que em alguns momentos de sua longa trajetória, a extraordinária vitalidade intelectual de alguém que dedicou sua vida à humanidade e ao conhecimento.

Muito obrigada, Edgar Morin, por dedicar sua vida à humanidade e ao conhecimento.

Vanessa Maria de Castro

Brasília, 29 de maio de 2026



A realidade negada: identificação, denegação e psicologia das massas na política contemporânea

Série: Caderno de Estudos

A realidade negada: identificação, denegação e psicologia das massas na política contemporânea

Vanessa Maria de Castro  |  Brasília, maio de 2026

Introdução

O presente ensaio investiga, a partir de um quadro teórico psicanalítico e psicossocial, por que grupos sociais aderem e mantêm fidelidade a líderes políticos mesmo quando esses líderes demonstram, de forma objetiva e documentada, comportamentos contraditórios, violentos, corruptos, misóginos, racistas ou agressivos. O argumento central é que tal adesão não é primariamente ideológica ou racional. Ela é estrutural e psíquica, fundada nos mecanismos de identificação libidinal com o líder, formulados por Sigmund Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), de identificação imaginária especular, desenvolvidos por Jacques Lacan em Escritos (1998), de produção de verdade emocional por repetição e símbolo, analisados por Gustave Le Bon em Psicologia das Massas (2013), e de redução da dissonância cognitiva, proposta por Leon Festinger em A Theory of Cognitive Dissonance (1957). O ensaio demonstra que a imagem do líder é construída como contrafactual, não como representação da realidade objetiva, mas como projeção dos desejos, medos e ideais do grupo. A narrativa política sistemática, a ritualização simbólica e as plataformas digitais contemporâneas constituem os principais instrumentos dessa construção. O texto analisa casos concretos da extrema-direita brasileira e situa o fenômeno em uma perspectiva histórica que se estende do século XIX ao presente.

1 LIDERANÇA, MASSA E NEGAÇÃO DA REALIDADE

Um fenômeno recorrente na política contemporânea é a fidelidade demonstrada por parcelas significativas da população a líderes cujas ações, discursos e históricos biográficos violam abertamente preceitos éticos, legais e civilizatórios. O apoio persistente a figuras públicas que manifestam misoginia, racismo, homofobia ou corrupção, ou que adotam posturas violentas e contraditórias, desafia explicações baseadas apenas na racionalidade ou em interesses materiais.

Em 2018, durante a campanha presidencial brasileira, Jair Bolsonaro, candidato com décadas de registros públicos de declarações misóginas, racistas e homofóbicas, que havia sido expulso do Exército por indisciplina e cuja trajetória parlamentar era marcada por baixa expressão legislativa, foi eleito presidente da República com mais de 57 milhões de votos (TSE, 2018). Nos anos seguintes, diante de denúncias de corrupção, de uma gestão da pandemia marcada por intensas controvérsias políticas e sanitárias, e de condutas que contradiziam sistematicamente os valores proclamados pelo próprio presidente, sua base de apoio permaneceu sólida. Em 2022, ele obteve mais de 58 milhões de votos na tentativa de reeleição (TSE, 2022).

Esse fenômeno desafia a análise racionalista: como os eleitores podem apoiar alguém cuja realidade objetiva contradiz tão frontalmente a imagem que projeta de si mesmo? A evidência factual frequentemente não dissolve a adesão. A resposta usual, baseada em ignorância, manipulação ou interesses materiais, é insuficiente para explicar a intensidade emocional, a fidelidade às contradições e a hostilidade que a crítica ao líder desperta nos seguidores.

O presente ensaio propõe que a adesão a líderes contraditórios, violentos ou corruptos não é primariamente um fenômeno de engano ou manipulação. Trata-se de um fenômeno estrutural e psíquico. Ela obedece a mecanismos estudados por Gustave Le Bon (2013), que analisou como símbolos, gestos e repetição consolidam a adesão coletiva; por Sigmund Freud (1921; 1917), que explorou a identificação libidinal com o líder, a projeção da agressividade em inimigos simbólicos e a melancolia coletiva; e por Jacques Lacan (1985; 1998), que concebeu o eu imaginário, o líder como objeto do grande Outro e a função dos símbolos e rituais na manutenção da adesão. Complementa-se essa perspectiva com Leon Festinger (1957), que descreveu a dissonância cognitiva e os mecanismos psíquicos que sustentam crenças coletivas mesmo diante de evidências contrárias.

O argumento central deste ensaio é que, no centro dessa estrutura psíquica, encontra-se a construção da imagem contrafactual do líder. Essa é uma imagem que não corresponde à realidade objetiva, mas que é sustentada por repetição simbólica, ritual coletivo, narrativa política sistemática e mecanismos de defesa psíquica. É essa imagem contrafactual, e não o líder real, que gera identificação, obediência e defesa coletiva.

O ensaio está organizado em sete seções. A seção 2 apresenta os fundamentos teóricos. A seção 3 analisa a construção da imagem contrafactual. A seção 4 examina as liturgias simbólicas e o papel das plataformas digitais. A seção 5 integra a análise em um quadro psicanalítico. A seção 6 traça a perspectiva histórica. A seção 7 apresenta as conclusões.

2 O PROBLEMA TEÓRICO: QUANDO A REALIDADE NÃO IMPORTA

2.1 Gustave Le Bon: alma coletiva, símbolos e verdade emocional

Gustave Le Bon (1841-1931) foi um psicólogo e sociólogo francês considerado pioneiro no estudo da psicologia das massas. Em sua obra Psicologia das Massas (1895/2013), ele descreve como indivíduos inseridos em grupos se comportam de forma distinta de quando isolados. Segundo Le Bon (2013), quando pessoas se reúnem em massa, surge uma alma coletiva. Essa é uma mentalidade emergente que não é apenas a soma das individualidades, mas um fenômeno psíquico próprio, capaz de guiar sentimentos, crenças e ações. Essa alma coletiva amplifica emoções, reduz a racionalidade individual e cria uma forte sugestibilidade, tornando a massa impulsiva, instável e altamente receptiva à influência simbólica.

