Marcas do Tempo: Reflexões de Fim de Ano
Marcas do Tempo: Reflexões de Fim de Ano
Vanessa Maria de Castro
Brasília
Travessia de dezembro de 2025 para janeiro de 2026
O final de ano nos convida a escutar o tempo: as memórias do passado saltam em nossa direção; o ontem vai ficando distante; o presente se coloca à nossa frente; e o que ainda virá parece ensaiar seus primeiros passos diante de nós. As marcas do passado permanecem, indeléveis, bordadas ano após ano em nossa pele, no contorno do rosto, na memória do tecido da vida.
Assim, o final do ano é, quase inevitavelmente, o momento de falar do tempo. Não apenas do tempo que passou, medido em meses, agendas e compromissos, mas do tempo que nos atravessa e nos informa sobre a nossa finitude.
Estamos todos atravessados pelo tempo. Tudo o que vive envelhece, muda e carrega em si a marca da finitude. Seguir vivendo é apenas uma das possibilidades; a outra é não fazer mais parte desta cena. Muitos que iniciaram a caminhada deste ano já não estão mais entre nós. É aí que o tempo deixa de ser apenas medida ou passagem e se revela como finitude: como ausência inscrita no viver, como marca silenciosa do que não retorna.
Ainda assim — e talvez por isso mesmo — seguimos caminhando. Felizmente, caminhamos todos para esse eterno envelhecer. Tudo envelhece: as cidades, as plantas, os corpos, as ideias, as memórias, as formas de viver. Envelhecer não é uma exceção; é a própria regra da existência. Um ano se passou — e, com ele, muitas coisas aconteceram. Algumas se perderam, outras nasceram, e muitas se transformaram em silêncio: silêncios de luto, de aprendizado e de cansaço, mas também de alegria discreta, de gozo possível, desses instantes em que a vida insiste, irrompe e se afirma, mesmo sem promessas, no simples fato de continuar sendo vivida.
Muito antes de se tornar conceito, o tempo foi experiência. Foi sentido no ritmo dos dias e das noites, no retorno das estações, na memória dos mortos que permaneciam vivos nas narrativas, nos rituais e nos nomes, e na palavra transmitida entre gerações. As primeiras humanidades não separaram o tempo da terra, do corpo ou do céu: ele era vivido como ciclo, como duração compartilhada, como acontecimento. Só mais tarde, na tradição filosófica, o tempo foi interrogado como problema.
O que confere densidade ao tempo é a experiência da morte. Não como abstração filosófica, mas como presença silenciosa que atravessa a vida cotidiana. A consciência de que o tempo pode cessar — de que nem tudo se repete, de que nem todos permanecem — retira o tempo da neutralidade e o transforma em urgência, em valor, em cuidado. Cada despedida, cada ausência, cada nome que deixa de ser pronunciado reinscreve o tempo como finito, fazendo do viver uma experiência atravessada pelo limite. O tempo passa a importar porque não é infinito; ele pesa porque pode faltar. É nesse horizonte de perda possível que o tempo deixa de ser apenas passagem e se revela como experiência humana carregada de sentido.
Pensar o tempo pode ser um desafio filosófico. Aristóteles afirmava que o tempo é a medida do movimento segundo o antes e o depois (Aristóteles, 1995). O tempo existe independentemente de ser observado; contudo, para nós, humanos, mas só se torna tempo para nós quando é sentido, percebido e nomeado.
Séculos depois, Martin Heidegger rompe com a compreensão do tempo como mera sucessão cronológica. Em Ser e Tempo, o tempo não é algo externo ao ser humano; ele constitui a própria estrutura do existir, pois é através dele que nos projetamos no mundo, lembramos do passado e antecipamos o futuro (Heidegger, 2012). O tempo, para Heidegger, não é uma linha neutra de segundos ou dias: ele é vivido, experienciado e estruturante do ser. Nessa perspectiva, o tempo se organiza a partir da finitude e do cuidado, sendo a morte — não como evento final, mas como possibilidade sempre presente — aquilo que confere ao existir sua urgência e sua forma. O passado não é apenas o que ficou para trás, nem o futuro apenas o que ainda virá: ambos habitam o presente como memória e como projeto. Envelhecer, nesse horizonte, não é simplesmente acumular anos, mas carregar uma história e, simultaneamente, permanecer aberto ao que ainda pode ser.
