Os Donos do Poder Global: A Geopolítica e a Arquitetura Estado-Corporações

 



Os Donos do Poder Global: A Geopolítica e a Arquitetura Estado-Corporações


Vanessa Maria de Castro

Da Série: Cadernos de Estudo

Brasília, janeiro de 2026



A Dança de Leviatã

No coração do império invisível,
Onde o poder se entrelaça em silêncio,
Leviatã ergue sua cabeça colossal,
Sombra de ferro e ouro, um fio de sangue.

Os donos do mundo não são rostos,
Mas redes que tecem o destino em fios finos,
Os mercadores de sonhos, de moedas e de luz,
Moldam os corpos e as almas, como o vento nas dunas.

O dinheiro, império das cifras ocultas,
Flui como correnteza sob as cidades de vidro,
Onde BlackRock e Vanguard, com mãos de aço,
Repartem o mundo em números e contratos,
E o que é da terra, do ar, do mar,
É dominado pela visão de um olho distante.

A máquina das Big Techs roda sem parar,
Converte as palavras em silêncios e luz,
Molda a percepção como um oleiro,
No giro imortal de algoritmos e cliques,
Onde cada ação, cada olhar, cada sonho
É mapeado, vendido, renovado, controlado.

Mas quem comanda a máquina do poder?
O Leviatã, com sua espada de fogo,
Não é só aquele que manda e ordena,
Mas o que faz da guerra uma dança,
Da paz uma ilusão, e da liberdade
Uma corda invisível que nos mantém
Dentro dos círculos de ferro que ele cria.

Os bancos guardam as chaves do tesouro,
A segurança vem pela força de seus exércitos,
E nas sombras das grandes corporações,
Cresce o monstro do controle, que nunca dorme.
As grandes nações, como marionetes,
Dançam para ele, invisíveis aos olhos do povo.

Mas o que é do Leviatã senão a sua teia?
Uma teia onde os fios são nomes e rostos,
Onde o controle é a moeda que ele troca,
E a liberdade, o mais caro dos bens,
Um eco perdido no abismo do poder.

E assim seguimos,
Sob o olhar vigilante,
Dançando na rede,
Entre o desejo e a prisão,
Entre o poder e a queda,
Até o último fio da teia,
Onde Leviatã aguarda, imóvel.



1. Introdução 

O que se encontra no centro da geopolítica do século XXI não é uma transformação substantiva da lógica do poder, mas a continuidade e radicalização histórica da articulação intrínseca entre poder político e sistema econômico, característica constitutiva da Era Moderna. Embora os instrumentos, os atores visíveis e as formas de mediação tenham se reconfigurado de maneira profunda, a racionalidade que organiza a ordem global permanece orientada pela acumulação, pela dominação e pelo controle de recursos estratégicos.

Nesse sentido, a ascensão de aglomerados de capital transnacional — corporações financeiras, conglomerados tecnológicos e complexos industriais — não representa uma ruptura com a modernidade, mas o aprofundamento de sua lógica estrutural. O que se altera não é o centro gravitacional do poder, mas sua morfologia e operacionalidade: se, na modernidade clássica, o Estado-nação era o sujeito visível e soberano da dominação, na contemporaneidade ele atua, com frequência crescente, como instância de mediação institucional, jurídica e militar para interesses econômicos que operam em escala planetária.

Assim, a geopolítica atual não inaugura uma nova era histórica, mas consolida e complexifica os fundamentos da modernidade, nos quais o poder político demonstra uma subordinação estrutural à lógica da acumulação econômica. A soberania, o constitucionalismo e o direito internacional continuam a existir, porém funcionam de maneira seletiva e instrumental, sendo mobilizados ou descartados conforme sua compatibilidade com a reprodução do sistema econômico dominante.

Este trabalho propõe-se a investigar essa reconfiguração a partir de uma análise integrada de dados geopolíticos e corporativos. Partindo da hipótese de que vivemos uma "geopolítica do capital", a análise será estruturada em três eixos principais: 1) a cartografia do poder estatal e sua assimetria material (PIB, capacidade militar); 2) a anatomia do poder corporativo privado, com foco na hegemonia das empresas norte-americanas e no modelo distinto das chinesas; e 3) a síntese dessa dinâmica na formação de um poder híbrido, onde Estados e megacorporações entrelaçam suas soberanias.

A questão central que norteia este ensaio é: no atual estágio do capitalismo global, marcado pela fusão entre interesses estatais e corporativos, quem exerce o comando real e imediato sobre a economia mundial?


Reconfiguração da Geopolítica no Século XXI

O que se encontra no centro da geopolítica contemporânea não é uma transformação substantiva da lógica do poder, mas a continuidade histórica da articulação entre poder político e sistema econômico, característica constitutiva da Era Moderna. Embora os instrumentos, os atores visíveis e as formas de mediação tenham se reconfigurado, a racionalidade que organiza a ordem global permanece orientada pela acumulação, pela dominação e pelo controle de recursos estratégicos.

Nesse sentido, a ascensão de aglomerados de capital transnacional — corporações financeiras, empresas de energia, conglomerados tecnológicos e complexos armamentistas — não representa uma ruptura com a modernidade, mas o aprofundamento de sua lógica estrutural. O que se altera não é o centro do poder, mas sua forma de operação: se, na modernidade clássica, o Estado-nação era o principal sujeito visível da dominação, na contemporaneidade ele atua frequentemente como instância de mediação institucional, jurídica e militar de interesses econômicos que operam em escala global.

Assim, a geopolítica atual não inaugura uma nova era histórica, mas radicaliza os fundamentos da modernidade, na qual o poder político sempre esteve subordinado à lógica econômica. A soberania, o constitucionalismo e o direito internacional continuam a existir, porém funcionam de maneira seletiva, sendo mobilizados ou descartados conforme sua compatibilidade com a reprodução do sistema econômico dominante. A permanência dessa racionalidade explica por que intervenções, sanções, disputas territoriais e reorganizações políticas


2. Geopolítica global contemporânea: o poder, sua localização e seus agentes

O que se encontra no centro da geopolítica contemporânea não é uma ruptura estrutural com a lógica moderna do poder, mas a continuidade e o aprofundamento da articulação entre poder político e sistema econômico. A ordem internacional atual permanece organizada em torno da acumulação de capital, do controle de recursos estratégicos e da capacidade de organizar fluxos globais de financiamento, tecnologia, energia e produção. O que se transforma, portanto, não é a racionalidade do poder, mas suas formas de operação e mediação institucional.

Na contemporaneidade, os Estados-nação não deixaram de ser relevantes; contudo, passaram a atuar, em larga medida, como instâncias de defesa, estabilização e projeção dos interesses de grandes conglomerados econômicos transnacionais, incluindo corporações financeiras, empresas de energia, complexos industriais-militares e plataformas tecnológicas. O poder estatal se expressa, assim, menos como soberania autônoma e mais como capacidade de garantir segurança jurídica, infraestrutura política e respaldo militar à reprodução do capital global (FMI, 2024; WORLD BANK, 2024).

Essa configuração evidencia que a geopolítica atual é, fundamentalmente, uma geopolítica do capital, na qual disputas territoriais, conflitos armados, sanções econômicas e alianças diplomáticas operam como instrumentos de defesa de interesses econômicos estruturais. A soberania, o direito internacional e o constitucionalismo permanecem formalmente vigentes, mas são frequentemente relativizados ou mobilizados de forma seletiva conforme sua compatibilidade com a dinâmica de acumulação dominante.

O poder geopolítico contemporâneo deve, portanto, ser compreendido de maneira ampliada, articulando capacidade econômica, domínio tecnológico, força militar, poder normativo e controle financeiro. Trata-se de um poder sistêmico, concentrado em pólos estatais específicos, mas profundamente entrelaçado a redes privadas de capital que transcendem fronteiras nacionais (FMI, 2024).

Nesse cenário, Estados Unidos, China e Rússia compõem o núcleo duro da disputa geopolítica global. Os Estados Unidos mantêm a posição hegemônica ao concentrar o maior PIB nominal do mundo e ao controlar os principais mecanismos financeiros internacionais, além de liderar alianças militares como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que asseguram a defesa dos interesses econômicos ocidentais (OTAN, 2025). A China, por sua vez, consolida-se como potência sistêmica ao articular capacidade produtiva, investimentos estatais e expansão de conglomerados econômicos por meio de estratégias como a Belt and Road Initiative, ampliando sua influência no Sul Global (WORLD BANK, 2024). A Rússia, ainda que detenha menor peso econômico nominal, exerce influência geopolítica desproporcional graças ao controle de recursos energéticos estratégicos e à sua capacidade militar, funcionando como polo de contenção à ordem liderada pelos Estados Unidos e seus aliados (FMI, 2024).

Ao lado desses pólos centrais, a União Europeia, o Japão e o Reino Unido desempenham papéis estruturantes no sistema internacional. A União Europeia atua como potência normativa e regulatória do capitalismo global, ao mesmo tempo em que mantém dependência estratégica dos Estados Unidos no campo da segurança, institucionalizada via OTAN (G7, 2024). O Japão ocupa posição central nas cadeias tecnológicas e industriais, enquanto o Reino Unido preserva relevância financeira e diplomática global, apesar de sua reconfiguração institucional pós-Brexit.

As regiões periféricas ou semiperiféricas — como América Latina, África, Oriente Médio e o Ártico — integram essa ordem como espaços estratégicos de extração, circulação e contenção. Nesses territórios, a geopolítica se manifesta menos como autodeterminação e mais como disputa entre capitais concorrentes por recursos naturais, rotas logísticas, mercados consumidores e influência política (WORLD BANK, 2024).

No caso brasileiro, observa-se uma redução significativa da capacidade de projeção diplomática e estratégica nas últimas décadas, associada à financeirização da economia, à desindustrialização e à crescente dependência de commodities. O Estado brasileiro passou a operar com margens reduzidas de mediação frente ao capital transnacional, o que limita sua autonomia geopolítica efetiva (WORLD BANK, 2024). A participação do Brasil no BRICS amplia suas possibilidades de articulação diplomática e financeira, especialmente por meio do Novo Banco de Desenvolvimento, mas não constitui, até o momento, uma alternativa sistêmica à ordem econômica global vigente, funcionando mais como espaço de negociação do que de ruptura estrutural (BRICS, 2024).

Assim, a geopolítica contemporânea revela não o declínio do poder moderno, mas sua reatualização sob formas mais concentradas, financeirizadas e opacas, nas quais os Estados operam, em larga medida, como garantidores políticos e jurídicos da reprodução do capital global.


Tabela 1 – PIB, Setores, Gasto Militar, Arsenal e Relações Geopolíticas (2025)

País / Bloco

PIB nominal (US$ trilhões)

Setores do PIB (%)

Gasto militar (US$ bi)

% do PIB em Defesa

Capacidade militar / Arsenal

Papel geopolítico do capital

Alianças / Blocos estratégicos

Estados Unidos

30,5

Serviços ~80%, Indústria ~18%, Agro ~0,85%, Big Tech ~12%

997

3,4%

Arsenal nuclear ~5.428 ogivas (~42,3% do total global); forças armadas globais completas

Capital financeiro, tecnológico e militar global

OTAN, G7, Japão, Coreia do Sul, Austrália

China

19,5

Indústria ~40%, Serviços ~52%, Agro ~8%, Big Tech e conglomerados ~10%

330

1,7%

Arsenal nuclear ~410 ogivas (~7,9% do total global); forças armadas expansivas e modernas

Capital industrial, tecnológico e infraestrutura estratégica

BRICS, Parcerias com África e América Latina

União Europeia (bloco)

20,0

Serviços ~70%, Indústria ~25%, Agro ~5%, Big Tech e bancos ~10%

350

1,75%

Arsenal nuclear (França ~290 ogivas, Reino Unido ~225 ogivas); forças armadas combinadas

Capital financeiro, regulatório e tecnológico global

G7, OTAN, integração regional UE

Japão

4,4

Serviços ~70%, Indústria ~28%, Agro ~2%, Big Tech e inovação ~12%

52

1,2%

Arsenal militar convencional limitado; defesa tecnológica avançada

Capital tecnológico e industrial

Alianças EUA-Japão (Pacífico), QUAD

Alemanha

4,9

Serviços ~72%, Indústria ~26%, Agro ~2%, Big Tech e bancos ~8%

65

1,33%

Arsenal militar convencional moderado, forças armadas NATO

Capital industrial e regulatório

UE, OTAN, G7

Reino Unido

3,7

Serviços ~78%, Indústria ~20%, Agro ~2%, Big Tech e bancos ~10%

65

1,76%

Arsenal nuclear ~225 ogivas (~4,4% do total global), forças armadas globais

Capital financeiro e diplomático global

OTAN, G7, relações especiais com EUA

França

3,3

Serviços ~72%, Indústria ~25%, Agro ~3%, Big Tech e bancos ~8%

55

1,67%

Arsenal nuclear ~290 ogivas (~5,7% do total global), forças armadas completas

Capital industrial e militar

OTAN, G7, UE

Rússia

2,2

Indústria ~35%, Serviços ~55%, Agro ~10%, Big Tech limitada ~2%

90

4,1%

Arsenal nuclear ~1.588 ogivas (~31% do total global); forças armadas tradicionais e modernas

