Venezuela Sob Ataque: A Guerra e a Distopia Imposta pelos Estados Unidos à América Latina
Venezuela Sob Ataque: A Guerra e a Distopia Imposta pelos Estados Unidos à América Latina
Vanessa Maria de Castro
Brasília, 3 de janeiro de 2026
A Venezuela amanhece sob ataque dos Estados Unidos, autorizado por Donald Trump. As imagens que circulam instauram uma sensação nítida de distopia: aquilo que por décadas parece impensável no continente americano reaparece como realidade concreta. Trata-se de um ataque imposto por uma potência militar a um país soberano da América Latina, configurando uma declaração de guerra no continente americano, em 3 de janeiro de 2026.
A distopia se manifesta quando a força militar substitui o direito, quando a soberania se torna descartável e quando a vida de um povo passa a ser submetida a cálculos estratégicos globais. Uma guerra pode até ter seu início identificado, mas nunca se sabe como ela termina. Seus efeitos atravessam o tempo, atingem gerações, destroem infraestruturas, desorganizam o tecido social e deixam marcas profundas na vida cotidiana. A gravidade de inaugurar um ataque dessa natureza no continente americano não pode ser minimizada.
A gravidade de uma guerra em terras latino-americanas não pode ser subestimada. Ela rompe um pacto histórico construído após décadas de intervenções, ditaduras e conflitos impostos ao continente, reativando uma lógica de violência que se acreditava superada. Quando a guerra retorna à América Latina, ela não diz respeito apenas ao país diretamente atacado, mas reverbera no cenário global e atinge o plano local de forma profunda: desorganiza economias, fragiliza democracias, desloca populações e reabre feridas históricas ainda não cicatrizadas. O que está em jogo não é apenas um território específico, mas a estabilidade regional, o direito internacional e a própria ideia de soberania em um mundo cada vez mais marcado pela imposição da força sobre o diálogo.
Para compreender por que a Venezuela é alvo, é necessário situá-la no tempo histórico e no mapa geopolítico. O país ocupa posição estratégica central no sistema energético mundial. Detém uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta e possui importantes jazidas de terras raras, recursos essenciais para a indústria tecnológica, energética e militar contemporânea. Ao longo de sua história recente, a Venezuela tem sido submetida a sanções econômicas, bloqueios, tentativas de isolamento diplomático e processos de desestabilização política que impactaram profundamente sua vida social e institucional.
No meu ponto de vista, embora o governo de Maduro não seja um modelo democrático exemplar e tenha suas contradições, autoritarismos e limitações, isso não pode justificar uma agressão externa. Sou uma defensora radical da democracia, pois, mesmo com todas as suas falhas, ela é o único sistema que, embora não garanta que a voz do povo seja ouvida como algo absoluto, ao menos permite que essa voz se manifeste. Ela oferece o espaço para que a luta por direitos, justiça social e liberdade aconteça, ainda que de forma imperfeita. A democracia, com todas as suas limitações, é o único sistema que permite a disputa e a construção de um futuro mais justo, onde se abre, ao menos, a oportunidade para que os povos participem e busquem soluções. As respostas para os problemas internos de um país devem sempre ser políticas e internas, nunca impostas pela violência ou pela intervenção externa. A guerra não pode ser a solução para resolver questões democráticas.
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela se inscreve de forma explícita na lógica das disputas globais por recursos estratégicos. O território passa a ser tratado como ativo; a soberania, como obstáculo; e a autodeterminação dos povos, como inconveniente. A guerra, nesse contexto, não é resposta, mas instrumento de imposição de poder.
Para justificar essa ofensiva, o governo Trump mobiliza o discurso do combate ao narcotráfico. Trata-se de um argumento profundamente contraditório e grave do ponto de vista narrativo e político. As drogas que chegam aos Estados Unidos atravessam suas próprias fronteiras e circulam por redes internas de consumo, distribuição e lucro. Se o problema fosse, de fato, o narcotráfico, a resposta lógica estaria na proteção do próprio território estadunidense e no enfrentamento de suas estruturas internas. Utilizar esse discurso para atacar um país que concentra enormes reservas de petróleo e terras raras revela uma gramática de guerra já conhecida: fabricar ameaças morais para encobrir interesses econômicos e estratégicos.
O mais alarmante é a naturalização desse ataque no cenário internacional. A violência passa a ser apresentada como solução política, e a força militar substitui a diplomacia. O ano de 2026 se anuncia sob o signo da intensificação das guerras, e o continente americano entra em um período de alerta extremo.
O Brasil, sendo um dos poucos países que ainda se situam no campo da centro-esquerda, com compromissos — ainda que tensionados — com soberania, políticas sociais e alguma autonomia diplomática, ocupa uma posição sensível nesse cenário. Em contextos de ofensivas militares e reorganização violenta do poder global, países que não se alinham automaticamente aos interesses das grandes potências tornam-se alvos potenciais de pressão, desestabilização e isolamento.
Diante disso, a posição ética é clara. Toda a solidariedade ao povo venezuelano. Que seja um povo livre — livre de autoritarismos internos, livre de opressões externas, livre da violência imposta por interesses econômicos e militares. Defender a Venezuela hoje não é defender um governo, mas afirmar um princípio fundamental: nenhum país tem o direito de atacar outro para controlar suas riquezas, seu território e seu destino.
A distopia que se impõe sobre a Venezuela é um alerta severo para todo o continente. Ignorá-la é aceitar que a guerra volte a organizar o mundo.
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Citar:
CASTRO, Vanessa Maria de. Venezuela sob ataque: distopia, recursos e a guerra imposta pelos Estados Unidos. Brasília, 3 jan. 2026. Blog Palavra em Transe. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2026/01/venezuela-sob-ataque-guerra-e-distopia.html Acesso em: 3 jan. 2026.
Autora
Vanessa Maria de Castro é professora da Universidade de Brasília (UnB). Atua nas áreas de direitos humanos, democracia e teoria crítica. Escreve a partir de um compromisso com a soberania dos países, a crítica às formas contemporâneas de dominação política e econômica e a defesa do tecido democrático no Sul Global.
Bem dito! Desconstrução da narrativa imperialista
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