Em Emmanuel Levinas, o tempo ganha uma inflexão ética decisiva. Ele não é domínio, nem controle, nem posse; emerge na relação com o outro. O futuro, para Levinas, é aquilo que não posso antecipar completamente, porque advém da alteridade (Levinas, 1980). O tempo torna-se, assim, espera, responsabilidade e abertura. Não envelhecemos sozinhos: envelhecemos em relação, afetados por rostos, encontros e ausências. O rosto do outro nos interpela, exige uma resposta e nos revela que o tempo vivido não nos pertence totalmente. É através dessa presença que nos tornamos conscientes da vulnerabilidade do existir, da finitude que atravessa cada vida, e da responsabilidade que tece nossas experiências e nossas escolhas.
Nas tradições orientais, o tempo raramente é concebido como linha reta. Ele se apresenta como ciclo, retorno e fluxo contínuo, renovando-se constantemente, dobrando-se sobre si mesmo e recomeçando. No Taoísmo, conforme expresso em Tao Te Ching, de Lao-Tsé (c. 601 a.C. – c. 531 a.C.), o tempo é fluxo natural, e envelhecer significa harmonizar-se com o ritmo da natureza. No Budismo, existe o conceito de impermanência, chamado anicca em Pali. Isso significa que nada na vida é fixo ou permanente — tudo nasce, muda e eventualmente desaparece. Isso inclui pessoas, objetos, sentimentos, situações e até a própria vida (Rahula, 1974). Nas tradições hindus, o tempo (Kala) é uma força cósmica que governa ciclos de criação, preservação e destruição, refletindo a continuidade e transformação de todas as coisas (Radhakrishnan, 1999). Mircea Eliade também nos lembra, em O Sagrado e o Profano (1957), que sociedades tradicionais experimentam o tempo de forma cíclica, ritualizando-o para renovar a vida e ressignificar a existência. Rumi (1207–1273), poeta sufista persa, nos lembra que o tempo vivido é coração e amor: “Não se contente com a história que os outros contam de você. Desdobre seu próprio conto, agora, momento a momento”.
Assim, a passagem do tempo, nesse horizonte, não é decadência, mas metamorfose — como as estações do ano, como o amadurecimento de um fruto, como a própria tessitura da vida que se renova incessantemente.
Essa compreensão encontra um eco profundo em A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Nessa obra, o tempo não se separa da floresta, dos espíritos e da terra. Ele é memória viva, transmitida pela palavra, pelo sonho e pela escuta dos mais velhos (Kopenawa; Albert, 2015). Quando a floresta adoece, o tempo também adoece. Quando os humanos rompem o equilíbrio da Terra, o céu corre o risco de cair. Envelhecer, nesse mundo, é tornar-se guardião da memória e da continuidade da vida — não apenas humana, mas de tudo o que existe.
Mas há um tempo que desorganiza todas as medidas: o tempo do amor. Como fórmula Jacques Lacan, “amar é dar o que não se tem a alguém que não o é” (Lacan, 1995). No amor, o tempo muda de roupagem. O passado deixa de existir como peso ou dívida; o futuro é sempre uma incerteza, jamais garantido. O que importa é o presente — a presença. Amar é viver um tempo que não se deixa capturar por calendários, um tempo vivido intensamente no agora, onde cada gesto conta, onde a espera não é vazia e a duração não se mede em horas, mas em sentido.