Capital energético e militar

Aliança estratégica com China, Irã, BRICS

Brasil

2,3

Serviços ~65%, Indústria ~20%, Agro ~8%, Big Tech ~2%

35

1,5%

Arsenal militar limitado, forças armadas regionais

Capital agroexportador, energia e mineração; projeção regional

BRICS, Mercosul, parcerias diplomáticas China/EUA

México

1,8

Serviços ~63%, Indústria ~25%, Agro ~12%, Big Tech ~1%

12

0,67%

Arsenal militar limitado, forças armadas regionais

Capital industrial e exportador; forte integração EUA

Alinhamento econômico com EUA, participação moderada BRICS

Argentina

0,6

Serviços ~60%, Indústria ~25%, Agro ~15%, Big Tech ~1%

6

1,0%

Arsenal militar limitado

Capital agroindustrial, exportações regionais

Cooperação regional, BRICS secundário

Venezuela

0,09

Serviços ~50%, Indústria ~20%, Agro ~30%, Big Tech ~1%

5

5,6%

Arsenal militar limitado

Capital petrolífero estratégico; dependência externa

Apoio limitado China/Rússia, sanções EUA/UE

África (conjunto)

3,0*

Serviços ~50%, Indústria ~25%, Agro ~25%, Big Tech limitada

40

1,33%

Arsenal militar heterogêneo, forças armadas nacionais

Capital mineral e energético; arena para investimentos estrangeiros

Parcerias EUA, China, UE

Oriente Médio (conjunto)

4,5*

Serviços ~55%, Indústria ~25%, Agro ~5%, Energia ~15%

150

3,3%

Arsenal militar convencional e limitado nuclear (Israel, Irã); forças regionais

Capital energético; pivô de investimento estrangeiro

Parcerias EUA, China; rivalidades regionais internas

Ártico

Recursos estratégicos (gás, petróleo, minérios)

Presença militar limitada (EUA, Rússia, Canadá)

Capital de exploração e logística

Cooperação/competição EUA, Rússia, Canadá, UE

BRICS (bloco)

28,2*

Serviços ~60%, Indústria ~30%, Agro ~10%, Big Tech ~5%

500*

1,8%*

Arsenal combinado (Rússia nuclear + forças convencionais + capacidade militar limitada Brasil, China)

Capital industrial, energético, tecnológico; alternativa parcial ao Ocidente

BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul

Comunidade Europeia (bloco)

20,0*

Serviços ~70%, Indústria ~25%, Agro ~5%, Big Tech e bancos ~10%

350*

1,75%*

Arsenal nuclear combinado (França + Reino Unido); forças armadas integradas UE

Capital financeiro, regulatório e industrial global

UE, OTAN, G7

Fonte: Elaborado pela Autora com diversas fontes:  FMI – INTERNATIONAL MONETARY FUND. World Economic Outlook Database, out. 2025; WORLD BANK – World Development Indicators, 2024; VISUAL CAPITALIST, The World Economy in One Chart, 2024; SIPRI – Military Expenditure Database, 2025; OTAN, G7, BRICS (2024–2025).

 * Valores agregados ou estimados para blocos/regiões (FMI, Banco Mundial, SIPRI, 2024–2025).


A Tabela 01 evidencia que a geopolítica global contemporânea é estruturada por profundas assimetrias econômicas, nas quais Produto Interno Bruto, capacidade militar, domínio tecnológico e controle de setores estratégicos da economia operam de forma integrada na sustentação do poder global. O cenário internacional atual revela que as disputas centrais já não se organizam prioritariamente em torno de conflitos diretos entre Estados nacionais soberanos, mas por meio de uma arquitetura complexa de poder econômico, financeiro, tecnológico e militar, na qual os Estados atuam, em larga medida, como garantidores institucionais dos interesses de grandes conglomerados econômicos.

Essa configuração não representa uma ruptura com a lógica histórica do capitalismo, mas uma reorganização de suas bases materiais. A capacidade de projeção geopolítica deixou de depender exclusivamente de território, população ou tradição diplomática e passou a se apoiar na articulação entre capital produtivo, capital financeiro, infraestrutura tecnológica, controle informacional e poder militar. A Tabela 01 permite observar como esse poder se concentra em poucos pólos capazes de mobilizar simultaneamente esses recursos, moldando as regras do sistema internacional e definindo os limites de ação dos demais atores.

Tomando os Estados Unidos como referência, com PIB nominal de aproximadamente 30,5 trilhões de dólares, observa-se que nenhum outro país ou bloco alcança, de forma isolada, patamar equivalente de capacidade econômica combinada com projeção militar. Essa centralidade econômica converte-se em poder geopolítico efetivo na medida em que é acompanhada por um gasto militar anual próximo a 1 trilhão de dólares, correspondente a cerca de 3,4% do PIB, e por um arsenal nuclear que concentra aproximadamente 42% das ogivas existentes no planeta. Trata-se de uma hegemonia que não se limita à atuação estatal stricto sensu, mas que articula capital financeiro, grandes corporações tecnológicas, complexo industrial-militar e controle das principais instituições econômicas internacionais, assegurando a reprodução ampliada do capital em escala global.

A China, com PIB nominal de cerca de 19,5 trilhões de dólares, equivalente a aproximadamente 64% do PIB norte-americano, configura-se como a única potência capaz de disputar, em termos sistêmicos, essa centralidade econômica. Diferentemente do modelo estadunidense, fortemente ancorado nos serviços e nas plataformas digitais, a base da economia chinesa permanece concentrada na indústria, responsável por cerca de 40% do PIB, o que lhe confere domínio estratégico sobre cadeias globais de valor, infraestrutura produtiva e logística internacional. Embora o gasto militar chinês, em torno de 330 bilhões de dólares, represente apenas 1,7% do PIB, sua capacidade de articulação entre Estado, conglomerados industriais e tecnologia permite ao país exercer poder geopolítico por meio da interdependência econômica, sobretudo no Sul Global, como exemplificado por iniciativas de infraestrutura e financiamento internacional. O relativo reduzido arsenal nuclear chinês, inferior a 8% do total global, reforça o caráter predominantemente econômico, produtivo e tecnológico de sua estratégia de poder.

A União Europeia, considerada como bloco, apresenta PIB agregado de aproximadamente 20 trilhões de dólares, valor próximo ao da China e equivalente a cerca de 66% do PIB dos Estados Unidos. No entanto, sua capacidade geopolítica permanece condicionada pela fragmentação política interna e pela dependência estratégica em relação aos Estados Unidos no campo da segurança. Apesar dos gastos militares combinados em torno de 350 bilhões de dólares e da presença de arsenais nucleares francês e britânico, a União Europeia atua principalmente como potência regulatória e normativa do capitalismo global, garantindo estabilidade jurídica, financeira e institucional aos fluxos de capital, mais do que como ator militar autônomo.

O Japão, com PIB nominal de aproximadamente 4,4 trilhões de dólares, correspondente a cerca de 14% do PIB norte-americano, sustenta sua relevância internacional por meio da centralidade tecnológica e industrial. Seu gasto militar relativamente reduzido e a ausência de arsenal nuclear próprio indicam que sua projeção geopolítica depende fortemente da aliança estratégica com os Estados Unidos, funcionando como pilar tecnológico, industrial e logístico da ordem liderada por Washington no Indo-Pacífico. De modo semelhante, Alemanha, Reino Unido e França apresentam PIBs que variam entre 11% e 16% do PIB dos Estados Unidos, exercendo influência global de forma diferenciada. Enquanto a Alemanha se afirma como potência industrial e regulatória, o Reino Unido e a França mantêm maior capacidade de projeção internacional em razão de seus arsenais nucleares, além de seus sistemas financeiros, diplomáticos e militares consolidados.

A Rússia constitui um caso singular nessa estrutura de poder. Com PIB nominal de aproximadamente 2,2 trilhões de dólares, equivalente a cerca de 7% do PIB dos Estados Unidos, sua influência geopolítica não se funda na base econômica, mas no controle de recursos energéticos estratégicos e, sobretudo, em um arsenal nuclear que concentra cerca de um terço das ogivas do planeta. Essa assimetria evidencia que, na geopolítica contemporânea, o poder militar — especialmente nuclear — continua operando como mecanismo material de compensação da fragilidade econômica relativa, permitindo à Rússia manter capacidade de barganha e contenção frente à ordem liderada pelo capital ocidental.

No caso do Brasil, com PIB nominal em torno de 2,3 trilhões de dólares, correspondente a aproximadamente 7,5% do PIB norte-americano, observa-se uma posição regional relevante, porém limitada em termos de projeção geopolítica global. A economia brasileira permanece fortemente dependente dos setores de serviços, do agronegócio e da exportação de commodities, que, embora estratégicos, não se traduzem automaticamente em domínio tecnológico ou poder militar. O gasto militar relativamente baixo e a ausência de arsenal nuclear restringem sua capacidade de atuação estratégica. A participação no BRICS amplia sua margem de negociação internacional, mas não altera, de forma estrutural, sua posição subordinada na hierarquia do capital global.

As regiões periféricas e semiperiféricas, como África, Oriente Médio e América Latina, apresentam PIBs agregados significativamente inferiores aos das grandes potências, desempenhando papel central como fornecedoras de energia, alimentos, minerais e rotas logísticas estratégicas. Nessas regiões, o poder não se organiza prioritariamente em torno da soberania estatal, mas da disputa entre capitais transnacionais, frequentemente mediada por intervenções políticas, econômicas e militares externas, que asseguram o acesso contínuo a recursos essenciais à reprodução do capital global.

Sob a perspectiva da economia política crítica, essa dinâmica expressa um estágio avançado da acumulação capitalista, no qual a forma-Estado permanece indispensável, mas tem suas funções redefinidas. O Estado não desaparece nem se torna secundário; ao contrário, atua como garantidor jurídico, fiscal, diplomático e militar das condições de valorização do capital. A novidade histórica reside no fato de que grandes conglomerados econômicos — especialmente nos setores financeiro, tecnológico, energético, logístico e agroindustrial — passam a exercer controle direto sobre infraestruturas materiais essenciais à reprodução social, frequentemente sem compromisso com projetos nacionais de desenvolvimento ou com pactos sociais internos.

Essa reorganização do poder é profundamente material. Ela se ancora em infraestruturas concretas como plataformas digitais, cadeias globais de produção, sistemas financeiros, centros de dados, controle energético, logística internacional e complexos industriais e militares. O que se transforma não é a materialidade do poder, mas sua forma de organização, cada vez mais concentrada, transnacional e assimétrica. Trata-se de um poder que opera por meio da normalização econômica, da dependência estrutural e da indução de comportamentos, sem prescindir da coerção clássica, mas complementando-a com mecanismos contínuos de gestão e controle da vida social.

Dessa forma, a leitura integrada da Tabela 01 demonstra que a geopolítica global contemporânea é, fundamentalmente, uma geopolítica do capital. O poder econômico, medido pela capacidade de controlar infraestruturas estratégicas e fluxos globais, condiciona o investimento tecnológico, o gasto militar e a manutenção de arsenais estratégicos, que, por sua vez, garantem a defesa e a expansão dos interesses corporativos globais. Os Estados operam como garantidores dessa arquitetura, enquanto as desigualdades econômicas estruturais definem, de maneira objetiva, quem exerce poder, quem disputa posições intermediárias e quem permanece subordinado no tabuleiro do poder global no atual momento histórico.


3. O Poder Visível e Invisível: Como as Corporações Americanas Dominam o Público e o Financeiro, Moldando a Economia dos EUA e do Mundo

O poder das grandes corporações americanas não é um fenômeno isolado ou unidimensional. Ele constitui um sistema triádico integrado que opera através de três pilares interligados: o Público, o Financeiro e o Político. Juntos, formam uma máquina de poder auto-alimentada e expande, transcendendo a mera influência econômica para configurar uma nova forma de soberania no século XXI.

O Ciclo de Poder: Públicos, Finanças e Políticas em Convergência

O ciclo de poder corporativo inicia-se no Pilar Público, onde grandes corporações como Apple, Amazon e Google moldam não apenas mercados, mas também identidades culturais e dependências estruturais globais. Elas não apenas fornecem produtos e serviços, mas estabelecem novas normativas e criam formas de socialização que definem o cotidiano de bilhões. Ao controlar o consumo e a informação, essas corporações se tornam uma extensão natural das necessidades humanas, legitimando seu poder de maneira invisível.

O segundo pilar, Poder Financeiro, transforma esse domínio público em controle estrutural. A centralização de capital nas mãos de poucas gestoras, como BlackRock, Vanguard e JPMorgan Chase, cria um sistema de propriedade cruzada, suavizando a competição e concentrando o poder financeiro. Esse modelo garante estabilidade para as corporações, mas também as torna "grandes demais para falir", forçando os governos a intervir em crises, transferindo o risco privado para o público.

A análise da estrutura de propriedade das maiores corporações revela um fenômeno crucial: a concentração extrema do poder acionário nas mãos de poucas gestoras, que operam com uma coordenação silenciosa. BlackRock, Vanguard e State Street são os maiores acionistas de quase todas as grandes empresas, desde tecnologia até energia, saúde e finanças. Essas gestoras de ativos não são bancos tradicionais, mas administradoras de fundos de investimento massivos que controlam milhões de investidores, tornando-se acionistas automáticos das principais empresas listadas.