Le Bon (2013) observa que a massa é mais influenciada por imagens, gestos e símbolos do que por argumentos ou fatos lógicos. Afirmações simples, concisas e repetidas, incorporadas em rituais e gestos coletivos, transformam-se em verdades emocionais que consolidam crenças e orientam comportamentos. O líder que consegue encarnar essas emoções coletivas transforma-se em um símbolo vivo da alma da massa, estabelecendo vínculos de identificação, lealdade e obediência, mesmo diante de contradições ou comportamentos problemáticos.

Entre os princípios centrais que Le Bon (2013) identifica, destacam-se: as massas não respondem prioritariamente à razão; o símbolo vale mais que o argumento; a repetição cria verdade emocional; o líder encarna uma imagem central; a política moderna se organiza por emoção coletiva.

Ele detalha três mecanismos que tornam esses princípios eficazes. O primeiro é o prestígio do líder. A autoridade simbólica do líder supera qualquer argumento racional. Ele condensa e personifica os desejos, medos e esperanças coletivas da massa, tornando-se objeto de identificação. O segundo é a repetição. Ideias, gestos e slogans repetidos criam familiaridade e percepção de verdade. Le Bon (2013, p. 87) afirma: "A afirmação, pura e simples, desprovida de qualquer raciocínio e qualquer prova, é o meio mais seguro para gravar uma ideia no espírito das massas. Quanto mais concisa for uma afirmação, mais desprovida de qualquer aparência de prova e demonstração, mais autoridade ela exerce". O terceiro é o contágio. Estados emocionais se propagam lateralmente entre os membros da massa, dispensando qualquer avaliação racional individual. Emoções coletivas como medo, ódio ou entusiasmo se espalham rapidamente, reforçando a coesão e a mobilização do grupo.

Para Le Bon (2013), a massa é capaz de ações extremas: violência coletiva, perseguição de inimigos simbólicos, destruição de instituições ou imposição de crenças sem base lógica. A identificação com o líder, a repetição de símbolos e o contágio emocional criam vínculos profundos e duradouros, resistentes à crítica e às evidências objetivas. As contradições do líder não enfraquecem a adesão, porque a massa reage à emoção e à identificação simbólica, e não à lógica.

Le Bon (2013) também detalha como a alma coletiva influencia a moral, a ética e o comportamento social. A massa exagera sentimentos, alterna rapidamente entre heroísmo e violência, e interpreta eventos por imagens, não por evidências. A emoção coletiva se torna uma força política capaz de mobilizar, organizar e consolidar o poder. Le Bon (2013) argumenta que líderes eficazes compreendem essa dinâmica e utilizam símbolos, ritualização e repetição para consolidar autoridade, canalizando a energia emocional da massa em objetivos políticos concretos.

Outro aspecto essencial é a construção da imagem do líder. Para Le Bon (2013), o líder não representa fatos ou programas. Ele condensa os desejos e medos difusos da massa em uma figura que serve de referência emocional. Essa imagem permite que o líder seja seguido mesmo diante de comportamentos contraditórios. Gestos simbólicos, slogans repetitivos e rituais de massas são instrumentos que reforçam essa identificação. A narrativa política, quando sistematicamente repetida, torna-se eficaz não por lógica, mas pelo efeito psíquico da familiaridade.

Psicologia das Massas (LE BON, 2013) fornece as bases para compreender como a emoção se sobrepõe à razão na adesão coletiva; como a repetição e o ritual consolidam a verdade emocional; como a massa internaliza símbolos e identifica-se com o líder; e como líderes transformam emoção coletiva em poder político duradouro. A relevância desta obra é histórica e contemporânea. Desde a análise de líderes do século XX até fenômenos atuais de extrema-direita, Le Bon (2013) explica por que a adesão política muitas vezes não se dissolve diante da evidência, e como a combinação de símbolos, rituais e repetição cria vínculos psíquicos que estruturam a lealdade à liderança.

2.2 Nicolau Maquiavel: estratégia e manutenção do poder

Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um pensador, diplomata e historiador italiano cuja obra mais conhecida, O Príncipe (1532/2018), permanece central na reflexão sobre liderança e poder político. Diferentemente de Le Bon (2013), que concentra sua análise na psicologia das massas e na mobilização emocional, Maquiavel (2018) foca na arte de governar, no cálculo estratégico, na manutenção da autoridade e na organização da estrutura política para garantir o poder do líder.

Para Maquiavel (2018), a liderança eficaz depende de pragmatismo, astúcia e capacidade de adaptação. O líder deve conhecer as circunstâncias políticas, avaliar riscos, manipular alianças, controlar instituições e, quando necessário, agir de maneira moralmente ambígua para preservar sua autoridade. O objetivo não é agir segundo princípios éticos universais, mas garantir sobrevivência política e estabilidade do Estado.

A obra de Maquiavel (2018) destaca elementos centrais: a importância do controle estratégico sobre instituições e aliados; a necessidade de compreender o comportamento humano e o contexto político para antecipar desafios; o uso de símbolos, propaganda e autoridade pessoal como instrumentos para consolidar poder; e a flexibilidade moral do líder, que deve priorizar resultados políticos e estabilidade sobre moral convencional.

Enquanto Le Bon (2013) explica como a massa reage emocionalmente e se identifica com o líder, Maquiavel (2018) explica como o líder organiza, articula e mantém o poder dentro de um sistema político e social. Juntos, esses dois pensadores oferecem uma visão completa da liderança: um lado analisa a mobilização emocional das massas, e o outro a manutenção estratégica do poder político.

Essa perspectiva é crucial para compreender fenômenos contemporâneos de liderança política. A fidelidade intensa a líderes contraditórios, observada em diversos contextos históricos e atuais, só pode ser explicada considerando a conjunção entre mobilização emocional e competência estratégica. Essa conjunção mantém o vínculo entre líder e massa mesmo diante de evidências contrárias ou comportamentos incoerentes.

2.3 Sigmund Freud: identificação libidinal e a distorção do julgamento

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Sigmund Freud parte das observações de Le Bon (2013) para oferecer uma explicação do mecanismo que as fundamenta: a identificação libidinal. Para Freud (1921), o laço que mantém a massa unida não é apenas emocional na superfície. Ele é libidinal em profundidade, pois envolve um investimento de energia psíquica que transforma o líder em objeto de amor.