Esse tempo do amor ecoa Heidegger: é vivido, estruturante do existir, atravessado pela finitude e pelo cuidado, sempre aberto à possibilidade de deixar de existir. Ecoa Levinas: é tempo atravessado pelo outro, pela responsabilidade, pelo rosto que nos interpela e nos lembra que a vida não nos pertence totalmente. Ecoa também a poética de Rumi, que nos lembra:
“Não se apresse. Nada de bom se perde.
O tempo é um rio, e você está dentro dele.
Não tema a correnteza; deixe que ela o conduza,
e você descobrirá que o rio nunca o abandona.” (Rumi, s.d.)
O amor suspende a pressa, dilata o instante e torna o tempo habitável. Ele não nega a finitude, mas a atravessa com significado. No amor, envelhecer não é perda: é partilha do tempo vivido, é memória que aquece, é futuro que se aceita sem promessa de controle.
Assim como o amor redesenha nosso instante, o tempo, silencioso, continua sua obra, transformando o que foi vivido em sombra, memória e lição.
O tempo possui o poder silencioso de transformar o vivido, apagando gradualmente o que hoje nos parece essencial, desbotando a intensidade das emoções e dos encontros, e convertendo o que era urgente e presente em memória distante; tudo o que toca é lentamente metamorfoseado: as cores se desvanecem, os gestos se tornam ecos, e os afetos mais profundos, com o passar dos dias, retraem-se na memória, ensinando que a permanência não é do instante, mas da significação que lhe atribuímos. Ele é um escultor invisível que, com paciência infinita, suaviza os contornos do vivido, transforma a experiência intensa em algo contemplável, e mostra que aquilo que parecia absoluto se distancia, obrigando-nos a reconhecer que o passado não retorna e que o vivido, mesmo apagado em sua forma, permanece presente como lição, sombra e experiência.
Talvez o final de ano nos convoque exatamente a isso: não apenas a contar o tempo, mas a escutá-lo, a perceber sua passagem e suas marcas. Reconhecer o que foi vivido, o que nos transformou, e ao mesmo tempo abrir espaço para o que ainda virá. Que o novo tempo nos encontre atentos, com cada gesto e cada palavra carregados de presença; que nos permita acolher o instante sem pressa, perceber a vida em sua plenitude silenciosa e dançar, mesmo entre sombras e lembranças, ao ritmo do que realmente importa: a intensidade de existir. Que sejamos, no tempo, memória viva, cuidado e afeto, sempre prontos para o que ainda tem de florescer.
Referências
ARISTÓTELES. Física. Tradução de Giovanni Reale. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência da religião. São Paulo: Martins Fontes, 1957.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: UNICAMP; Petrópolis: Vozes, 2012.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A Queda do Céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
LACAN, Jacques. Écrits: The First Complete Edition in English. Nova York: W. W. Norton & Company, 1995.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência (1960-1961). Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
LAO-TSÉ. Tao Te Ching. Tradução de Stephen Mitchell. Nova York: Harper Perennial, s.d.
LEVINAS, Emmanuel. O tempo e o outro. Tradução de Bethânia Assy. Petrópolis: Vozes, 1980.
RADHAKRISHNAN, S. The Hindu View of Life. Nova York: Harper & Row, 1999.
RAHULA, Walpola. What the Buddha Taught. Nova York: Grove Press, 1974.
RUMI, Jalal al-Din. The Essential Rumi. Tradução de Coleman Barks. San Francisco: HarperOne, 2004.
Autora:
Vanessa Maria de Castro, neste ensaio, reflito sobre a passagem do tempo. O final do ano nos convida a pensar sobre como o tempo atravessa nossas vidas, transforma memórias, afetos e experiências, e como essa reflexão se torna especialmente significativa ao encerrarmos mais um ciclo. Convido o leitor a olhar para o presente, o passado e o futuro, percebendo que o tempo não é apenas medida, mas experiência vivida e compartilhada.
Maravilha de texto, profundo real perturbador. Tempo é vida em passagem...
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