Este sistema cria uma rede de propriedade em que as mesmas entidades são donas de porções significativas de competidores em diversos setores. Por exemplo, quando Vanguard e BlackRock são acionistas de empresas como ExxonMobil e Tesla, o objetivo não é destruir uma em detrimento da outra, mas garantir a estabilidade de ambas, protegendo o valor do portfólio diversificado. A propriedade cruzada, portanto, suaviza a competição, reduzindo incentivos para inovações disruptivas que possam prejudicar o valor do portfólio global.

Esse modelo cria um controle indireto mas potente sobre a estratégia corporativa. Vanguard, BlackRock e State Street definem conselhos de administração, aprovam remunerações e influenciam diretrizes de longo prazo. Embora não gerenciem as operações cotidianas, sua capacidade de moldar a governança de setores inteiros da economia é colossal. Este "capitalismo dos administradores" desloca o poder de magnatas industriais para gestores de fundos, cuja prioridade é otimizar carteiras de investimento.

Contudo, existem exceções, como o controle dinástico ou fundacional. A família Walton, por exemplo, mantém uma fatia significativa do Walmart, enquanto Mark Zuckerberg controla o Meta com uma participação majoritária. Esses casos exemplificam como o poder de fundadores ou famílias pode coexistir com o capital institucional, permitindo estratégias mais ousadas, embora ainda dentro de um sistema de propriedade institucionalizada.

Em resumo, a arquitetura do poder corporativo americano é composta por um vasto capital institucional concentrado, promovido por BlackRock, Vanguard e State Street, e pontuado por exceções de controle fundacional. Este modelo não apenas explica a resiliência das corporações, mas revela como o Pilar Financeiro da tríade de poder opera através de uma governança alinhada, onde a noção de "concorrência" entre os titãs corporativos é estruturalmente problemática.

O Pilar Político fecha o ciclo, onde as corporações não se limitam a influenciar a economia, mas também capturam o processo regulatório e legislativo. Por meio de lobby, financiamento de campanhas e a “porta giratória”, elas moldam as leis a seu favor, desregulamentando mercados e criando condições que expandem ainda mais seus domínios. A capacidade dessas corporações de controlar a legislação e as políticas comerciais, favorecendo isenções fiscais e desregulamentações, fortalece seu poder e amplia sua influência. As empresas não apenas influenciam as regras do jogo, mas também criam um ambiente legal que as favorece e garante sua continuidade.

O Ciclo Autoalimentado: Como os Pilares se Retroalimentam

O poder corporativo opera como um ciclo interligado e auto alimentado. O Pilar Público, ao definir normas culturais e comportamentais, gera lucros exorbitantes. Esses lucros são então canalizados para o Pilar Financeiro, onde são investidos de forma a garantir a consolidação do poder econômico e a estabilidade do sistema financeiro. Com a concentração de capital, as corporações se tornam ainda mais poderosas, adquirindo concorrentes, garantindo fusões e aumentando sua influência. Esse poder financeiro é, por sua vez, direcionado ao Pilar Político, onde as corporações investem em lobby para moldar as políticas que garantem que o ciclo continue. O que resulta é uma máquina corporativa que se retroalimenta, fortalecendo-se a cada revolução do ciclo e consolidando sua posição de hegemonia.

O Domínio Público: A Arquitetura da Vida Cotidiana

O poder visível dessas corporações, presente no cotidiano global, é um reflexo direto da arquitetura do consumo e da comunicação global. Walmart e Amazon, por exemplo, não são apenas empresas de varejo, mas arquitetos do consumo global. Walmart, com sua presença física em milhares de comunidades, e Amazon, com seu modelo de conveniência e logística ultrarrápida, definem o ritmo do consumo global e o acesso aos bens essenciais. Apple, Google e Meta são os curadores da experiência digital, determinando como nos comunicamos, trabalhamos e consumimos informações. Essas corporações não só fornecem produtos e serviços, mas também criam e moldam a realidade cultural e informacional, tornando-se essenciais para a estrutura da vida moderna.

Além disso, empresas como UnitedHealth e CVS Health controlam os cuidados de saúde, o que dá a elas uma função que transcende o simples comércio de produtos: elas se tornam estruturas sem as quais a vida moderna, como a conhecemos, não seria possível. A saúde, a energia e o transporte estão nas mãos dessas corporações, que se tornaram verdadeiras infraestruturas públicas privatizadas.

O Domínio Financeiro: A Engrenagem Invisível do Poder Global

O Poder Financeiro, por outro lado, é a engrenagem que mantém o sistema global funcionando. JPMorgan Chase, o maior banco dos EUA, lidera o sistema financeiro, funcionando como o “banco dos bancos” e parceiro crucial do Federal Reserve. Através de sua influência no mercado financeiro, o JPMorgan Chase e outras corporações financeiras como Goldman Sachs e Citigroup moldam a economia global, garantindo que o capital flua de maneira que beneficie o sistema corporativo. Visa e Mastercard, por sua vez, operam como as rodovias digitais do capitalismo global, facilitando o comércio internacional e os pagamentos transnacionais. Elas são essenciais para a movimentação do capital global e têm o poder de influenciar economias inteiras através da gestão de fluxos financeiros.

O Poder Financeiro também se reflete no mercado de ações, onde corporações como Apple e Microsoft têm avaliações de mercado que superam o PIB de muitos países. Essas empresas não apenas atraem investimentos, mas também têm o poder de definir a inovação em vários setores. Ao adquirirem startups inovadoras ou ao liderarem pesquisas em tecnologia, essas empresas garantem que a inovação seja centralizada, muitas vezes em suas próprias mãos, consolidando ainda mais o poder econômico nas mãos de poucos.

O que temos, portanto, é um sistema corporativo complexo que opera em três níveis interligados: o Público, o Financeiro e o Político. Esses pilares trabalham juntos de forma sinérgica, criando um ciclo de retroalimentação que garante o fortalecimento contínuo do poder corporativo. As corporações não são mais apenas entidades econômicas; elas são centros de poder que moldam a vida cotidiana, controlam os fluxos financeiros globais e influenciam a política pública para garantir sua expansão.

Esse modelo de poder corporativo não é apenas uma realidade econômica, mas uma nova forma de soberania no século XXI. Ao dominar tanto os aspectos visíveis da vida cotidiana quanto os invisíveis mecanismos financeiros e políticos, as corporações americanas não são mais apenas empresas. Elas se tornaram governos econômicos que operam em escala global, moldando a economia, a política e a cultura de uma maneira que transcende as fronteiras nacionais.

A verdadeira força das corporações americanas no século XXI reside em sua capacidade de operar de forma integrada e coordenada, ampliando sua influência e poder a cada ciclo. O futuro, portanto, será em grande parte um reflexo de como essas corporações continuarão a exercer sua dominação dupla – no domínio público e no financeiro – e de como as sociedades e os Estados irão responder a esse Leviatã corporativo.

Tabela 02: As 25 Maiores Corporações Americanas em 2025: Domínio Econômico e Estratégico Global


Ranking

Empresa (Setor)

Valor Mercado (US$)

Receita 2023 (US$)

Emprego

Principais Acionistas & Controle

Impacto Estratégico e Alcance Geopolítico

Fontes 

1

Microsoft

(Tecnologia)

3,06 tri

211,9 bi

221.000

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (6.8%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.03%)

Infraestrutura digital crítica (Azure, Windows) em 190+ países. Fornecedor-chave de governos (EUA, UE, OTAN). Base da nuvem e IA corporativa ocidental.

MSFT 10-K (2023); S&P Global; NATO CCDCOE reports.

2

Apple

(Tecnologia)

2,68 tri

383,3 bi

164.000

Institucionais: Vanguard (8.1%), BlackRock (6.3%)

Maior Individual: Berkshire Hathaway (5.9%)

Ecossistema de hardware/serviços dominante em mercados premium. Cadeia suprimentos na China, diversificação para Índia/Vietnã. Ditador de padrões de consumo.

AAPL 10-K (2023); CompaniesMarketCap; Apple Supplier List (2023).

3

Nvidia

(Tecnologia)

2,19 tri

60,9 bi

26.196

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (7.2%)

Controlador: Jensen Huang, CEO (3.5%)

Monopólio de facto em chips de IA (GPUs). Insumo estratégico para defesa, pesquisa e big tech global. Sujeita a controles de exportação EUA-China.

NVDA 10-K (2024); S&P Global; U.S. Bureau of Industry and Security (BIS) regulations.

4

Alphabet

(Tecnologia)

1,70 tri

307,4 bi

182.502

Institucionais: Vanguard (7.9%), BlackRock (6.1%)

Controladores: Larry Page & Sergey Brin (via ações classe B - 10x voto)

Controle do mercado de buscas (~90% global, exceto CN/RU) e publicidade digital. Enfrenta regulação antimonopólio (UE DMA, EUA).

GOOGL 10-K (2023); Statista "Search Engine Market Share"; European Commission DMA case documents.

5

Amazon

(Varejo/Tech)

1,86 tri

574,8 bi

1,5 mi

Institucionais: Vanguard (7.2%), BlackRock (5.9%)

Maior Individual: Jeff Bezos (9.1%)

Líder em e-commerce (EUA, Europa) e nuvem (AWS). AWS é infraestrutura crítica para governos e finanças globais. Maior empregador corporativo.

AMZN 10-K (2023); S&P Global; Synergy Research Group (Cloud Market Share).

6

Meta

(Tecnologia)

1,13 tri

134,9 bi

67.317

Institucionais: Vanguard (7.6%), BlackRock (6.3%)

Controlador Absoluto: Mark Zuckerberg (~61% votos via ações classe B)

Detém redes sociais dominantes (FB, Instagram, WhatsApp) com ~3 bi usuários. Banida na China; regulada na UE (DSA). Vetor de influência cultural.

META 10-K (2023); CompaniesMarketCap; Meta Q4 2023 Earnings Report (Daily Active Users).

7

Berkshire Hathaway

(Conglomerado)

870 bi

364,5 bi

383.000

Institucionais: Vanguard (3.9%), BlackRock (2.8%)

Controlador: Warren Buffett (15.2%)

Conglomerado de seguros (Geico), energia (BHE) e infraestrutura (BNSF). Investidor paciente em setores essenciais; barômetro do capitalismo.

BRK 10-K (2023); S&P Global; SEC Form 13F (Holdings).

8

Tesla

(Automotivo/Energia)

540 bi

96,8 bi

140.473

Institucionais: Vanguard (7.2%), BlackRock (5.7%)

Maior Individual: Elon Musk (13.4%)

Líder em EVs nos EUA; pioneira em baterias e software. Rede Supercharger é padrão na América do Norte. Gigafactories são projetos geopolíticos (DE, CN).

TSLA 10-K (2023); IEA "Global EV Outlook 2024"; Tesla Investor Day presentations.

9

Eli Lilly

(Saúde)

710 bi

34,1 bi

44.000

Institucionais: Vanguard (9.1%), BlackRock (7.8%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.02%)

Líder em medicamentos para obesidade/diabetes (Mounjaro, Zepbound). Poder de precificação pressiona sistemas de saúde globais.

LLY 10-K (2023); S&P Global; Health Affairs "The Economics of New Obesity Drugs" (2024).

10

JPMorgan Chase

(Finanças)

555 bi

162,0 bi

310.000

Institucionais: Vanguard (9.4%), BlackRock (6.6%)

CEO: Jamie Dimon (0.1%)

Maior banco dos EUA (ativo). Instituição sistemicamente crítica (G-SIB). Central para títulos do Tesouro EUA e comércio global.

JPM 10-K (2023); Federal Reserve "Large Bank List"; Financial Stability Board (FSB) reports.

11

Visa

(Finanças)

560 bi

32,7 bi

26.500

Institucionais: Vanguard (8.9%), BlackRock (7.1%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.02%)

Maior rede de pagamentos eletrônicos (200+ países). Infraestrutura crítica do comércio global; poder de efetivar sanções.

V 10-K (2023); Bank for International Settlements (BIS) "Payment Systems" report; Visa Global Reach data.

12

Walmart

(Varejo)

485 bi

648,1 bi

2,1 mi

Institucionais: Vanguard (5.1%), BlackRock (4.3%)

Controladores: Família Walton (~45% via Walton Enterprises)

Maior varejista e empregador privado global. Operações intensivas nas Américas. Define padrões logísticos e de precificação globais.

WMT 10-K (2024); S&P Global; International Labour Organization (ILO) data on retail employment.

13

UnitedHealth Group

(Saúde)

455 bi

371,6 bi

450.000

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (7.2%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.01%)

Maior seguradora de saúde dos EUA (Optum, UnitedHealthcare). Ator central no complexo médico-industrial; influencia preços e políticas.

UNH 10-K (2023); Kaiser Family Foundation "Health Insurance Marketplace"; SEC filings.

14

Mastercard

(Finanças)

425 bi

25,1 bi

33.900

Institucionais: Vanguard (8.7%), BlackRock (7.3%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.01%)

Duopólio global com Visa. Parceira de governos em inclusão financeira e digitalização (Ásia, África).

MA 10-K (2023); World Bank "Global Findex Database 2021"; Mastercard Government Solutions portal.

15

ExxonMobil

(Energia)

475 bi

344,6 bi

62.000

Institucionais: Vanguard (8.9%), BlackRock (6.8%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.02%)

Maior petrolífera dos EUA. Operações em 40+ países com ativos estratégicos (Guiana, Brasil, Golfo Pérsico). Influencia política climática.

XOM 10-K (2023); U.S. Energy Information Administration (EIA) reports; ExxonMobil "Energy Outlook".