A estrutura descrita por Freud (1921) é precisa: cada membro da massa coloca o líder no lugar de seu ideal do eu. Essa é a instância psíquica que representa o que o sujeito quer ser, seus valores mais elevados, sua imagem de si mesmo no melhor. Quando o líder ocupa esse lugar, atacar o líder equivale, para o seguidor, a atacar o ideal de si mesmo. Daí a intensidade da defesa: ela não é defesa do líder como pessoa externa, mas defesa do eu do próprio seguidor.

Freud (1921, p. 92) afirma: "A massa é claramente mantida unida por um poder de algum tipo; e a qual poder poderia essa realização ser mais bem atribuída que ao Eros, que mantém tudo no mundo unido?"

A identificação libidinal tem uma consequência decisiva para o tema deste ensaio. Ela produz uma distorção sistemática do julgamento. O amor e o julgamento, para Freud (1921), são incompatíveis. Amar um objeto significa superestimá-lo, atribuir-lhe qualidades que ele não possui, e negar ou minimizar suas faltas. O seguidor que ama o líder não está sendo enganado por falta de informação. Ele está sendo movido por um mecanismo psíquico que transforma o líder real em líder idealizado, independentemente da evidência.

Em Luto e Melancolia (1917), Freud acrescenta uma dimensão importante. Quando o objeto amado é ameaçado ou perdido, o sujeito pode responder com uma identificação melancólica, incorporando o objeto ao próprio eu. Transposta para a dinâmica de massa, essa estrutura explica a resistência à perda do líder. Perdê-lo seria perder uma parte do eu. A adesão ao líder, portanto, não diminui diante da evidência de suas faltas. Ela pode intensificar-se como defesa contra a ameaça de perda.

2.4 Jacques Lacan: o eu imaginário e o líder como espelho coletivo

Jacques Lacan (1998) radicaliza a tese freudiana ao demonstrar que o eu não é uma entidade preexistente que, em seguida, se identifica com o líder. O eu é, desde o início, uma construção imaginária. A célebre teoria lacaniana do estádio do espelho propõe que o eu se forma a partir de uma imagem exterior, a imagem especular, com a qual o infante se identifica. Essa identificação produz a ilusão de unidade e coerência que o organismo, em si mesmo, não possui.

Essa estrutura originária da identificação especular tem um correlato político preciso. O líder carismático de massa funciona como um espelho coletivo. Ele devolve ao grupo uma imagem de si mesmo que é ao mesmo tempo reconhecível e idealizada. O grupo se vê no líder como o infante se vê no espelho: unificado, coerente, poderoso. O líder não representa o grupo como ele é. Ele representa o grupo como ele quer ser.

Lacan (1998, p. 97) afirma: "O que o sujeito encontra no outro especular não é simplesmente uma imagem de si mesmo, mas a imagem de uma completude que lhe falta".

Daí uma consequência fundamental para a compreensão da adesão a líderes contraditórios. A realidade objetiva do líder, sua violência, sua corrupção, suas contradições, é simplesmente irrelevante para a função que ele cumpre na economia psíquica do seguidor. O que importa não é quem o líder é, mas que imagem ele oferece. E se a imagem oferecida, de força, de autenticidade, de grandeza, de rejeição do politicamente correto, satisfaz uma necessidade profunda do eu do seguidor, a realidade factual do líder se torna, literalmente, um ruído de fundo.

Lacan (1985) também contribui com a teoria do grande Outro, a ordem simbólica que estrutura o campo do sujeito. O líder de extrema-direita frequentemente se apresenta como aquele que diz a verdade que o Outro (o sistema, a mídia, o establishment) oculta. Ao ocupar essa posição, ele não apenas oferece uma imagem especular. Ele oferece uma versão alternativa da ordem simbólica, um substituto para o grande Outro que o grupo sente como corrompido ou hostil. A adesão ao líder é, então, também uma adesão a uma realidade alternativa, o que explica sua resistência especialmente intensa à contradição empírica.

2.5 Leon Festinger: dissonância cognitiva e o paradoxo da evidência

A teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger (1957) oferece, em termos cognitivos e comportamentais, uma descrição precisa do mecanismo que impede a evidência de dissolver a adesão ao líder. Festinger (1957) identificou que, quando sujeitos com forte investimento em uma crença se deparam com evidências que a contradizem, eles não abandonam a crença. Ao contrário, ativam mecanismos de redução da dissonância que podem incluir: a desqualificação da fonte da evidência; a reinterpretação da evidência como confirmação da crença; a busca ativa de informações que confirmem a crença; e a intensificação do proselitismo como forma de reduzir a ansiedade gerada pela dissonância.

O estudo clássico de Festinger (1957) sobre um grupo apocalíptico é paradigmático para a compreensão do comportamento político que aqui se analisa. Esse grupo aguardava o fim do mundo em uma data específica e, diante da não ocorrência, não abandonou a crença. Pelo contrário, a reforçou e intensificou o recrutamento. Quando um seguidor de extrema-direita se depara com evidências de corrupção do líder que venera, o mecanismo típico não é a revisão da crença, mas a desqualificação da evidência. A mídia mente, as provas foram fabricadas, os adversários estão desesperados.

Festinger (1957) descobriu ainda que a dissonância tende a ser maior quanto maior o investimento prévio na crença ameaçada. Isso tem uma implicação paradoxal e contra intuitiva para a política. Quanto mais graves as evidências contra o líder, e quanto mais o seguidor havia investido emocionalmente nele, maior a energia psíquica mobilizada para defender o líder, e não para abandoná-lo. A crítica racional, nesse contexto, não apenas falha. Ela pode produzir o efeito oposto ao pretendido, aprofundando a adesão ao invés de dissolvê-la.

2.6 Quadro analítico: identificação e denegação da realidade

O quadro a seguir sintetiza as contribuições de Gustave Le Bon (2013), Nicolau Maquiavel (2018), Sigmund Freud (1921; 1917), Jacques Lacan (1985; 1998) e Leon Festinger (1957) para a compreensão da adesão das massas a líderes contraditórios e da negação da realidade. Ele organiza de forma analítica os elementos centrais de cada autor, destacando quem está mais sujeito à influência do líder, como a adesão é construída, os mecanismos de identificação e os processos de denegação da realidade, bem como os efeitos práticos sobre o comportamento coletivo.

