Quando uma Parte de Nós Também Morre: O Silêncio que a Morte Inaugura

 

Quando uma Parte de Nós Também Morre: O Silêncio que a Morte Inaugura



 Vanessa Maria de Castro
6 de novembro de 2025 

Em algum lugar de Minas Gerais


Quando alguém que amamos morre, algo em nós se desloca para sempre. A morte não é apenas o desaparecimento físico de quem se vai; é, sobretudo, a retirada de uma presença que sustentava partes inteiras da nossa própria história. Aquela pessoa que compartilhava conosco memórias, rituais, confidências, afetos, segredos e até pequenos silêncios deixa de estar entre nós — e com ela se vai uma porção da narrativa que nos constitui como ser no mundo.

Quem iremos ser sem elas agora? Sem aquelas que sabem o jeito exato como existimos, que preveem cada movimento nosso antes mesmo de percebermos o que estamos fazendo? Elas são testemunhos vivos da nossa própria existência. A intimidade oferece isso às relações profundas: o conhecimento silencioso, quase sagrado, que dispensa explicações.

Coisas simples — como gostamos de tomar café, como reagimos na presença de outra pessoa, se estamos bem ou mal dependendo das circunstâncias — não precisam ser ditas. Um único olhar dessa pessoa nos desnuda por inteiro. Anos de terapia não alcançam essa intimidade construída no cotidiano. Nossos corpos se reconhecem na presença delas.

Quem somos sem aquelas que conhecem nossas pequenas manias e nossos humores, e fazem parte de nossas memórias? Quem somos sem aquelas que, pelo som dos nossos passos, sabem o que estamos sentindo? Quem somos sem aquelas que guardam histórias que jamais poderão ser contadas novamente? Quando alguém íntimo morre, morre também um fragmento do que somos, porque nossa existência depende dessa relação com o outro que partiu. Essa parte em nós adoece, silencia, desfaz-se — ela não existe isolada; era sustentada pelo olhar, pela fala, pelo cuidado de quem agora é só memória. Perder alguém é perder também uma testemunha da nossa própria existência. E choramos, ao mesmo tempo, a partida dessa pessoa e a parte de nós que é enterrada com ela.

E há ainda algo mais profundo: até termos condições de lembrar — lá pelos quatro anos e meio de vida — nossa memória é composta por fragmentos narrados pelos nossos antepassados. Antes de qualquer consciência, somos aquilo que nos contaram que éramos. Somos o que disseram sobre nossos primeiros passos, nossos choros, nossos gestos, nossas delicadezas e nossas estranhezas. Somos memória de outros antes de sermos memória de nós.

Quando eles partem, parte também a história que carregávamos sem saber. Se não houve tempo para nos contarem, se certas lembranças nunca chegaram até nós, jamais voltaremos a saber como fomos, o que aconteceu na nossa infância, que gestos nos moldaram, que medos herdamos, que afagos nos constituíram. Quando um antepassado se vai, morre junto uma versão nossa que somente ele poderia revelar. Nossa história, inscrita na voz, na lembrança e na sensibilidade dele, se perde — e essa perda é também uma forma de morrer.

Por isso a partida dói tanto. Não é apenas o vazio deixado pelo outro: é o vazio deixado dentro de nós. Instaura-se um silêncio — não o silêncio da ausência de palavras, mas aquele que se impõe como única resposta possível ao mistério do nunca mais. A morte inaugura uma fronteira que nenhum saber humano atravessa, um limite absoluto: o nunca mais. Mesmo quem acredita saber o que há do outro lado não escapa à força dessa palavra que tudo suspende. A morte é ruptura total, fim de um mundo para quem partiu e angústia para quem permanece.

E ainda assim, enquanto uma parte nossa morre junto com quem amamos, algo resiste e permanece — uma sobrevivência delicada, sutil, mas poderosa. Aquela que se foi continua viva: nas memórias, nas fotografias, nos vídeos, nas frases que repetimos. Sobrevive nos objetos tocados, nos gestos que herdamos, na maneira como seguimos habitando os lugares que compartilhamos. Vive nas plantas que ela cultivou, nas cores que escolheu para a casa, nas receitas preparadas com amor, nos bordados deixados sobre as mesas, nas portas talhadas com tanto afeto — pequenas histórias que permanecem no cotidiano simples, tão simples quanto a vida é.

A morte cria essa ambiguidade quase insuportável: quem partiu não está mais aqui, mas também não está completamente ausente. Vive enquanto vivemos. Vive porque seguimos narrando sua existência. Vive porque o que deixou em nós continua nos movendo. Vive porque, ao recordar, reabrimos um tempo que nunca desaparece totalmente — e ali, naquele instante, o morto se faz presente outra vez.

Quando alguém que amamos morre, atravessamos um duplo movimento: uma parte de nós se desfaz com essa partida, e outra parte permanece viva, guardando aquilo que o outro deixou em nós. Somos nós que passamos a carregar, cuidar e testemunhar essa vida que já não está presente fisicamente, mas permanece como marca profunda. Em certo sentido, essa pessoa continuará vivendo em nós até o momento das nossas próprias partidas.

A morte é a nossa grande fragilidade. Ela revela, de forma incontornável, o grande desamparo humano: não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde iremos, e somos completamente ignorantes quanto ao destino que nos aguarda. Vivemos amparados por presenças, por vozes, por olhares que nos sustentam no mundo — e é apenas quando essas presenças partem que percebemos o quanto dependíamos delas para existir.

E, no entanto, a morte é a única certeza que todos os seres humanos carregam: um dia iremos partir. Depois disso, permanecemos por um tempo como fotografias, como vestígios na memória de quem nos amou, como um eco que insiste. Vivemos enquanto alguém ainda se lembra de quem fomos — enquanto houver uma voz capaz de pronunciar o nosso nome com verdade.

Mas chega o dia em que já não há mais ninguém que saiba algo sobre nós, em que nenhuma história sobre nossa infância, nossos gestos, nossos medos e nossas delicadezas pode ser contada novamente. E quando a última lembrança se dissolve, quando nenhuma memória nos sustenta mais, é então que morremos inteiramente. Essa segunda morte — o desaparecimento da memória — revela o grau mais profundo do nosso desamparo: somos seres que só existem enquanto alguém nos sustenta com a sua lembrança.

O luto, por isso, exige recolhimento. É o tempo de acompanhar a parte que se vai e de honrar a parte que fica; o tempo de reconhecer que a morte não é apagamento, mas uma reorganização da presença e da ausência do outro em nós. Nesse processo, encontramos também o grande desamparo humano: percebemos que somos finitos, vulneráveis e entrelaçados às histórias daqueles que amamos. É nesse reconhecimento — tecido de dor e de amor — que entendemos que somos feitos também das memórias, dos gestos e dos afetos dos outros.

E enquanto caminharmos, aqueles que amamos seguirão caminhando conosco. Não como sombra nem como ausência que dói, mas como uma presença delicada que persiste na memória, nos gestos, no modo singular como aprendemos a habitar o mundo após a partida deles. Ao contarmos suas vidas — seus passos, suas escolhas, sua forma única de amar — oferecemos a eles a possibilidade de continuar existindo para além do tempo.

Assim seguimos adiante: amparados pelas presenças que nos moldaram e acompanhados por aqueles que, mesmo atravessando a fronteira do nunca mais, permanecem inscritos em nós. Porque o amor, quando verdadeiramente vivido, nunca se extingue: ele apenas muda de forma — e continua.

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Vanessa Maria de Castro é alguém cuja relação com a vida foi marcada, desde muito cedo, pela experiência da morte. 


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