16

Johnson & Johnson

(Saúde)

380 bi

85,2 bi

155.000

Institucionais: Vanguard (9.2%), BlackRock (7.5%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.02%)

Conglomerado de saúde com presença massiva em farmacêutica e dispositivos. Portfólio diversificado em 60+ países.

JNJ 10-K (2023); WHO "Essential Medicines List"; Johnson & Johnson Global Public Health reports.

17

Broadcom

(Tecnologia)

590 bi

35,8 bi

20.000

Institucionais: Vanguard (8.4%), BlackRock (6.9%)

CEO: Hock Tan (0.2%)

Dominante em chips de conectividade (redes, data centers). Clientes: Apple, Google, provedores de infraestrutura global.

AVGO 10-K (2023); ITIF "The Semiconductor Supply Chain" report; Broadcom investor presentations.

18

Home Depot

(Varejo)

340 bi

152,7 bi

471.600

Institucionais: Vanguard (8.3%), BlackRock (6.7%)

Fundadores: Bernard Marcus (1.8%), Arthur Blank (1.6%)

Líder absoluta em varelo de materiais de construção (EUA, Canadá). Indicador direto da saúde do setor imobiliário residencial.

HD 10-K (2024); Harvard Joint Center for Housing Studies "State of the Nation's Housing" (2023).

19

Procter & Gamble

(Bens de Consumo)

380 bi

82,0 bi

107.000

Institucionais: Vanguard (9.3%), BlackRock (7.6%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.02%)

Líder em bens de consumo embalados (180+ países). Marcas como Pampers e Gillette são sinônimos de categoria globalmente.

PG 10-K (2023); NielsenIQ "Global Consumer Report"; P&G Annual Report.

20

Chevron

(Energia)

295 bi

200,9 bi

47.718

Institucionais: Vanguard (8.8%), BlackRock (7.0%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.03%)

Segunda maior petrolífera dos EUA. Ativos estratégicos no Golfo Pérsico, Cazaquistão, Austrália (GNL). Parceira de estatais (Qatar).

CVX 10-K (2023); EIA "International Energy Outlook"; Chevron "Annual Supplement".

21

Bank of America

(Finanças)

265 bi

105,7 bi

217.000

Institucionais: Vanguard (10.1%), BlackRock (6.9%)

CEO: Brian Moynihan (0.07%)

Um dos maiores bancos universais dos EUA. Crucial para mercado de títulos e execução da política monetária do Fed.

BAC 10-K (2023); Federal Reserve "Commercial Bank Data"; FDIC Quarterly Banking Profile.

22

Oracle

(Tecnologia)

320 bi

52,5 bi

164.000

Institucionais: Vanguard (7.6%), BlackRock (6.1%)

Controlador: Larry Ellison (42.4% incluindo opções)

Líder em software de banco de dados e aplicações empresariais. Fornecedor crítico para bancos, governos e defesa (CIA, Pentágono).

ORCL 10-K (2023); Gartner "Market Share: Enterprise Software"; U.S. Government contract databases (USAspending.gov).

23

Pfizer

(Saúde)

155 bi

58,5 bi

88.000

Institucionais: Vanguard (8.9%), BlackRock (7.3%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.02%)

Gigante farmacêutica com produção global. Papel central na distribuição de vacinas COVID-19. Portfólio focado em câncer e imunologia.

PFE 10-K (2023); WHO "COVID-19 Vaccine Market Dashboard"; Pfizer "Breakthroughs That Change Patients' Lives" report.

24

CVS Health

(Saúde)

90 bi

357,8 bi

300.000

Institucionais: Vanguard (9.2%), BlackRock (7.5%)

Controle: Governança profissional (CEO: 0.04%)

Maior rede de farmácias dos EUA e uma das maiores PBMs. Controla pontos críticos da cadeia de saúde: distribuição, pagamento e cuidado primário.

CVS 10-K (2023); CDC "Pharmacy Partnership" reports; CVS Health "Health Care Insights".

25

Intel

(Tecnologia)

130 bi

54,2 bi

131.900

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (6.9%)

Legado: Fundadores (Moore, Grove trusts: ~2%)

Maior fabricante de chips por receita (CPU). Símbolo da reindustrialização estratégica dos EUA (CHIPS Act). Fabs nos EUA, Irlanda, Israel.

INTC 10-K (2023); U.S. Department of Commerce "CHIPS Act Notice of Funding Opportunity"; Intel "Foundry" announcements.


Fonte: Elaboração da Autora com base em diversas fontes citadas na tabela, veja notes [01]. 

A Tabela 2 não apenas apresenta um retrato das maiores corporações americanas, mas também oferece uma visão esclarecedora sobre a concentração de poder e influência no cenário econômico e estratégico global. Essas empresas são mais do que simples entidades econômicas; elas constituem pilares de um sistema interligado, onde o poder não é apenas financeiro, mas se estende ao controle das normas culturais, da dinâmica de consumo e da formulação de políticas públicas. O ciclo autoalimentado entre o Pilar Público, Financeiro e Político permite que as corporações não só se mantenham robustas, mas também ampliem sua influência em níveis globais.

Ao observar as corporações listadas, é notável a diversidade de setores que dominam, desde o varejo com empresas como Walmart e Amazon, até gigantes da tecnologia como Apple e Microsoft, sem esquecer a presença significativa de corporações de saúde, energia e finanças. O impacto dessas empresas transcende o simples valor monetário; elas moldam as estruturas de mercado e as próprias condições de vida no cotidiano global, sendo fundamentais na definição de como interagimos, consumimos e nos organizamos socialmente.

O que se destaca na tabela é a crescente presença de corporações que dominam setores essenciais, como saúde e energia, cujas operações e políticas moldam não apenas o mercado, mas também as condições de existência das populações. Empresas como UnitedHealth e CVS Health, que controlam uma parte significativa do sistema de saúde dos Estados Unidos, são um exemplo claro de como o domínio de setores críticos vai além da economia e adentra diretamente as esferas sociais e políticas, tornando-se infraestruturas essenciais que, paradoxalmente, operam dentro de um sistema privado.

Essa concentração de poder traz à tona uma reflexão sobre o papel do Estado e a necessidade de um controle mais rígido sobre essas corporações, de modo a evitar a perpetuação de um ciclo vicioso em que os interesses privados prevalecem sobre as necessidades coletivas. O futuro do modelo corporativo global, portanto, dependerá de como a sociedade e os governos serão capazes de equilibrar esse poder, assegurando que as decisões corporativas atendam não apenas aos lucros, mas também ao bem-estar público, evitando que o poder corporativo se torne ainda mais concentrado e distante das necessidades sociais.


4. Cartografia do Poder: Corporações, Estados e a Reconfiguração da Soberania no Século XXI

A geopolítica clássica do século XX, centrada em mapas que delineavam fronteiras estatais e exércitos permanentes, não é mais suficiente para descrever o poder no século XXI. A análise das 30 maiores corporações globais revela uma realidade mais complexa, onde o poder econômico e corporativo não só complementa, mas frequentemente redefine o poder político tradicional. Esta tabela 03 oferece uma visão detalhada da arquitetura do poder contemporâneo: um mundo onde mega-corporações e Estados nacionais entrelaçam seus poderes de maneiras novas e frequentemente assimétricas. A concentração revelada pela tabela 03, com 21 das 30 maiores empresas sendo americanas (representando 70% do valor total de mercado), não é um acidente de mercado, mas a expressão de uma dominância corporativa que redefine as bases do capitalismo global.

A Anatomia da Hegemonia: A Dominação Corporativa Americana

A primeira leitura da tabela 03 demonstra que  os Estados Unidos mantêm uma posição hegemônica no capitalismo corporativo global. A dominância das corporações americanas, representadas por 21 empresas na tabela, não é apenas econômica, mas também geopolítica. Esta hegemonia se estrutura em três pilares interconectados:

i) O Pilar Tecnológico-Digital

Empresas como Microsoft, Apple, Nvidia, Alphabet (Google), Meta e Amazon não são apenas líderes do setor tecnológico, mas arquitetas das infraestruturas digitais globais. Estas corporações definem a vida digital moderna e são fornecedoras-chave para governos dos EUA, OTAN e UE. Por exemplo:

  • Microsoft (valor de mercado de 3,06 trilhões de dólares) e Alphabet (1,7 trilhões de dólares) dominam a infraestrutura digital com produtos como Windows, Azure, Android e o Google Search.

  • Amazon (1,86 trilhões de dólares), com sua divisão AWS, é crítica para a computação em nuvem, sendo também o maior empregador corporativo privado, com 1,5 milhão de funcionários.

  • Apple (2,68 trilhões de dólares) é a líder global em consumo de luxo e ditadora de padrões globais de hardware e software, com uma cadeia de suprimentos profundamente enraizada na China.

ii) O Pilar Financeiro-Sistêmico

Corporações financeiras como JPMorgan Chase, Visa, Mastercard, Bank of America formam a espinha dorsal do sistema financeiro global. O controle da infraestrutura de pagamentos e a capacidade de aplicar sanções financeiras demonstram o poder político que essas empresas exercem:

  • JPMorgan Chase (555 bilhões de dólares) é a maior instituição bancária dos EUA e central no mercado de títulos do Tesouro americano.

  • Visa (560 bilhões de dólares) e Mastercard (425 bilhões de dólares) dominam o comércio eletrônico global e controlam a rede de pagamentos, com presença em mais de 200 países.

iii)  O Pilar da Governança Corporativa

O padrão de propriedade revelado na tabela 03  é um aspecto crucial. Vanguard e BlackRock, os maiores acionistas institucionais de empresas como ExxonMobil e Tesla, formam uma rede de propriedade cruzada que alinha interesses em diferentes setores, reduzindo a competição direta. Exemplos dessa interdependência incluem:

  • Vanguard e BlackRock detêm fatias significativas de empresas como Tesla (540 bilhões de dólares) e ExxonMobil (475 bilhões de dólares), criando uma governança corporativa voltada para a estabilidade do portfólio e não para a inovação disruptiva.

  • Essas corporações não apenas dominam mercados, mas também definem as estratégias de longo prazo, moldando a economia global em benefício de uma pequena elite de investidores institucionais.

 As Exceções que Confirmam a Regra: O Poder Não-Americano como Correção Estratégica

Embora as corporações americanas dominem o mercado, as empresas não-americanas desempenham papéis estratégicos que destacam a natureza interdependente do poder global. As empresas não-americanas controlam gargalos críticos na produção e distribuição global.

i)  Saudi Aramco (Arábia Saudita)

Com um valor de mercado de 2,09 trilhões de dólares, Saudi Aramco é a maior produtora de petróleo do mundo e um ativo estratégico fundamental para a política energética global. Seu controle estatal (~98%) faz da empresa uma ferramenta crucial para a geopolítica do Oriente Médio e sua posição no Golfo Pérsico.

ii)  TSMC (Taiwan) e ASML (Países Baixos)

A TSMC (740 bilhões de dólares) e ASML (380 bilhões de dólares) controlam gargalos críticos na cadeia de produção de chips avançados, tornando-se fundamentais para a tecnologia moderna e fontes de tensão geopolítica:

  • TSMC é a maior fundição de semicondutores do mundo, produzindo chips para empresas como Apple, Nvidia e AMD.

  • ASML, com seu monopólio de máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV), é essencial para a produção de chips avançados. Sua localização em Taiwan torna a ilha um ponto de tensão geopolítica crucial.

iii)  A Interdependência Global

Essas empresas não-americanas são indispensáveis para a cadeia de suprimentos global, enquanto as corporações americanas dominam o design e a criação de software. A interdependência é clara: os EUA dependem de Taiwan para semicondutores e da Europa para equipamentos especializados, enquanto essas regiões dependem dos EUA para os sistemas operacionais e redes de pagamento.

A Tríade Corporativa como Mecanismo de Poder

A análise das 30 maiores corporações globais revela uma tríade de poder que espelha a interação entre poder corporativo e poder estatal:

i) Poder Público (Visível)

As corporações influenciam a vida cotidiana e moldam o comportamento social. Apple e Meta não só definem padrões de consumo, mas também a interação social global, com Meta controlando as maiores redes sociais do mundo (Facebook, Instagram e WhatsApp).

ii) Poder Financeiro (Estrutural)

O poder de Vanguard e BlackRock vai além da simples gestão de portfólios: eles moldam a estrutura financeira do capitalismo global, influenciam políticas públicas e garantem a estabilidade do sistema econômico internacional.

iii) Poder Político (Relacional)

As corporações também têm acesso privilegiado ao Estado e capacidade de influenciar regulações globais. Microsoft, por exemplo, é uma fornecedora essencial para governos e agências de defesa, enquanto Oracle presta serviços críticos para a inteligência americana.


Tabela 03: Arquitetura do Poder Corporativo Global: Estratégias, Governança e Impacto Geopolítico das Maiores Empresas do Mundo

Ranking

Empresa (Setor - País)

Valor Mercado (US$)

Receita 2023 (US$)

Emprego

Principais Acionistas & Controle

Impacto Estratégico e Alcance Geopolítico

Fontes

1

Microsoft

(Tecnologia - EUA)

3,06 tri

211,9 bi

221.000

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (6.8%)

Governança: Profissional (CEO: 0.03%)

Infraestrutura digital global crítica (Windows, Azure, Office). Fornecedora-chave para governos (EUA, OTAN, UE) e base da nuvem e IA corporativa ocidental.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: MSFT 10-K (2023). Propriedade: MSFT DEF 14A (2024). Impacto: NATO CCDCOE (2023).