Quadro analítico 01: identificação e denegação da realidade
AutorDatasObras principaisQuem está sujeitoComo a adesão é construídaIdentificaçãoDenegação da realidade (o que é negado)Efeito prático/comportamental
Gustave Le Bon1841-1931Psicologia das Massas (1895/2013)Indivíduos em grupos sugestionáveis; massas emocionaisSímbolos, gestos, slogans e ritualizações repetidas; líder encarna emoção da massaIdentificação simbólica: líder representa desejos e medos coletivosNega a racionalidade individual e a importância de evidências ou fatos objetivosA massa age por emoção, repete gestos e slogans; contradições do líder são irrelevantes
Nicolau Maquiavel1469-1527O Príncipe (1532/2018)Indivíduos dependentes de ordem, estabilidade e segurançaControle de instituições, alianças estratégicas, propaganda, manipulação de símbolosIdentificação pragmática: líder percebido como autoridade e proteçãoNega a incoerência do poder e das contradições políticas; crises são reinterpretadas como estratégiaO líder mantém autoridade; coesão do grupo reforçada mesmo diante de contradições
Sigmund Freud1856-1939Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921); Luto e Melancolia (1917)Indivíduos com frustrações, perdas ou insegurançasTransferência libidinal; líder funciona como pai simbólico, absorvendo desejos e frustraçõesIdentificação libidinal direta com o líder (pai simbólico)Nega a agressividade, injustiça ou violência do líder, e os efeitos de comportamentos moralmente condenáveisMassa justifica e defende o líder; atos violentos ou discriminatórios são internalizados como normais
Jacques Lacan1901-1981O Seminário, Livro 11 (1985); Escritos (1998)Indivíduos com lacunas no eu ou auto imagem incompletaLíder como objeto especular; símbolos e ritual reforçam vínculo imaginárioIdentificação imaginária: a massa projeta no líder aquilo que lhe faltaNega fatos que contradizem a imagem idealizada do líder; realidade objetiva filtrada pelo desejoFidelidade resistente à crítica; coesão e lealdade mantidas mesmo diante de evidências objetivas
Leon Festinger1919-1989A Theory of Cognitive Dissonance (1957)Indivíduos com crenças rígidas ou inconsistentesReinterpretação, justificativa ou negação de contradiçõesIdentificação indireta: lealdade protege coerência internaNega informações que conflitam com crenças preexistentes ou ideologia do grupoEvidências contrárias são neutralizadas cognitivamente; lealdade e engajamento aumentam

Fonte: elaborado pela autora a partir de Le Bon (2013), Maquiavel (2018), Freud (1917; 1921), Lacan (1985; 1998) e Festinger (1957).

O quadro permite visualizar como diferentes dimensões, como a emocional, a simbólica, a libidinal, a imaginária e a cognitiva, se combinam para sustentar a fidelidade à liderança. Ele explica por que fatos ou comportamentos que contradizem a imagem do líder não enfraquecem a adesão. Este mapeamento oferece uma base teórica integrada para compreender fenômenos de mobilização, ritualização e coerção emocional observados em contextos históricos e contemporâneos.

3 A IMAGEM CONTRAFACTUAL DO LÍDER

3.1 A construção da imagem versus a realidade objetiva

O conceito de imagem contrafactual do líder, que propomos aqui, refere-se à construção simbólica que o grupo faz do líder em dissonância com a realidade objetiva. Não se trata de um simples equívoco ou de ignorância de fatos. Trata-se de uma construção ativa, sustentada por mecanismos psíquicos e sociais, que transforma o líder real, com suas contradições, falhas e crimes, no líder idealizado que o grupo precisa.

No caso da extrema-direita brasileira contemporânea, a imagem contrafactual de Jair Bolsonaro é ilustrativa. O líder real é, documentadamente, um militar expulso do Exército; um deputado com três décadas de trajetória parlamentar com baixa expressão legislativa; um indivíduo com histórico de declarações de ódio contra mulheres, como a frase "Não te estupro porque você não merece" dita a uma parlamentar, contra negros, com afirmações sobre quilombolas que mobilizaram processos por racismo, contra LGBTQIA+ e minorias diversas (CASTRO, 2019; 2025); alvo de investigações por corrupção, inclusive na forma de rachadinha e de desvio de joias de Estado; responsável por uma gestão da pandemia marcada por intensas controvérsias políticas e sanitárias.

A imagem construída pela massa, no entanto, é radicalmente diferente: a do patriota incorruptível, do militar disciplinado e honrado, do cristão devoto e defensor da família, do homem corajoso que enfrenta sozinho um sistema corrupto, do líder que diz o que o povo pensa. Cada elemento dessa imagem contradiz diretamente a realidade documentada. E é precisamente essa contradição, não apesar dela, mas por causa dela, que torna a imagem tão necessária. Ela não representa quem o líder é, mas quem a massa precisa que ele seja.

3.2 A narrativa política como instrumento estrutural de adesão

A narrativa política, entendida não como mero erro factual, mas como produção sistemática de narrativas que operam independentemente da verificação empírica, não é um elemento acidental na dinâmica de massa da extrema-direita. Ela é estrutural. Sua função não é informar, mas criar e manter a imagem contrafactual do líder e do grupo.

A narrativa política de extrema-direita opera em múltiplos níveis. No nível da narrativa histórica, fábrica um passado glorioso que teria sido destruído pelos adversários: o Brasil que era grande até a chegada da esquerda, a família que era sólida até a chegada da ideologia de gênero, a segurança que existia antes do desarmamento. No nível da narrativa presente, produz uma realidade alternativa: as vacinas são perigosas, as urnas eletrônicas são fraudadas, o Supremo Tribunal Federal é marxista, a mídia é controlada por interesses estrangeiros. No nível da narrativa futura, promete uma salvação impossível: apenas o líder pode salvar o país, devolver a família e restaurar a grandeza.

Do ponto de vista psicanalítico, a narrativa política cumpre a mesma função que a fantasia no plano individual. Ela preenche a falta, oferece coerência onde há fragmentação, e promete completude onde há incompletude. O sujeito que adere às narrativas conspiratórias da extrema-direita não está simplesmente mal informado. Ele está satisfazendo uma necessidade psíquica de sentido, de agência, de pertencimento a um grupo que conhece a verdade que os outros ignoram.