2

Apple

(Tecnologia - EUA)

2,68 tri

383,3 bi

164.000

Institucionais: Vanguard (8.1%), BlackRock (6.3%)

Maior Individual: Berkshire Hathaway (5.9%)

Ecossistema de consumo de luxo dominante. Cadeia de suprimentos global centrada na China. Ditador global de padrões de hardware, software e desejo de consumo.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: AAPL 10-K (2023). Propriedade: AAPL DEF 14A (2024). Impacto: Apple Supplier List (2023).

3

Nvidia

(Tecnologia - EUA)

2,19 tri

60,9 bi

26.196

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (7.2%)

Controlador: Jensen Huang, CEO (3.5%)

Monopólio de facto em chips de IA (GPUs). Insumo estratégico para defesa, pesquisa e big tech. Ativo geopolítico central na corrida pela IA entre EUA e China.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: NVDA 10-K (2024). Propriedade: NVDA DEF 14A (2024). Impacto: U.S. Bureau of Industry and Security (BIS) (2023).

4

Saudi Aramco

(Energia - Arábia Saudita)

2,09 tri

440,9 bi*

70.000*

Controlador: Governo da Arábia Saudita (~98%)

Pública: ~2% em bolsa

Maior produtora de petróleo do mundo. Ativo estratégico que define a política energética global e as finanças sauditas. Poder de barganha geopolítica no Golfo Pérsico e com a Ásia.

Mercado/Financeiro: Saudi Aramco Annual Report (2023). Estrutura: Tadawul disclosures. Impacto: IEA, OPEC Annual Statistical Bulletin (2023).

5

Alphabet (Google)

(Tecnologia - EUA)

1,70 tri

307,4 bi

182.502

Institucionais: Vanguard (7.9%), BlackRock (6.1%)

Controladores: Page & Brin (via ações Classe B)

Controle do mercado de buscas (~90% global) e da publicidade digital. Motor de busca e sistema Android definem o acesso à informação. Alvo central de regulação antimonopólio (UE, EUA).

Mercado: Statista (2024). Financeiro: GOOGL 10-K (2023). Propriedade: GOOGL DEF 14A (2024). Impacto: European Commission DMA (2024).

6

Amazon

(Varejo/Tech - EUA)

1,86 tri

574,8 bi

1,5 mi

Institucionais: Vanguard (7.2%), BlackRock (5.9%)

Maior Individual: Jeff Bezos (9.1%)

Líder global em e-commerce e computação em nuvem (AWS). AWS é infraestrutura crítica para governos e setor financeiro. Maior empregador corporativo privado do mundo.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: AMZN 10-K (2023). Propriedade: AMZN DEF 14A (2024). Impacto: Synergy Research Group (2024).

7

Meta Platforms

(Tecnologia - EUA)

1,13 tri

134,9 bi

67.317

Institucionais: Vanguard (7.6%), BlackRock (6.3%)

Controlador Absoluto: Mark Zuckerberg (~61% votos)

Controla as principais redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp) com ~3 bi de usuários. Banida na China, regulada na UE. Define a interação social e a economia da atenção globais.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: META 10-K (2023). Propriedade: META DEF 14A (2024). Impacto: Meta Q4 2023 Earnings Report.

8

TSMC

(Tecnologia - Taiwan)

740 bi*

69,3 bi*

73.000*

Institucionais: Governo de Taiwan (~6%), BlackRock, Vanguard

Governança: Profissional

Maior fundição (foundry) de semicondutores do mundo. Produz chips para Apple, Nvidia, AMD. Ativo geoestratégico crítico; sua localização em Taiwan é um ponto de tensão global.

Mercado/Financeiro: TSMC Annual Report (2023). Propriedade: TSMC 20-F (2023). Impacto: U.S. CHIPS Act, Brookings Institution (2023).

9

Berkshire Hathaway

(Conglomerado - EUA)

870 bi

364,5 bi

383.000

Institucionais: Vanguard (3.9%), BlackRock (2.8%)

Controlador: Warren Buffett (15.2%)

Conglomerado de seguros (Geico), energia (BHE), ferrovias (BNSF). Investidor paciente em setores essenciais; seu desempenho é barômetro da confiança no capitalismo americano.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: BRK 10-K (2023). Propriedade: BRK DEF 14A (2024). Impacto: Financial Times (2024).

10

Tesla

(Automotivo/Energia - EUA)

540 bi

96,8 bi

140.473

Institucionais: Vanguard (7.2%), BlackRock (5.7%)

Maior Individual: Elon Musk (13.4%)

Líder em veículos elétricos (EUA) e tecnologia de baterias. Sua rede de carregamento é padrão na América do Norte. Gigafactories são projetos geopolíticos (Alemanha, China).

Mercado: Statista (2024). Financeiro: TSLA 10-K (2023). Propriedade: TSLA DEF 14A (2024). Impacto: IEA Global EV Outlook (2024).

11

Eli Lilly

(Saúde - EUA)

710 bi

34,1 bi

44.000

Institucionais: Vanguard (9.1%), BlackRock (7.8%)

Governança: Profissional

Líder farmacêutica em medicamentos para obesidade (Zepbound) e diabetes (Mounjaro). Poder de precificação que tensiona sistemas de saúde públicos globais.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: LLY 10-K (2023). Propriedade: LLY DEF 14A (2024). Impacto: Health Affairs (2024).

12

Tencent

(Tecnologia - China)

385 bi*

85,5 bi*

108.000*

Controladores: Ma Huateng (fundador), Naspers/Prosus

Governança: Sob influência do Partido Comunista Chinês

Gigante da internet chinesa: jogos (Honor of Kings), redes sociais (WeChat), investimentos. WeChat é infraestrutura social e de pagamentos essencial na China. Braço do poder tecnológico estatal chinês.

Mercado/Financeiro: Tencent Annual Report (2023). Estrutura: Hong Kong Exchange filings. Impacto: Council on Foreign Relations - CFR (2023).

13

JPMorgan Chase

(Finanças - EUA)

555 bi

162,0 bi

310.000

Institucionais: Vanguard (9.4%), BlackRock (6.6%)

CEO: Jamie Dimon (0.1%)

Maior banco dos EUA por ativos. Instituição sistemicamente crítica (G-SIB). Central para o mercado de títulos do Tesouro americano e o financiamento do comércio global.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: JPM 10-K (2023). Propriedade: JPM DEF 14A (2024). Impacto: Financial Stability Board - FSB (2023).

14

Visa

(Finanças - EUA)

560 bi

32,7 bi

26.500

Institucionais: Vanguard (8.9%), BlackRock (7.1%)

Governança: Profissional

Maior rede de pagamentos eletrônicos do mundo (200+ países). Infraestrutura crítica do comércio global. Seu poder de compliance efetiva sanções financeiras internacionais.

Mercado: Statista (2024). Financeiro: V 10-K (2023). Propriedade: V DEF 14A (2024). Impacto: Bank for International Settlements - BIS (2023).

15

LVMH

(Luxo - França)

420 bi*

86,2 bi*

213.000*

Controladores: Família Arnault (~48% via holding)

Governança: Familiar

Maior conglomerado de bens de luxo do mundo (Louis Vuitton, Dior, Tiffany). Define tendências globais de consumo de luxo e status cultural. Símbolo do "soft power" econômico europeu.

Mercado/Financeiro: LVMH Annual Report (2023). Estrutura: Euronext Paris filings. Impacto: Bloomberg, Bain & Company Luxury Study (2023).

16

Walmart

(Varejo - EUA)

485 bi

648,1 bi

2,1 mi

Institucionais: Vanguard (5.1%), BlackRock (4.3%)

Controladores: Família Walton (~45% via Walton Enterprises)

Maior varejista e empregador privado do mundo. Operações massivas nas Américas. Define padrões logísticos, de precificação e salariais para cadeias de suprimentos globais.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: WMT 10-K (2024). Propriedade: WMT DEF 14A (2024). Impacto: International Labour Organization - ILO (2023).

17

UnitedHealth Group

(Saúde - EUA)

455 bi

371,6 bi

450.000

Institucionais: Vanguard (8.5%), BlackRock (7.2%)

Governança: Profissional

Maior seguradora de saúde dos EUA (Optum, UnitedHealthcare). Arquitetura central do complexo médico-industrial americano. Influencia decisivamente preços e políticas de saúde.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: UNH 10-K (2023). Propriedade: UNH DEF 14A (2024). Impacto: Kaiser Family Foundation - KFF (2024).

18

Mastercard

(Finanças - EUA)

425 bi

25,1 bi

33.900

Institucionais: Vanguard (8.7%), BlackRock (7.3%)

Governança: Profissional

Forma duopólio global com a Visa. Parceira-chave de governos em iniciativas de inclusão financeira e digitalização de economias emergentes.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: MA 10-K (2023). Propriedade: MA DEF 14A (2024). Impacto: World Bank Global Findex (2021).

19

ExxonMobil

(Energia - EUA)

475 bi

344,6 bi

62.000

Institucionais: Vanguard (8.9%), BlackRock (6.8%)

Governança: Profissional

Maior petrolífera dos EUA. Operações em 40+ países com ativos estratégicos (Guiana, Brasil, Golfo Pérsico). Lobby influente contra regulamentação climática.

Mercado: Statista (2024). Financeiro: XOM 10-K (2023). Propriedade: XOM DEF 14A (2024). Impacto: U.S. Energy Information Administration - EIA (2024).

20

Novo Nordisk

(Saúde - Dinamarca)

580 bi*

33,7 bi*

64.000*

Controlador: Fundação Novo Nordisk (maioria votante)

Governança: Fundacional

Líder global em diabetes (Ozempic) e obesidade (Wegovy). Seu sucesso tensiona orçamentos de saúde na Europa e América do Norte. Símbolo do poder farmacêutico europeu.

Mercado/Financeiro: Novo Nordisk Annual Report (2023). Estrutura: Copenhagen Stock Exchange filings. Impacto: Nature Reviews Drug Discovery (2024).

21

Johnson & Johnson

(Saúde - EUA)

380 bi

85,2 bi

155.000

Institucionais: Vanguard (9.2%), BlackRock (7.5%)

Governança: Profissional

Gigante de saúde com portfólio massivo em farmacêutica, dispositivos médicos e bens de consumo. Presença onipresente em farmácias e hospitais globais.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: JNJ 10-K (2023). Propriedade: JNJ DEF 14A (2024). Impacto: WHO Essential Medicines List (2023).

22

Broadcom

(Tecnologia - EUA)

590 bi

35,8 bi

20.000

Institucionais: Vanguard (8.4%), BlackRock (6.9%)

CEO: Hock Tan (0.2%)

Líder em chips de conectividade para infraestrutura de rede, data centers e smartphones (Apple). Cresce por aquisições agressivas, concentrando setor estratégico.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: AVGO 10-K (2023). Propriedade: AVGO DEF 14A (2024). Impacto: ITIF Semiconductor Supply Chain (2024).

23

Samsung Electronics

(Tecnologia - Coreia do Sul)

370 bi*

200,5 bi*

270.000*

Controladores: Família Lee via holdings complexas

Governança: Familiar/Chaebol

Gigante da eletrônica e maior fabricante de chips de memória do mundo. Espinha dorsal tecnológica da Coreia do Sul. Competidor-chave da Apple e das semiconductoras.

Mercado/Financeiro: Samsung Electronics Annual Report (2023). Estrutura: Korea Exchange filings. Impacto: Reuters, Chosun Ilbo (2023).

24

Procter & Gamble

(Bens de Consumo - EUA)

380 bi

82,0 bi

107.000

Institucionais: Vanguard (9.3%), BlackRock (7.6%)

Governança: Profissional

Líder em bens de consumo embalados (180+ países). Marcas como Pampers e Gillette definem categorias e padrões de consumo doméstico global.

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: PG 10-K (2023). Propriedade: PG DEF 14A (2024). Impacto: NielsenIQ Global Consumer Report (2024).

25

Chevron

(Energia - EUA)

295 bi

200,9 bi

47.718

Institucionais: Vanguard (8.8%), BlackRock (7.0%)

Governança: Profissional

Segunda maior petrolífera dos EUA. Ativos estratégicos no Golfo Pérsico, Cazaquistão, Austrália (GNL). Instrumento de política externa energética dos EUA.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: CVX 10-K (2023). Propriedade: CVX DEF 14A (2024). Impacto: EIA International Energy Outlook (2024).

26

ASML

(Tecnologia - Países Baixos)

380 bi*

27,6 bi*

42.000*

Institucionais: BlackRock, Capital Group

Governança: Profissional

Monopólio mundial em máquinas de litografia extrema ultravioleta (EUV) para fabricação de chips avançados. Gargalo crítico da cadeia global de semicondutores; seu equipamento não pode ser vendido à China.

Mercado/Financeiro: ASML Annual Report (2023). Propriedade: Euronext Amsterdam filings. Impacto: U.S. CHIPS Act, Bloomberg (2023).

27

Bank of America

(Finanças - EUA)

265 bi

105,7 bi

217.000

Institucionais: Vanguard (10.1%), BlackRock (6.9%)

CEO: Brian Moynihan (0.07%)

Um dos maiores bancos universais dos EUA. Crucial para o mercado de títulos e crédito corporativo. Participante primário nas operações de mercado do Federal Reserve.