Hannah Arendt (1989), ao analisar o totalitarismo, identificou que o poder das narrativas totalitárias reside menos em sua verossimilhança do que em sua capacidade de organizar a realidade em um sistema coerente e abrangente. O seguidor que adere ao sistema de narrativas da extrema-direita não está acreditando em afirmações isoladas. Ele está aderindo a uma cosmologia alternativa completa, que substitui a realidade fragmentada e angustiante por uma narrativa coerente de inimigos e heróis, traição e salvação.

3.3 A contradição incorporada: violência, corrupção e heroísmo

Um dos aspectos mais desconcertantes da adesão ao líder contraditório é que, em muitos casos, a contradição não precisa ser ocultada. Ela pode ser incorporada à imagem heroica do líder. O líder violento torna-se o líder forte. O líder que profere declarações racistas e misóginas é percebido como aquele que diz o que todos pensam, mas não ousam expressar. Acusações contra o líder passam a ser reinterpretadas pelo grupo como evidência de perseguição política.

Esse mecanismo, a incorporação da contradição à narrativa heroica, é descrito por Le Bon (2013) como parte do prestígio do líder. O líder carismático tem a capacidade de transformar suas fraquezas em provas de sua força. Quando Adolf Hitler exaltava o desejo de guerra e de domínio que a moralidade convencional obrigava a reprimir, ele estava liberando, com autoridade simbólica, impulsos que estavam presentes no grupo. A adesão não era apesar da violência. A performatividade da força tornava-se elemento central da adesão grupal.

No caso brasileiro, declarações de Bolsonaro que provocaram indignação entre seus adversários, como o "não vou estuprar você", o "os quilombolas não servem nem para procriar", o "vou fuzilar a petralhada", foram, em grande medida, celebradas por seus seguidores como provas de autenticidade. A violência da declaração sinalizava que o líder não estava sujeito às restrições do politicamente correto. Ele era livre para dizer o que o grupo sente, mas que as normas sociais proibiam de expressar. A violência, aqui, convertia-se em importante operador de identificação coletiva.

O líder não precisa corresponder à realidade objetiva. Sua base de seguidores o idealiza, projeta desejos, medos e expectativas nele. Contradições e incoerências não enfraquecem a adesão porque o grupo nega a realidade e reforça a narrativa heroica. A identificação é sustentada por símbolos, rituais, gestos e plataformas digitais. Ele atua como suporte narcísico, devolvendo ao grupo uma sensação de força, pertencimento e completude que não encontram na realidade objetiva. No contexto brasileiro contemporâneo, o caso de Bolsonaro ilustra como a imagem contrafactual do líder se mantém mesmo diante de evidências objetivas contrárias, revelando a força desses mecanismos psíquicos (Le Bon, 2013; Sigmund Freud, 1921; Jacques Lacan, 1998).

4 LITURGIAS SIMBÓLICAS E PLATAFORMAS DIGITAIS

4.1 Gestos, bandeiras e performatividade corporal

A imagem contrafactual do líder não se sustenta apenas por narrativas verbais. Ela é constantemente reencenada e reforçada por uma liturgia simbólica que mobiliza o corpo, o gesto, a voz e os objetos. Essa liturgia cumpre, do ponto de vista psíquico, uma função análoga ao rito religioso. Ela materializa e consolida a identificação, transformando crenças abstratas em experiências corporais imediatas.

O gesto da arminha, o dedo indicador apontado e o polegar levantado em simulação de pistola, é um exemplo paradigmático de símbolo político condensado. Em um único gesto, ele comunica um conjunto denso de significações: celebração das armas (e, por extensão, da masculinidade e da força), rejeição do controle estatal sobre o armamento, identificação com o líder que performatiza o mesmo gesto, demarcação de fronteira entre o grupo e seus adversários. O gesto não argumenta. Ele identifica. Quem o faz diz, ao mesmo tempo, "sou do grupo" e "partilho desta imagem".

A apropriação das cores verde e amarelo da bandeira nacional funciona como um poderoso símbolo de identificação do grupo com a nação e, simultaneamente, de deslegitimação dos adversários, que se tornam antipatriotas. Nessa lógica, vestir a camiseta da seleção em uma manifestação política equivale a declarar: "estou do lado do Brasil". A contradição surge quando se observa que os líderes e familiares centrais do movimento demonstram devoção aos Estados Unidos, chegando a bater continência a figuras como Trump, enquanto reivindicam patriotismo nacional. Essa incoerência flagrante não diminui, porém, a adesão. Os apoiadores mantêm manifestações públicas intensas de pertencimento nacional. Esse fenômeno ilustra de forma clara a denegação da realidade, na qual a massa reorganiza a percepção dos fatos a partir da lógica da identificação.

Os cânticos coletivos, como "Mito!", "Brasil acima de tudo!", as aclamações ao líder e as imprecações contra os adversários, produzem o que a psicanálise das massas descreve como fusão libidinal. Essa é a dissolução provisória das fronteiras individuais no eu coletivo. Cantar em uníssono com milhares de pessoas que compartilham a mesma imagem do líder constitui uma experiência de pertencimento de enorme intensidade emocional, diante da qual o argumento racional perde força. A experiência coletiva da identificação produz um sentimento de coesão, proteção e reconhecimento mútuo que reforça a adesão ao grupo e ao líder. Nesse processo, a crítica externa tende a ser percebida não como divergência política legítima, mas como ameaça ao próprio pertencimento coletivo.

4.2 Memes, TikTok e transmissões ao vivo

As plataformas digitais contemporâneas não apenas disseminam a liturgia simbólica da extrema-direita. Elas a produzem e a amplificam em escala sem precedentes históricos. Para compreender esse papel, é necessário articular a lógica das plataformas com os mecanismos psíquicos descritos nas seções anteriores.

O meme é a forma contemporânea do que Le Bon (2013) chamava de símbolo-imagem. É uma unidade mínima de comunicação que opera por contágio emocional e não por argumento. O meme bolsonarista típico, uma fotomontagem heroica do líder, um slogan que resume a cosmologia do grupo, uma imagem que ridiculariza o adversário, não pretende demonstrar nada. Ele pretende evocar, reforçar e disseminar um estado emocional. Sua eficácia é inversamente proporcional à sua complexidade. Quanto mais simples, mais rápido e mais profundo o contágio.

O algoritmo das plataformas digitais é, do ponto de vista da psicologia das massas, uma máquina de amplificação do contágio emocional. Ao priorizar conteúdo que gera maior engajamento, e o engajamento é produzido primariamente por emoções intensas como raiva, medo e euforia, os algoritmos selecionam sistematicamente o conteúdo de maior valor libidinal para o grupo. O resultado é a câmara de eco, um ambiente informacional em que a imagem contrafactual do líder é permanentemente reforçada e nunca desafiada.

As transmissões ao vivo, as lives presidenciais, os discursos diante dos quartéis, as reuniões de militantes transmitidas por celular, introduzem um elemento novo e psiquicamente poderoso: a ilusão de contato pessoal com o líder. O seguidor que assiste à live em seu quarto, à meia-noite, e que pode comentar e receber respostas que parecem diretas, experimenta uma forma de proximidade que, psiquicamente, intensifica enormemente o efeito de identificação imaginária descrito por Lacan (1998). A distância entre o líder e o seguidor é eliminada. A tecnologia produz a ilusão de presença.

O TikTok merece destaque por sua lógica de vídeos curtíssimos de alto impacto emocional, que replica e intensifica o mecanismo de Le Bon de repetição como produtora de verdade emocional. Um usuário exposto, diariamente, a centenas de vídeos de quinze a sessenta segundos que mostram o líder em pose heróica, que ridicularizam adversários, que repetem slogans e símbolos do grupo, está sendo submetido a um processo de saturação simbólica que opera aquém do nível do julgamento racional. A verdade emocional se consolida não por demonstração, mas por acumulação e repetição.

4.3 Delírios simbólicos e interpretações místicas

Um dos fenômenos mais reveladores da dinâmica psíquica aqui descrita é a proliferação, no âmbito da extrema-direita brasileira, de leituras simbólicas de objetos e eventos triviais como sinais, presságios ou confirmações divinas. O número 17, número de Bolsonaro na urna eletrônica, foi lido em formações de pássaros, em sombras projetadas por nuvens, em sequências de placas de automóveis, em formações de patos em gramados. A figura do pato foi elevada a símbolo quase profético. Eventos climáticos foram interpretados como intervenções divinas em favor do movimento. Lideranças religiosas passaram a reproduzir narrativas dissociadas de verificação factual.

Do ponto de vista festingeriano, esses fenômenos são compreensíveis como estratégias de redução de dissonância. Diante de evidências que contradizem a crença, como a derrota eleitoral, a ausência de intervenção militar, o grupo busca ativamente sinais compensatórios que reconfirmem a crença. A intensidade da busca é proporcional à intensidade da dissonância. Quanto mais clara a derrota, mais vigorosa a leitura de presságios favoráveis.

Do ponto de vista lacaniano, essas interpretações simbólicas podem ser lidas como tentativas de suturar a falta, de encontrar, nos objetos do mundo, a confirmação de que o grande Outro, o líder, Deus, a nação, ainda está presente e que a ordem simbólica não foi definitivamente rompida. É a mesma estrutura que encontramos nas práticas de augúrio das religiões antigas. O mundo físico torna-se legível como um texto escrito pelo Outro, e a leitura desse texto é sempre tranquilizadora para quem controla os códigos da interpretação.

5 ANÁLISE PSICANALÍTICA INTEGRADA

5.1 Falta, preenchimento e o custo da identificação

A questão central de que partimos, por que as massas aderem a líderes contraditórios, violentos e corruptos, recebe, neste ponto, uma resposta que integra os quatro referenciais teóricos mobilizados. O líder contraditório oferece, precisamente por sua violência e autenticidade performática, um preenchimento provisório da falta constitutiva do sujeito que a moderação e a racionalidade dos líderes convencionais não conseguem oferecer.

O sujeito lacaniano é, por definição, marcado pela falta, pela impossibilidade de coincidência plena com qualquer imagem, qualquer ideal, qualquer identidade. A vida social moderna intensifica essa falta. A dissolução das tradições, a mobilidade social, o pluralismo de valores, a instabilidade econômica produzem sujeitos com déficits agudos de identidade, pertencimento e sentido. O líder que grita que o sistema está podre, que há inimigos que explicam o sofrimento, que o grupo é o verdadeiro Brasil, esse líder não está enganando. Ele está respondendo a um sofrimento real com uma oferta real, ainda que ilusória, de preenchimento.

O custo dessa identificação é precisamente o que Le Bon (2013), Freud (1921) e Lacan (1998) descrevem: a suspensão do julgamento crítico. Para que a identificação se mantenha, o líder deve permanecer idealizado. E para que ele permaneça idealizado, a realidade que o contradiz deve ser sistematicamente negada, distorcida ou reinterpretada. O seguidor não paga esse custo por estupidez ou má fé. Ele paga porque o que recebe em troca, identidade, pertencimento, sentido, grandeza vicária, tem um valor psíquico que a realidade factual não pode facilmente substituir.

5.2 Refratariedade à realidade como estrutura, não como erro

A recusa sistemática de evidências que contradizem a imagem do líder não é um erro epistemológico que a educação ou a informação poderiam corrigir. É uma característica estrutural da identificação libidinal. Essa distinção é fundamental para as estratégias de intervenção política e terapêutica.

A crítica racional ao líder, a apresentação de fatos, dados, documentos, não apenas falha em dissolver a identificação. Ela pode produzir o efeito de retrocesso descrito pela psicologia social, no qual a exposição a evidências contraditórias intensifica a crença original. Isso ocorre porque, no contexto da identificação libidinal, a crítica ao líder é percebida como ataque ao eu do seguidor. E contra ataques ao eu, o sistema psíquico mobiliza mecanismos de defesa, não de revisão. O seguidor que se sente atacado fecha-se ainda mais na identidade do grupo.

A refratariedade à realidade tem, ademais, uma função social dentro do grupo. Demonstrar que se é capaz de reorganizar a percepção dos fatos a partir da lógica da identificação, ignorando as evidências que os de fora aceitam, é uma prova de fidelidade e de pertencimento. Adesão às narrativas mais extravagantes, como as urnas fraudadas, o golpe comunista iminente, a vacina como instrumento de controle, torna-se um sinal de distinção. Os fracos acreditam no que a mídia diz; os fortes sabem a verdade.