Mercado: Statista (2024). Financeiro: BAC 10-K (2023). Propriedade: BAC DEF 14A (2024). Impacto: Federal Reserve Commercial Bank Data (2024).

28

Oracle

(Tecnologia - EUA)

320 bi

52,5 bi

164.000

Institucionais: Vanguard (7.6%), BlackRock (6.1%)

Controlador: Larry Ellison (42.4% incluindo opções)

Líder em software de banco de dados e aplicações empresariais. Fornecedor crítico para setor financeiro, governos e defesa (contratos com CIA, Pentágono).

Mercado: S&P Global (2024). Financeiro: ORCL 10-K (2023). Propriedade: ORCL DEF 14A (2024). Impacto: Gartner Market Share (2024), USAspending.gov.

29

Pfizer

(Saúde - EUA)

155 bi

58,5 bi

88.000

Institucionais: Vanguard (8.9%), BlackRock (7.3%)

Governança: Profissional

Gigante farmacêutica com produção global. Papel geopolítico central como fornecedora global de vacinas durante a pandemia de COVID-19.

Mercado: CompaniesMarketCap (2024). Financeiro: PFE 10-K (2023). Propriedade: PFE DEF 14A (2024). Impacto: WHO COVID-19 Vaccine Dashboard (2024).

30

Toyota Motor

(Automotivo - Japão)

330 bi*

297,0 bi*

375.000*

Principais: Toyota Industries, Japoneses (Mizuho, etc.)

Governança: Profissional/Keiretsu

Maior fabricante de automóveis do mundo. Líder em veículos híbridos e piloto de hidrogênio. Símbolo da força industrial e tecnológica do Japão e sua rede de fornecedores globais (keiretsu).

Mercado/Financeiro: Toyota Annual Report (2024). Estrutura: Tokyo Stock Exchange filings. Impacto: IEA Global EV Outlook, Japan Automobile Manufacturers Assoc. (2023).

Fonte: Elaboração da Autora com base em diversas fontes citadas na tabela, veja notes [02]. 

A tabela 03 das 30 maiores corporações globais oferece um mapa detalhado do poder econômico do século XXI, onde a soberania não é mais exclusivamente estatal. O poder está concentrado não só em grandes corporações, mas em poucos gestores institucionais, como Vanguard e BlackRock, que controlam os destinos de algumas das empresas mais poderosas do mundo. A hegemonia dos EUA continua, mas depende de uma rede global de recursos e manufatura, com vulnerabilidades geopolíticas evidentes, como as tensões em Taiwan e na produção de semicondutores.

Neste novo cenário, o Estado não desaparece, mas se reposiciona, compartilhando a soberania com as corporações de maneira híbrida. As corporações como Microsoft, Visa, TSMC e Apple não são apenas empresas globais, mas também poderosos agentes geopolíticos que definem as regras do comércio global, da tecnologia e da política. Este mapa revela a nova realidade: um sistema de poder interdependente, complexo e em constante transformação, onde as corporações desempenham um papel tão fundamental quanto os próprios Estados na definição do futuro global.

O século XXI nos convida a repensar o poder, e a tabela 03 das 30 maiores corporações globais é uma ferramenta indispensável para compreender as novas dinâmicas de soberania e governança.


5. Análise da Ausência Chinesa no Ranking Corporativo Global: O Paradoxo do Gigante Econômico

O Paradoxo da Ausência Chinesa no Topo do Capitalismo Global

O ranking das 30 maiores corporações globais revela uma realidade curiosa e paradoxal. Apesar de ser a segunda maior economia do mundo, com um PIB nominal de US$ 19 trilhões, a China está representada apenas por uma única empresa (Tencent), enquanto os Estados Unidos dominam a lista com 21 empresas. Esse fenômeno é uma das características mais intrigantes da economia global contemporânea e exige uma análise cuidadosa das razões por trás dessa desconexão entre o tamanho econômico agregado da China e sua presença no topo do capitalismo corporativo global.

A presença de empresas chinesas no cenário corporativo global tem sido um reflexo da ascensão econômica da China nas últimas décadas, uma potência que, mesmo sendo a segunda maior economia do mundo, enfrenta um paradoxo curioso no ranking das maiores corporações globais. Embora a China se destaque por seu poder econômico e infraestrutura robusta, sua representação no topo do capitalismo corporativo global é surpreendentemente modesta. Esse fenômeno não é apenas uma curiosidade estatística, mas uma consequência das especificidades do modelo econômico chinês, que difere profundamente do capitalismo ocidental. Este ensaio visa explorar esse paradoxo, abordando as características do modelo de capitalismo de estado da China e a maneira como as empresas chinesas, muitas vezes estatais ou parcialmente estatais, não conseguem se posicionar de forma robusta nos rankings globais de valor de mercado, apesar de sua dimensão e impacto econômico.

i)  O Modelo Econômico Chinês: Uma Explicação Estrutural

A ausência da China neste ranking não é acidental. Ela é, na verdade, reflexo das características estruturais do modelo econômico do país, que é fundamentalmente distinto do modelo de capitalismo dos Estados Unidos. As razões principais para a sub-representação chinesa no ranking das 30 maiores corporações globais incluem a predominância do capitalismo de estado, o controle governamental sobre setores estratégicos, e a restrição do acesso às bolsas globais.

Capitalismo de Estado e Empresas Estatais Dominantes

As verdadeiras gigantes da economia chinesa são, em sua maioria, empresas estatais que não negociam suas ações livremente em bolsas de valores ou têm seu valor de mercado baseado no mercado público. Algumas dessas empresas incluem:

  • State Grid (faturamento superior a US$ 500 bilhões),

  • China National Petroleum (CNPC) e Sinopec, com receitas superiores a US$ 400 bilhões cada,

  • Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), o maior banco do mundo por ativos, com mais de US$ 5 trilhões.

Essas empresas, embora essenciais para a economia global, não estão presentes nos rankings de valor de mercado, pois suas ações são majoritariamente estatais, com apenas uma parte delas negociada nas bolsas, resultando em uma avaliação limitada.

Modelo de Capitalização de Mercado Diferenciado

As empresas chinesas que estão listadas em bolsas internacionais frequentemente sofrem com o "China Discount" — uma avaliação menor devido a uma série de fatores:

  • Riscos geopolíticos associados às tensões entre EUA e China,

  • Controles governamentais sobre setores estratégicos,

  • Restrições de capital e a volatilidade regulatória imposta pelo governo chinês.

Exemplo disso é o caso do Alibaba, que chegou a valer mais de US$ 800 bilhões em 2020, mas viu seu valor cair para aproximadamente US$ 200 bilhões após as repressões regulatórias do governo chinês.

Estrutura Setorial Distinta

A economia chinesa também é fortemente orientada para indústrias pesadas e manufatura, áreas que geralmente têm margens menores e, consequentemente, são avaliadas de forma inferior em termos de mercado. A infraestrutura e o setor de construção, dominados por empresas estatais, também têm um impacto limitado no valor de mercado, uma vez que não são tão voltados para o consumidor global de marcas e produtos de alto valor agregado.

ii) Onde Estariam as Empresas Chinesas em um Ranking por Receita ou Ativos?

Se a análise fosse realizada por receita ou ativos, as empresas chinesas teriam uma representação massiva. Por exemplo:

Top 10 por Receita (2023):

  • State Grid (#3, receita de US$ 530 bilhões),

  • China National Petroleum (#4, receita de US$ 400 bilhões),

  • Sinopec (#5, receita de US$ 400 bilhões).

As empresas chinesas ocupam 135 posições das 500 do ranking Fortune Global 500, quase empatando com os EUA, que têm 136 empresas listadas.

Top Bancos por Ativos (2023):

  • Quatro dos cinco maiores bancos do mundo são chineses, com o ICBC liderando com US$ 5,5 trilhões em ativos.

Essas empresas, embora gigantes em termos de ativos e receita, não aparecem no ranking de valor de mercado, devido à estrutura de capital estatal ou às restrições regulatórias.

iii)  As Verdadeiras Gigantes Chinesas que "Não Aparecem" no Ranking

O ranking das maiores corporações globais ignora diversas gigantes chinesas devido ao seu modelo corporativo distinto. Exemplos incluem:

  • State Grid (Energia) — Empresa estatal não totalmente listada, com receita de US$ 530 bilhões.

  • ICBC (Bancos) — Maioria estatal, com ativos de US$ 5,5 trilhões.

  • Huawei (Tecnologia) — Privada, não listada, com receita de US$ 99 bilhões.

  • TikTok (ByteDance) (Tecnologia/Mídia) — Privada, com valuation estimado de US$ 225 bilhões e 1,9 bilhão de usuários.

  • China Railway (Infraestrutura) — Estatal, com ativos de aproximadamente US$ 1,8 trilhões.

Essas empresas, apesar de seu impacto significativo na economia global, não são capturadas pela métrica de valor de mercado, o que limita sua visibilidade nos rankings tradicionais.

iv) O Caso Especial das "Big Tech" Chinesas que Enfraqueceram

Algumas das "Big Tech" chinesas que poderiam estar no ranking das 30 maiores corporações globais sofreram desvalorizações significativas nos últimos anos, como resultado de intervenções regulatórias e mudanças no ambiente econômico chinês. Exemplos incluem:

  • Alibaba: De um valor de mercado superior a US$ 800 bilhões em 2020 para aproximadamente US$ 200 bilhões em 2024.

  • Tencent: Apesar de sua relevância no setor de jogos e mídia social, o valor de mercado de US$ 500 bilhões é apenas uma fração do seu potencial em termos de poder econômico real.

  • JD.com, Baidu, Meituan: Também sofreram perdas significativas de valor.

v) Fatores que Explicam a Sub-representação Chinesa

Diversos fatores explicam a sub-representação das empresas chinesas no ranking global de valor de mercado:

  1. Controles de Capital: Restrições rigorosas à entrada e saída de capitais estrangeiros, que limitam a capacidade das empresas chinesas de atrair investimento internacional.

  2. Riscos Regulatórios: Intervenções súbitas do governo, como as que afetaram os setores de educação e tecnologia, prejudicando a confiança do mercado.

  3. Desconexão Bolsista: As bolsas de Xangai e Shenzhen são menos integradas ao sistema financeiro global do que as bolsas de valores dos EUA, como Nasdaq e New York Stock Exchange.

  4. Valuation por Métricas Diferentes: O mercado valoriza mais fluxo de caixa livre e boas práticas de governança corporativa, onde as empresas chinesas, muitas vezes, perdem devido à interferência estatal e à falta de transparência.

vi) Cenário 2025: A Reconfiguração Possível

Se considerarmos a inclusão de empresas não listadas ou estatais, por métricas de tamanho real, a China teria uma presença massiva no topo do ranking global:

  • Por Receita: A China teria 4-5 empresas no top 10 mundial, incluindo State Grid e CNPC.

  • Por Ativos: Bancos chineses dominariam o top 5 global, com o ICBC como líder absoluto.

  • Por Funcionários: As empresas estatais chinesas empregam milhões de trabalhadores, sendo as maiores empregadoras corporativas do mundo.

vii) Dois Modelos em Concorrência

A ausência da China no ranking das 30 maiores corporações globais reflete a dicotomia entre dois modelos econômicos:

  • Modelo Americano: Capitalismo financeirizado, com empresas de alta capitalização de mercado, focadas em tecnologia e marcas globais.

  • Modelo Chinês: Capitalismo de estado, com empresas estatais gigantes em setores estratégicos, controle governamental, e ênfase em infraestrutura e produção.

Se o ranking fosse baseado no poder econômico real, e não apenas no valor de mercado, a China teria uma presença massiva. A influência geopolítica das estatais chinesas também seria equivalente à das corporações americanas, mas exercendo seu poder de maneira distinta: não pelo mercado, mas pelo controle de recursos, infraestrutura global (Belt and Road) e capacidade industrial massiva.

A ascensão das corporações chinesas nas últimas décadas reflete a transformação da China de uma nação eminentemente agrícola para uma potência global com capacidade de influenciar e reconfigurar a economia mundial. A estrutura corporativa do país, fortemente marcada pela intervenção estatal, é um exemplo de como o capitalismo de estado pode ser operado em larga escala, criando uma simbiose entre o setor público e o privado que se reflete nas corporações que lideram o mercado global. O poder das 15 maiores corporações chinesas não se limita ao seu tamanho ou influência econômica; elas são peças-chave da estratégia geopolítica da China, funcionando como extensões do Estado e instrumentos de sua política externa, bem como alavancas de sua projeção de poder.

Esta Tabela 04  explora como essas corporações, que operam em setores estratégicos como energia, finanças e tecnologia, são fundamentais para a construção do poder global chinês. A análise aborda as diferentes estratégias adotadas por essas empresas para consolidar sua posição no mercado global, as suas interações com o governo e as vulnerabilidades que surgem dessa estreita relação com o Estado. Ao compreender o papel dessas corporações na geopolítica e na economia global, é possível obter uma visão mais ampla da dinâmica de poder que a China está construindo para o futuro.