5.3 O inimigo simbólico e a economia da agressividade

A agressividade é um elemento central na dinâmica psíquica da extrema-direita, e sua gestão é uma das funções mais importantes da liturgia simbólica do grupo. Freud (1921) observou que a coesão da massa depende, em parte, da canalização da agressividade para fora. O grupo se mantém unido pelo que rejeita tanto quanto pelo que ama. O inimigo simbólico, o petista, o comunista, o globalista, a imprensa, o Supremo Tribunal Federal, o marxismo cultural, cumpre uma função estrutural na economia psíquica do grupo.

O inimigo simbólico não precisa ser claramente definido. Ao contrário, quanto mais vago e onipresente, mais eficaz. O comunismo que a extrema-direita brasileira combate não é o marxismo-leninismo histórico. É um significante vazio que pode ser preenchido com qualquer conteúdo que o grupo queira rejeitar: educação sexual nas escolas, cotas raciais, regulamentação ambiental, qualquer crítica ao líder. O inimigo muda de forma sem perder a função. É sempre o responsável pelo sofrimento do grupo, e é sempre quem pretende destruir o que o grupo ama.

A hostilidade ritualizada contra o inimigo simbólico, nos cânticos, nos memes, nas transmissões ao vivo, serve como válvula de escape para a agressividade que, de outra forma, ameaçaria a coesão interna do grupo. Sem o inimigo externo, a frustração e o sofrimento real dos membros do grupo encontrariam outros destinos, possivelmente o próprio líder, que, afinal, também falha em cumprir suas promessas. A construção permanente do inimigo é, portanto, uma necessidade estrutural da dinâmica de massa.

A identificação com o líder também possui dimensão narcísica. O líder oferece ao sujeito uma imagem de força, unidade, pertencimento e grandeza que compensa sentimentos de fragmentação, impotência e perda simbólica. Ao identificar-se com essa imagem idealizada, o sujeito experimenta uma forma de reparação narcísica que reforça sua adesão ao grupo e ao líder.

6 PERSPECTIVA HISTÓRICA: DO SÉCULO XIX AO DIGITAL

Os mecanismos descritos nas seções anteriores não foram descobertos pela extrema-direita brasileira do século XXI. Eles foram identificados, sistematizados e explorados com consciência crescente ao longo dos últimos dois séculos. A análise psicanalítica aqui desenvolvida ganha substância quando confrontada com essa continuidade histórica.

Le Bon (2013) escreveu sua análise a partir das multidões revolucionárias e dos movimentos de massa do século XIX. Sua percepção de que a política moderna seria crescentemente dominada pela lógica emocional das massas não era uma crítica externa, mas uma observação empírica. O que ele não podia prever, ou preferia não admitir, era que sua obra se tornaria um manual para os engenheiros da manipulação política do século XX.

Benito Mussolini (1883–1945) leu Le Bon (2013) e aplicou conscientemente seus princípios à construção do fascismo italiano. As marchas, os uniformes negros, os discursos da varanda do Palazzo Venezia, os cânticos das camisas negras, tudo isso era planejado com precisão para produzir os efeitos de fusão libidinal, prestígio do líder e contágio emocional que Le Bon (2013) havia descrito.

Adolf Hitler (1889–1945) e Joseph Goebbels (1897–1945) operaram com ainda maior sistematização. O Ministério da Propaganda do Terceiro Reich constituiu um dos mais sofisticados aparelhos de mobilização emocional e simbólica já organizados por um Estado moderno. Os congressos de Nuremberg, com suas coreografias de luz, bandeiras e multidões uniformizadas, eram produções totais destinadas a criar experiências de fusão do eu individual no eu coletivo da nação.

Um aspecto particularmente importante dessa engenharia simbólica foi a compreensão de Hitler e Goebbels de que a política moderna não deveria atuar apenas no campo racional, mas sobretudo no plano afetivo, imagético e ritualístico. A encenação política nazista foi construída para produzir pertencimento emocional contínuo: arquitetura monumental, desfiles coreografados, símbolos visuais repetidos, uniformes, músicas, saudações coletivas e discursos performáticos transformavam a política em experiência sensorial e emocional de massa. O indivíduo deixava progressivamente de perceber-se como sujeito isolado para sentir-se parte de um corpo coletivo unificado em torno da figura do Führer. Nesse processo, a identificação com o líder passava a reorganizar a percepção da realidade, tornando a crítica, a dúvida e a divergência elementos percebidos como ameaças à unidade simbólica do grupo.

Joseph Stalin (1878–1953) e Mao Tsé-Tung (1893–1976) operaram com mecanismos estruturalmente análogos, embora com conteúdo ideológico oposto. O culto da personalidade, a liturgia política obrigatória, o inimigo de classe como equivalente funcional do inimigo racial, a narrativa política sistemática como instrumento de controle social. Em todos esses casos, a estrutura psíquica descrita por Le Bon (2013) e Freud (1921) era a mesma: a massa fundida no líder idealizado, o inimigo simbólico como válvula de escape da agressividade, a repetição como produtora de verdade emocional.

O que é radicalmente novo no século XXI não é a estrutura psíquica, mas a infraestrutura tecnológica. O rádio foi a primeira tecnologia de massa que permitiu ao líder dirigir-se simultaneamente a milhões de seguidores, criando a ilusão de presença e intimidade. A televisão estruturou a política de massa do século XX tardio. As plataformas digitais, com sua capacidade de personalização, segmentação algorítmica, transmissão em tempo real, interatividade e produção descentralizada de conteúdo, são a versão contemporânea, incomparavelmente mais poderosa, desta tecnologia.

Três diferenças específicas merecem ser destacadas. Primeiro, a eliminação da intermediação. Nas plataformas digitais, o líder transmite diretamente ao seguidor, prescindindo de editores, jornalistas ou qualquer gatekeeper institucional — controle da informação. Segundo, a participação ativa do seguidor na produção da liturgia. Cada meme compartilhado, cada live comentada, cada símbolo repostado é um ato de produção que aprofunda o investimento do seguidor na identidade do grupo. Terceiro, a personalização algorítmica. Os algoritmos constroem, para cada usuário, uma câmara de eco perfeitamente calibrada para seus estados emocionais e suas predisposições psíquicas, produzindo um ambiente informacional no qual a imagem contrafactual do líder nunca encontra resistência.

A extrema-direita brasileira é, nesse sentido, um experimento avançado de aplicação de técnicas centenárias de psicologia das massas a uma infraestrutura tecnológica sem precedentes. Compreendê-la exige, portanto, tanto o instrumental teórico clássico quanto a atenção às especificidades do novo ambiente digital.

CONCLUSÃO

Este ensaio partiu de um paradoxo: por que grupos sociais aderem e mantêm fidelidade a líderes que a realidade demonstra serem contraditórios, violentos, corruptos, misóginos, racistas e agressivos? A resposta desenvolvida ao longo das seções anteriores é que esse paradoxo é apenas aparente. Ele desaparece quando se abandona a premissa de que a adesão política é primariamente racional e se compreende que ela é primariamente psíquica.

A articulação dos quatro referenciais teóricos mobilizados, Le Bon (2013), Freud (1921; 1917), Lacan (1985; 1998) e Festinger (1957), permite uma descrição coerente da estrutura psíquica que sustenta a adesão ao líder contraditório. Le Bon (2013) fornece a descrição da massa como sistema emocional que opera por símbolo, repetição e contágio, prescindindo do argumento racional. Freud (1921) fornece a explicação do mecanismo, a identificação libidinal, que coloca o líder no lugar do ideal do eu do seguidor e torna toda crítica ao líder um ataque ao eu do próprio seguidor. Lacan (1998) aprofunda essa explicação ao demonstrar que o eu é, desde o início, uma construção imaginária que busca no outro especular a completude que não pode encontrar em si mesmo, e que o líder carismático cumpre, coletivamente, essa função especular. Festinger (1957) descreve, em termos cognitivos e comportamentais, os mecanismos pelos quais o grupo resiste às evidências que contradizem sua crença no líder, e o paradoxo pelo qual a intensidade da evidência contrária pode intensificar, ao invés de dissolver, a adesão.

O conceito de imagem contrafactual do líder, proposto neste ensaio, permite nomear o produto central desse processo. Trata-se de uma construção simbólica que não representa o líder real, mas que condensa os desejos, medos e ideais do grupo em uma imagem heroica que prescinde da realidade factual. A narrativa política, nesse contexto, não é um desvio acidental. É um instrumento estrutural de produção e manutenção dessa imagem. E a liturgia simbólica, gestos, cânticos, memes, transmissões ao vivo, interpretações simbólicas, é o conjunto de práticas que, pela repetição e pelo engajamento corporal, consolida e renova permanentemente o investimento libidinal do grupo na imagem do líder.

A perspectiva histórica desenvolvida na seção 6 demonstra que esses mecanismos têm uma continuidade que se estende ao menos do século XIX ao presente. O que é específico ao nosso momento é a amplificação tecnológica produzida pelas plataformas digitais e seus algoritmos de engajamento. Essa amplificação, ao eliminar a intermediação, ao personalizar as câmaras de eco e ao transformar cada seguidor em produtor ativo de liturgia simbólica, cria condições para a produção de massas psíquicas de uma coesão e de uma impermeabilidade à realidade sem precedentes históricos.

A implicação mais importante deste ensaio para o pensamento político progressista é, talvez, a mais desconfortável. A crítica racional ao líder contraditório não apenas é insuficiente, mas pode ser contraproducente. Para dissolver a identificação libidinal com o líder, seria necessário oferecer respostas às necessidades psíquicas reais que essa identificação satisfaz: necessidades de pertencimento, identidade, sentido, reconhecimento e grandeza. Isso exige não apenas argumentos melhores, mas política melhor. Uma política capaz de nomear e acolher o sofrimento real que alimenta o investimento na imagem ilusória, e de oferecer, no lugar da identificação regressiva, formas de laço social que não dependam da fusão no líder nem da hostilidade ao inimigo simbólico.

O líder contraditório não permanece apesar da realidade, mas porque sua função psíquica ultrapassa a realidade objetiva. Ele oferece pertencimento, identidade e reconhecimento a sujeitos atravessados por insegurança, ressentimento e sensação de perda simbólica. O vínculo que se estabelece não é apenas político. É libidinal, imaginário e afetivo. E, justamente por isso, a evidência factual frequentemente fracassa em dissolvê-lo.

Compreender a lógica psíquica do adversário não é, portanto, uma forma de complacência intelectual. É uma condição de qualquer eficácia política que pretenda ir além do diagnóstico e da indignação.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

CASTRO, Vanessa Maria de. A Extrema-Direita Brasileira e as Eleições de 2018: Processos de Ascensão. Palavra em Transe, Paris, janeiro de 2019. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2025/05/a-extrema-direita-brasileira-e-as.html. Acesso em: 17 maio 2026.

CASTRO, Vanessa Maria de. Entre o púlpito e a urna: religião e política nas eleições brasileiras de 2018 e 2022. Palavra em Transe, junho de 2025. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2025/07/entre-o-pulpito-e-urna-religiao-e.html. Acesso em: 17 maio 2026.

FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Tradução de Marilene Carone. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1917/1974. v. XIV.

FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1921/2011.

LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LE BON, Gustave. Psicologia das Massas. Tradução de Mariana Sérvulo da Cunha. São Paulo: Madras, 2013.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resultados das Eleições 2018. Brasília: TSE, 2018.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resultados das Eleições 2022. Brasília: TSE, 2022.

Como citar
CASTRO, Vanessa Maria de. A realidade negada: identificação, denegação e psicologia das massas na política contemporânea. Palavra em Transe, Brasília, maio de 2026. Série: Cadernos de Estudo, Maio, de 2026. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2026/05/a-realidade-negada-identificacao.html. Acesso em: 

Sobre a autora

Vanessa Maria de Castro é professora da Universidade de Brasília (UnB), psicanalista e pesquisadora, com foco na análise crítica das dinâmicas políticas, sociais e psíquicas contemporâneas. Seus estudos exploram como sofrimento social, desigualdades e precarização da vida são mobilizados politicamente, produzindo adesão coletiva a líderes e ideologias.

Na série Cadernos de Estudo, Vanessa investiga como identificação, denegação da realidade e ritualização simbólica estruturam vínculos psíquicos entre massas e líderes, oferecendo uma análise integrada das forças que moldam comportamentos políticos e sociais no Brasil e no mundo.

Cultura de Paz como Mercadoria: uma crítica à captura neoliberal das categorias éticas

Cultura de Paz como Mercadoria: uma crítica à captura neoliberal das categorias éticas Vanessa Maria de Castro Da Série: Cadernos de Estudos...