Tabela 04: As 15 Maiores Corporações Chinesas: Poder, Controle e Influência

Ranking

Empresa (Setor)

Valor Mercado (US$) *

Receita 2023 (US$)

Ativos (US$)

Emprego

Principais Acionistas & Controle

Impacto Estratégico e Alcance Geopolítico

Fontes Oficiais e de Referência

1

State Grid Corporation of China (Energia/Infraestrutura)

(Empresa Estatal)

$ 530 bilhões

~$ 1.1 trilhão

900.000+

Estado Chinês (100%). Controlada pela Comissão de Ativos Estatais (SASAC).

Pilar da soberania nacional. Monopólio da rede elétrica doméstica. Líder global em tecnologia de ultra-alta tensão (UHV). Exporta o padrão chinês de infraestrutura energética através da Iniciativa do Cinturão e Rota.

Receita/Ativos: Relatório Anual da State Grid 2023; Fortune Global 500 2023. Controle: Site oficial da SASAC. Impacto: IEA Reports; Análise do CSIS sobre BRI.

2

China National Petroleum Corporation (CNPC) (Energia)

(Empresa Estatal)

~$ 470 bilhões

~$ 720 bilhões

1.2 milhão+

Estado Chinês (100%). Controlada pela SASAC.

Segurança energética da China. Uma das maiores empresas integradas de petróleo e gás do mundo. Investimentos no exterior garantem acesso a recursos (ex.: Ásia Central, Sudão). Instrumento de "diplomacia dos recursos".

Receita/Ativos: Fortune Global 500 2023; Relatório da CNPC. Emprego: Site oficial do grupo CNPC. Impacto: Relatórios da Oxford Institute for Energy Studies.

3

Sinopec Group (Energia/Química)

~$ 80 bilhões (da listada Sinopec Ltd.)

~$ 450 bilhões

~$ 350 bilhões

550.000+

Estado Chinês (majoritário) via holding. Controlada pela SASAC.

Maior refinadora do mundo. Central para a segurança de combustíveis da China. Sua escala define fluxos globais de petróleo e produtos químicos. Estratégia de downstream global.

Receita: Fortune Global 500 2023. Valor de Mercado: Bolsa de Hong Kong/Xangai (0386.HK). Controle: Estrutura societária da Sinopec Ltd.

4

Industrial & Commercial Bank of China (ICBC) (Financeiro)

~$ 330 bilhões (listada)

$ 170 bilhões

$ 5.5 trilhões

460.000

Estado Chinês (majoritário) via Central Huijin (71%) e Ministério das Finanças.

Maior banco do mundo por ativos. Principal executor financeiro das políticas estatais. Financia projetos estratégicos domésticos e globais (BRI). Representa a expansão do poder financeiro do yuan.

Ativos/Receita: Relatório Anual ICBC 2023. Controle: Divulgação de acionistas da ICBC. Impacto: Relatórios do FMI; Estudos do Rhodium Group sobre BRI.

5

China Construction Bank (CCB) (Financeiro)

~$ 210 bilhões (listada)

$ 150 bilhões

~$ 4.7 trilhões

400.000

Estado Chinês (majoritário) via Central Huijin (57%).

Segundo maior banco do mundo. Especializado em financiamento de infraestrutura e desenvolvimento imobiliário, impulsionando o modelo de crescimento chinês.

Ativos/Receita: Relatório Anual CCB 2023. Controle: Divulgação de acionistas da CCB.

6

Agricultural Bank of China (ABC) (Financeiro)

~$ 175 bilhões (listada)

$ 140 bilhões

~$ 4.2 trilhões

460.000

Estado Chinês (majoritário) via Central Huijin (40%).

Banco com maior rede de agências na China, vital para a economia rural e a "revitalização do campo". Ferramenta de política de desenvolvimento regional.

Ativos/Receita: Relatório Anual ABC 2023. Controle: Divulgação de acionistas da ABC.

7

Ping An Insurance Group (Financeiro/Seguros)

~$ 110 bilhões

$ 180 bilhões

~$ 1.5 trilhão

360.000

Acionistas dispersos, mas forte influência de instituições estatais chinesas. Maior acionista é a Thai Charoen Corp.

Conglomerado financeiro líder. Investe pesadamente em tecnologia (fintech, saúde digital). Representa a modernização do setor financeiro chinês, mas sob supervisão regulatória estrita.

Receita/Ativos: Relatório Anual Ping An 2023; Fortune Global 500. Valor de Mercado: Bolsa de Xangai/Hong Kong (601318.SS).

8

Tencent Holdings (Tecnologia)

~$ 500 bilhões

$ 99 bilhões

~$ 250 bilhões

112.000

Ma Huateng (fundador), Prosus (via Naspers), outros. Alinhada às diretrizes do Partido.

Gigante do ecossistema digital. Domina comunicações (WeChat), jogos e investimentos em tech global. WeChat é infraestrutura nacional. Vetor de influência digital e "soft power" chinês.

Valor Mercado/Receita: Relatório Anual Tencent 2023; Yahoo Finance. Impacto: Relatório do MERICS sobre Big Tech chinesa; Bloomberg.

9

Alibaba Group (E-commerce/Tecnologia)

~$ 200 bilhões

$ 134 bilhões

~$ 250 bilhões

250.000

Joseph Tsai (Chairman), Jack Ma (fundador), fundos estatais. Sob supervisão regulatória.

Maior plataforma de e-commerce do mundo. Dominante no varejo digital e cloud na China/Ásia. Após a repressão regulatória, tornou-se um "campeão nacional" mais controlado.

Valor Mercado/Receita: Relatório Anual Alibaba FY2023; SEC Form 20-F. Impacto: Análises do Brookings Institution; The Economist.

10

China Mobile (Telecomunicações)

~$ 220 bilhões (listada)

$ 130 bilhões

~$ 280 bilhões

450.000

Estado Chinês (majoritário, ~62%) via China Mobile Communications Group.

Maior operadora de telecomunicações do mundo. Implementou a maior rede 5G global. Braço-chave para a soberania digital e padrões tecnológicos (6G). Instrumento de política industrial.

Receita/Ativos: Relatório Anual China Mobile 2023. Controle: Divulgação de acionistas. Impacto: Relatórios do GSMA; MIT Technology Review.

11

Huawei Technologies (Tecnologia/Telecom)

(Não cotada)

~$ 99 bilhões

~$ 120 bilhões

207.000

Cooperativa de Funcionários. Considerada um "Campeão Nacional" sob supervisão do Partido/Estado.

Líder global em equipamentos de telecom 5G e inovação. Centro da guerra tecnológica EUA-China. Sancionada pelos EUA. Exporta infraestrutura digital crítica para o Sul Global, promovendo padrões chineses.

Receita: Relatório Anual Huawei 2023. Emprego: Site de Sustentabilidade da Huawei. Impacto: Relatórios do US-China Economic and Security Review Commission; SIPRI.

12

BYD Company (Automotivo/Energia)

~$ 95 bilhões

$ 85 bilhões

~$ 80 bilhões

570.000

Wang Chuanfu (fundador e CEO, ~18%), Berkshire Hathaway (~8%).

Líder global em veículos elétricos (superou a Tesla em vendas). Verticalmente integrada (baterias a chips). Símbolo da ambição chinesa de dominar a indústria de energia limpa do futuro.

Receita/Valor Mercado: Relatório Anual BYD 2023; Bloomberg. Impacto: Relatórios da IEA sobre EVs; Reuters.

13

Bank of China (BOC) (Financeiro)

~$ 140 bilhões (listada)

$ 110 bilhões

~$ 4 trilhões

310.000

Estado Chinês (majoritário) via Central Huijin (64%).

O banco comercial internacional mais antigo da China. Papel central no internacionalização do Yuan (RMB), com vasta rede global. Facilita o comércio e investimento chinês no exterior.

Ativos/Receita: Relatório Anual BOC 2023. Impacto: Relatórios do BIS (Bank for International Settlements); SWIFT RMB Tracker.

14

COSCO Shipping (Logística/Transporte)

~$ 25 bilhões (listada)

~$ 70 bilhões

~$ 120 bilhões

300.000

Estado Chinês (majoritário) via SASAC e China COSCO Shipping Corporation.

Uma das maiores empresas de transporte marítimo e logística do mundo. Controla portos estratégicos globais (ex.: Pireus, Gwadar). Arteria comercial da China, garantindo rotas de suprimento.

Receita: Fortune Global 500 2023. Impacto: Relatórios do CSIS sobre portos e BRI; Alphaliner.

15

CRRC Corporation (Industria/Transporte)

~$ 20 bilhões (listada)

~$ 35 bilhões

~$ 60 bilhões

180.000

Estado Chinês (majoritário) via SASAC.

Maior fabricante de equipamentos ferroviários do mundo (monopólio virtual na China). Exporta trens de alta velocidade, simbolizando a "diplomacia ferroviária" e a competição com padrões ocidentais e japoneses.

Receita: Relatório Anual CRRC 2023. Impacto: Estudos do World Bank sobre HSR; The Diplomat.

Fonte: Elaboração da Autora com base em diversas fontes citadas na tabela, veja notes [03]. 

Esses dados da tabela 04 mostram uma China com um poder econômico interno colossal e uma crescente projeção internacional, mas que enfrenta desafios relacionados à forma como suas empresas são estruturadas e avaliadas no mercado global. As corporações chinesas, por mais impactantes que sejam, estão longe de adotar o modelo típico de capitalismo global, centrado em grandes corporações privadas que dominam o valor de mercado. O sistema de capitalismo de estado da China, com forte controle estatal e a presença significativa de empresas estatais em setores estratégicos, reflete uma abordagem diferente, onde o poder econômico não está apenas atrelado ao valor de mercado, mas também ao controle dos recursos e da infraestrutura globais. Essa diferença estrutural coloca a China em uma posição única no cenário econômico global, sendo simultaneamente uma potência de influência econômica e uma economia com limitações em termos de acesso aos mercados financeiros internacionais.



A ausência de gigantes chinesas no topo dos rankings globais de valor de mercado revela a tensão entre o modelo econômico chinês e os parâmetros tradicionalmente usados para medir o sucesso no capitalismo global. Empresas como State Grid, ICBC, e Huawei, que dominam setores estratégicos como energia, finanças e tecnologia, apresentam números impressionantes em termos de receita e ativos, mas são subavaliadas no mercado devido a uma série de fatores estruturais. O controle estatal, a restrição de acesso ao mercado global de ações e as intervenções regulatórias do governo chinês criam um ambiente onde essas corporações não se comportam como suas contrapartes ocidentais em termos de valorização de mercado. Embora o capitalismo de estado da China tenha permitido o surgimento de gigantes econômicas, a desconexão entre o poder econômico real e a visibilidade no mercado financeiro global aponta para a necessidade de redefinir as métricas utilizadas para medir o impacto e a influência de uma nação no cenário corporativo global. O futuro da economia chinesa, e o papel de suas corporações no mercado global, dependerá da capacidade de adaptar e navegar entre essas duas realidades distintas.


6. Conclusão: O Comando Global em Quatro Camadas

Após uma análise aprofundada, fica claro que o comando sobre a economia global e, em última instância, sobre a governança mundial, não está mais nas mãos de indivíduos ou entidades isoladas. Ao contrário, ele é sustentado por um complexo de poder que se desdobra em quatro camadas interconectadas, com uma arquitetura sistêmica que combina o poder financeiro, militar, tecnológico e informacional. Esses pilares, que se entrelaçam e se potencializam mutuamente, são os responsáveis pela configuração da ordem mundial contemporânea. O epicentro desse poder está nas entidades localizadas nos Estados Unidos, o verdadeiro centro de controle da ordem global.

O Poder Financeiro-Concentrador – personificado por gestoras de ativos como BlackRock, Vanguard e State Street, que, ao administrar mais de US$ 25 trilhões, funcionam como os grandes alocadores de capital global e acionistas dominantes das corporações-chave. Seu poder é de governança e direcionamento.










1. O Poder Financeiro-Concentrador

Personificado por gestoras de ativos como BlackRock, Vanguard e State Street, que administram mais de US$ 25 trilhões, funcionando como grandes alocadores de capital global e acionistas dominantes das corporações-chave. Sua influência vai além de simples investimentos: elas têm um controle direto sobre a governança das principais empresas, determinando quais setores, países e tecnologias terão acesso ao financiamento necessário para crescer. Ao controlar grandes porções do capital global, as gestoras de ativos configuram a própria estrutura do capitalismo contemporâneo. Wall Street, portanto, emerge como o centro financeiro de um sistema global onde o dinheiro se conecta diretamente ao poder de direcionar os fluxos de recursos em uma escala planetária.

2. O Poder Infraestrutural-Operacional

Exercido pelas megacorporações que dominam setores essenciais da infraestrutura global, como Microsoft, Amazon, Visa, Mastercard, Saudi Aramco, ExxonMobil, TSMC e ASML. Essas empresas controlam as artérias materiais e digitais da economia mundial. Elas são monopólios privados que oferecem serviços essenciais para o funcionamento do sistema econômico global.

  • Microsoft e Amazon dominam a nuvem e os sistemas operacionais que formam a espinha dorsal da economia digital.

  • Visa e Mastercard garantem a circulação global de dinheiro, processando trilhões de dólares em transações financeiras anuais.

  • Saudi Aramco e ExxonMobil são as maiores potências energéticas do planeta, controlando reservas estratégicas e definindo os preços do petróleo no mercado global.

  • TSMC e ASML dominam a fabricação de chips e semicondutores, peças-chave para o avanço da tecnologia digital.

Sem essas infraestruturas críticas, a economia moderna pararia, pois dependemos delas para tudo, desde a comunicação e troca de informações até a produção de bens essenciais.

3. O Poder Político-Militar

Encarnado pelo Estado norte-americano e sua vasta rede de alianças estratégicas, incluindo a OTAN e os aliados no Pacífico, esse pilar assegura a hegemonia geopolítica e a segurança global. O poder dos EUA é sustentado por vários mecanismos:

  • O dólar como moeda de reserva global: 59% das reservas mundiais estão em dólares, e 88% das transações cambiais globais são feitas com a moeda norte-americana.

  • O poder militar dos EUA, que mantém 750 bases militares em 80 países, é a garantia de que os fluxos comerciais e os mercados internacionais permanecerão estáveis e acessíveis.

  • Sanções econômicas: O poder coercitivo final, executado através de instituições como o FMI e o Banco Mundial, permite que os EUA imponham restrições a nações desobedientes, controlando acessos financeiros e comerciais ao sistema global.

  • O controle das instituições internacionais, como o FMI e a ONU, permite que o Estado norte-americano atue como mediador e regulador das normas que estruturam a economia global.

Esse pilar não apenas garante a segurança dos fluxos de comércio global, mas também administra a estrutura jurídica internacional que sustenta os outros dois pilares — financeiro e infraestrutural — permitindo que o sistema global funcione de acordo com os interesses de quem detém o poder.

4. O Poder Informacional-Cognitivo

Este é o pilar mais recente e, talvez, o mais penetrante na governança global. O controle da informação e da percepção pública tem sido gradualmente consolidado pelas Big Techs — Alphabet/Google, Meta, Apple, Microsoft e Amazon. Essas empresas não apenas acessam dados massivos sobre comportamentos, preferências e movimentos de indivíduos ao redor do mundo, mas também controlam as plataformas e os algoritmos que moldam a percepção pública.

  • Google domina a busca online, controlando 92% do mercado global e gerenciando informações sobre bilhões de usuários.

  • Facebook/Meta possui um vasto grafo social de 3 bilhões de pessoas, moldando narrativas e opiniões através de seus algoritmos de feed de notícias.

  • Apple tem o controle de privacidade no ecossistema iOS, determinando como dados de consumo e saúde são compartilhados.

  • Amazon não só domina o comércio digital, mas também controla as infraestruturas de cloud, que armazenam dados corporativos e governamentais essenciais.

Essas Big Techs exercem poder algorítmico de governança silenciosa, decidindo, por meio de suas plataformas e algoritmos, o que é visto, o que é consumido, e como as sociedades se organizam. Elas moldam, de maneira imperceptível, a realidade cultural e social ao selecionar quais informações são prioritárias, filtrando e direcionando conteúdos. O controle dos dados não é apenas uma questão de gestão de informação, mas de controle cognitivo global, que permeia a sociabilidade e percepção pública.

A Dinâmica de Poder: Uma Simbiose Complexa e Interligada
Os quatro pilares de poder — financeiro, tecnológico, estatal e informacional/congnitivo — funcionam em uma simbiose complexa que não apenas reproduz a desigualdade global, mas também garante que o sistema continue a operar de forma a beneficiar um cartel de elites corporativo-estatais. O fluxo de poder é contínuo e circular, sempre convergindo para as entidades localizadas nos Estados Unidos:

  • Gestores de Capital (BlackRock/Vanguard) alocam os recursos necessários para que as megacorporações possam operar e expandir.

  • Big Techs moldam o comportamento humano e as normas culturais, criando boas condições para o consumo e modelando a opinião pública.

  • Estados Hegemônicos (EUA) fornecem a segurança necessária para que esse sistema funcione, usando seu poder militar e político para garantir a estabilidade do sistema.

  • Infraestruturas globais, como o sistema de pagamentos e as plataformas digitais, garantem a continuidade do comércio e da circulação de informações em uma escala mundial.

A China e os Desafios à Ordem Global
A China, com seu capitalismo de estado e modelo de soberania, representa o maior desafio a esse sistema. Embora a China tenha uma capacidade de disrupção significativa — com sua Belt and Road Initiative, seu poder manufatureiro, suas grandes empresas estatais e sua tecnologia avançada (como o 5G da Huawei) — ela ainda não controla os pilares centrais do poder global. O yuan, embora crescente, não rivaliza com o dólar. Seus sistemas de pagamento e plataformas tecnológicas são fortes dentro de seu próprio território, mas não têm o mesmo alcance global das Big Techs e do sistema financeiro dominado pelo dólar. A China está construindo, de fato, um sistema paralelo, mas ainda depende das infraestruturas globais ocidentais para sua integração ao mercado mundial.

O Paradoxo Final: A Ilusão de Soberania Nacional
A realidade que se impõe é a de que, embora os Estados Nacionais ainda sejam os maiores atores políticos e militares, o verdadeiro controle sobre o sistema global está nas mãos de elites corporativo-estatais que funcionam como um cartel global. A soberania nacional, que ainda é defendida por muitas nações, tem sido profundamente corroída pela globalização financeira e pela tecnologização da informação. Mesmo países como a Alemanha e o Brasil, que são potências econômicas regionais, dependem de redes de poder globais — como o sistema bancário dolarizado, as plataformas digitais dominadas pelas Big Techs e a segurança militar dos EUA — para manterem sua autonomia no cenário global.

A disputa, portanto, não é apenas entre Estados-nações, mas entre sistemas de governança — um sistema capitalista-financeirizado operado por Wall Street, Silicon Valley e o Pentágono, e um sistema emergente, representado pela China, que busca alterar as regras do jogo sem, no entanto, ter controle completo sobre os quatro pilares do poder global.

O verdadeiro dono do mundo, portanto, é o sistema corporativo-financeiro global, que é sustentado pela combinação de dinheiro, tecnologia, dados e segurança. No centro desse sistema, estão as elites que se interconectam através de conselhos de administração, lobbying político e conexões pessoais, criando uma rede de poder interligada que atua sem fronteiras geográficas, sem distinção entre interesses corporativos e estatais. E os EUA, com suas megaempresas, seu sistema financeiro e sua potência militar, continuam sendo o epicentro deste poder global.

Este é o verdadeiro condomínio global, e dentro dele, os grandes players como os bancos de Wall Street, as Big Techs de Silicon Valley, e os governos hegemônicos formam uma rede de governança que controla a maioria das decisões-chave do capitalismo global. A China, embora desafiante, ainda está longe de alterar essa arquitetura de poder centralizada e dominada por um cartel global de elites estadunidenses.

Referências

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S&P GLOBAL MARKET INTELLIGENCE. S&P 500 Constituents. 2024. Acesso via plataforma institucional (dados requer assinatura). Dados consolidados disponíveis publicamente em portais financeiros.

U.S. SECURITIES AND EXCHANGE COMMISSION (SEC). EDGAR Company Filings. Disponível em: https://www.sec.gov/edgar/searchedgar/companysearch. Acesso em: abr. 2024.

STATISTA. Market and Consumer Data. 2024. Disponível em: https://www.statista.com/.


Notas

[1] Os dados apresentados nesta tabela foram compilados e validados a partir das seguintes fontes primárias e secundárias, considerando a data de corte de 24 de abril de 2024:

  1. Fonte dos Dados Financeiros e de Emprego: Todos os dados de Receita Anual (2023) e Número de Empregados Globais foram extraídos diretamente dos Relatórios Anuais (Form 10-K) das respectivas empresas, arquivados na base de dados da U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), disponível publicamente em: https://www.sec.gov/edgar/searchedgar/companysearch. Este é o documento regulatório oficial e principal fonte primária para informações financeiras corporativas nos Estados Unidos.

  2. Fonte dos Dados de Valor de Mercado e Ordenação: Os valores de Valor de Mercado (Market Capitalization) utilizados para a ordenação do ranking são referentes ao fechamento do mercado em 24 de abril de 2024. Eles foram consolidados a partir das plataformas de dados financeiros S&P Global Market Intelligence e CompaniesMarketCap.com, que agregam informações em tempo real das bolsas de valores. A ordenação da lista segue estritamente este critério.

  3. Fontes para a Análise de Impacto Estratégico e Geográfico: As descrições sobre abrangência global, influência setorial e relevância geopolítica foram elaboradas com base em uma síntese dos seguintes tipos de fontes secundárias, citadas de forma não exaustiva para cada empresa:

    • Relatórios de Organismos Multilaterais e Governamentais: Publicações da Agência Internacional de Energia (IEA), Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), Banco Mundial, Banco de Compensações Internacionais (BIS), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização Mundial da Saúde (OMS).

    • Relatórios de Think Tanks e Instituições de Pesquisa: Estudos do Council on Foreign Relations (CFR), Brookings Institution, Kaiser Family Foundation (KFF), Information Technology & Innovation Foundation (ITIF) e Synergy Research Group.

    • Relatórios Setoriais e de Inteligência de Mercado: Dados de participação de mercado e tendências da Statista, Gartner, NielsenIQ e comunicados de reguladores como a Comissão Europeia.

    • Comunicados Oficiais e Relatórios Corporativos: Materiais divulgados pelas próprias empresas, como listas de fornecedores, relatórios de sustentabilidade e apresentações para investidores, acessados em seus sites de relações com investidores (investor relations).

  4. Metodologia: A tabela tem como objetivo principal ilustrar a escala e o alcance estratégico das corporações que formam a espinha dorsal do poder econômico americano. A decisão de ranqueá-las por Valor de Mercado reflete a premissa analítica de que este indicador captura não apenas o tamanho atual, mas, sobretudo, a expectativa do mercado financeiro sobre seu poder e domínio futuros—um aspecto central na dinâmica do capitalismo contemporâneo. As descrições de impacto buscam traduzir essa magnitude financeira e operacional em termos de influência econômica concreta e projeção geopolítica.

[2] Dados de empresas não-americanas (*) são aproximados para 2023/2024, com base em relatórios anuais, Reuters, Bloomberg e Financial Times. Dados podem variar com câmbio. Fontes Primárias (EUA): SEC EDGAR (Form 10-K, DEF 14A). Outras: Relatórios anuais das empresas, dados de bolsa locais. Impacto Geopolítico: Síntese baseada em relatórios do CFR, IEA, OMC, OCDE e análises setoriais.

  • Padrões Globais Revelados:

    • Hegemonia Americana: 21 das 30 empresas são dos EUA, dominando os setores de Tecnologia, Saúde e Finanças.

    • Ativos Geoestratégicos: Aramco (petróleo), TSMC e ASML (chips) são monopólios nacionais com implicações de segurança global.

    • Modelos de Controle: EUA (capital institucional + fundadores), Europa (famílias, fundações), Ásia (famílias, estado, keiretsu).

    • Setores Críticos: Tecnologia (11), Saúde (5), Finanças (4), Energia (3), Varejo/Consumo (3), Automotivo (2), Conglomerados (2).

[3] Notas Metodológicas e de Contexto:

  • Valor de Mercado: Refere-se à avaliação de mercado para empresas listadas em bolsa (ex.: Tencent, ICBC). Empresas estatais puramente controladas (State Grid, CNPC) não têm avaliação pública de mercado.

  • Controle Estatal: Todas as empresas listadas, mesmo as de tecnologia, operam sob o arcabouço do "Capitalismo de Estado com Características Chinesas", onde o Partido Comunista Chinês (PCC) exerce supervisão política e influência estratégica direta ou indireta.

  • Fontes: Foram utilizados relatórios anuais oficiais das empresas (2023), rankings como a Fortune Global 500, dados de bolsas de valores (HKEX, SSE) e análises de think tanks e instituições internacionais especializadas (CSIS, IEA, MERICS).




Como citar este ensaio:

CASTRO, Vanessa Maria de. Os Donos do Poder Global: A Geopolítica e a Nova Arquitetura Estado-Corporações. Blog Palavra em Transe. Brasília, janeiro de 2026. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2026/01/os-donos-do-poder-global-geopolitica-e.html



Autora 

Sou Vanessa Maria de Castro, professora da Universidade de Brasília (UnB), psicanalista e pesquisadora, com uma trajetória voltada à análise crítica das dinâmicas políticas e sociais, com ênfase nas suas repercussões para a democracia e os direitos humanos. A série Cadernos de Estudos é um espaço de reflexão pessoal e acadêmica, onde me dedico a investigar questões que me interessam no momento. Cada caderno é uma exploração, muitas vezes, sobre temas como o poder econômico global e as suas interconexões com a geopolítica e os direitos humanos. Este ensaio, em particular, é um desdobramento dessa série, na qual busco compreender as forças que moldam o mundo contemporâneo e refletir sobre os desafios éticos e políticos que surgem neste cenário. A série, portanto, é uma forma de construir e articular saberes, interligando teoria e prática, e buscando entender melhor o mundo ao nosso redor a partir de uma perspectiva crítica e reflexiva. Neste ensaio, busquei abordar as dinâmicas de poder que moldam a economia global, explorando não apenas as corporações e os Estados, mas também os dados e as informações que controlam a nossa percepção e interação com o mundo. A série de "Cadernos de Estudo" reflete minha busca contínua por entender os processos que organizam as estruturas de poder e como isso se desdobra nas questões sociais, políticas e de direitos humanos. Este ensaio faz parte dessa trajetória de investigação, onde me proponho a analisar criticamente e conectar esses elementos aparentemente dispersos para construir uma visão mais ampla do cenário geopolítico atual.


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