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Do inferno ao purgatório: a esquerda brasileira perdeu a disputa das narrativas nas redes sociais

 


Cadernos de Estudo

Do inferno ao purgatório: a esquerda brasileira perdeu a disputa das narrativas nas redes sociais


A política contemporânea não se organiza apenas pelos fatos. Ela se estrutura pela disputa de narrativas, pela circulação de imagens e pela capacidade de sustentar simbolicamente a gravidade dos acontecimentos na memória coletiva. Talvez um dos maiores problemas da esquerda brasileira hoje seja justamente sua incapacidade de compreender a profundidade dessa transformação.

O problema torna-se ainda mais grave porque a esquerda frequentemente reage às grandes crises políticas pela chave da banalização estética. Em vez de sustentar criticamente a dimensão ética e institucional dos acontecimentos, transforma denúncias gravíssimas em conteúdo leve, compartilhável e emocionalmente diluído.

O resultado é devastador: a própria crítica ajuda a dissolver a permanência simbólica da indignação coletiva. O escândalo deixa rapidamente de produzir choque social e passa a circular apenas como mais um episódio consumível no fluxo acelerado das redes sociais.

Há poucos meses, Flávio Bolsonaro afirmava publicamente que não conhecia Daniel Vorcaro. Paralelamente, setores bolsonaristas tentavam deslocar para o governo Lula a responsabilidade pela crise envolvendo o Banco Master. A narrativa construída era evidente: associar o escândalo ao atual governo e afastar qualquer proximidade da família Bolsonaro com os personagens centrais da crise.

Então surge um vídeo devastador no dia 13 de maio: uma ligação de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro cobrando transferência de dinheiro. Um diálogo envolvendo um acordo milionário relacionado à produção de um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro.

Não se trata de um detalhe banal. Não se trata de mera fofoca política. Estamos diante de um possível escândalo gravíssimo envolvendo poder econômico, influência política e relações financeiras obscuras com um banqueiro associado a um dos maiores colapsos financeiros recentes do país.

E estamos falando de uma figura política que aparece nas pesquisas eleitorais como possível candidata à presidência da República, disputando espaço competitivo no cenário nacional. Isso não é pouca coisa. Trata-se de alguém que pretende governar o Brasil.

E como parte da esquerda reagiu nas redes sociais?

Com montagens românticas. Musiquinhas afetivas. Jingles. Memes de casal.
Fotografias de beijo entre personagens políticos. Vídeos editados como se estivéssemos diante de uma comédia romântica digital. "I love you". Estética de TikTok. Humor leve. Ironia infantilizada.

O mesmo aconteceu em outros episódios recentes: montagens entre Lula e Trump, memes afetivos envolvendo adversários políticos, vídeos cômicos diante de situações institucionalmente gravíssimas. Um certo adoçamento imagético de Donald Trump, figura de extrema direita e profundamente autoritária, apenas porque conversou algumas horas com Lula.

Voltamos a Flávio Bolsonaro. Na semana anterior, foi Ciro Nogueira. O assunto rapidamente desapareceu das redes sociais da esquerda. Como se a própria capacidade de sustentar a gravidade política dos acontecimentos evaporasse em poucos dias.

E a esquerda responde com estética de fandom. Como uma criança diante do absurdo, ela ri.

A pergunta central é simples: como uma denúncia dessa dimensão é convertida em entretenimento digital? · · ·

Guy Debord (1997) já afirmava que a sociedade contemporânea transforma tudo em espetáculo. O espetáculo não elimina os fatos; ele reorganiza emocionalmente a forma como os fatos são percebidos. A política deixa de operar pela elaboração crítica da realidade e passa a funcionar como fluxo contínuo de imagens consumíveis. 

Jean Baudrillard (1991) também antecipava que as imagens deixam de representar os acontecimentos e passam a substituir os próprios acontecimentos. O escândalo político perde densidade porque rapidamente é absorvido pela estética acelerada das plataformas digitais.


Mas talvez seja Hannah Hannah Arendt quem mais ajude a compreender a dimensão política desse problema. Ela alertava que uma das formas mais perigosas de destruição da esfera pública ocorre quando desaparece a capacidade coletiva de distinguir gravidade, verdade factual e responsabilidade política. Em sua reflexão sobre a mentira na política, Arendt demonstra que sociedades submetidas ao excesso de imagens, manipulações discursivas e fragmentação permanente da realidade acabam perdendo a estabilidade necessária para julgar criticamente os acontecimentos (ARENDT, 2016).

Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro (2016)

O problema é que a extrema direita compreendeu esse mecanismo. Não porque esteja preocupada com ética, moralidade pública ou bem-estar coletivo. Não está. A extrema direita opera pela eficácia narrativa. Trabalha repetição simbólica, reorganização emocional da base, vitimização estratégica e reconstrução permanente da imagem pública. Ela sabe sustentar narrativas mesmo diante de crises gravíssimas.

A esquerda, por outro lado, afirma defender ética, justiça social, democracia e responsabilidade pública. Mas, paradoxalmente, frequentemente reage às crises políticas mais graves nas narrativas nas redes sociais com infantilização estética, humor superficial e ironia esvaziada. Age como se a gravidade dos fatos pudesse ser dissolvida em brincadeiras digitais.

E isso produz um efeito político devastador.

Flávio Bolsonaro deveria hoje ocupar o centro de uma crise ética contínua, sustentada e permanente. A denúncia deveria produzir indignação prolongada, aprofundamento crítico, elaboração pública e desgaste narrativo consistente.

Mas não.

Em menos de vinte e quatro horas, já se inicia o movimento de reorganização simbólica da crise. E talvez Dante Alighieri ajude a compreender essa travessia contemporânea. Ontem, Flávio Bolsonaro parecia descer ao inferno político. Hoje, graças à velocidade da dissipação narrativa e à incapacidade da esquerda de sustentar criticamente a gravidade do acontecimento, já inicia sua subida ao purgatório algorítmico da relativização pública.

Amanhã, talvez reapareça novamente purificado para parte significativa da opinião pública digital.· · ·

Michel Foucault (1979) demonstrava que o poder moderno não opera apenas pela repressão, mas pela administração dos discursos, dos afetos e das formas de visibilidade. As redes sociais aceleraram brutalmente esse mecanismo. Nenhuma crise permanece tempo suficiente para sedimentar memória política duradoura quando tudo é convertido em espetáculo compartilhável.

Penso que talvez exista também uma dimensão psicanalítica nesse processo. Sigmund Freud (1905) já demonstrava que o sujeito frequentemente recorre ao humor, ao deslocamento e à banalização como formas de defesa diante daquilo que produz angústia excessiva. Jacques Lacan (1985), por sua vez, compreendia o Real como aquilo que rompe a fantasia confortável e confronta o sujeito com algo traumático, insuportável ou impossível de simbolizar plenamente.

Assim parte da esquerda tenha enorme dificuldade de sustentar contato prolongado com o absurdo político contemporâneo. O nível de corrupção, violência simbólica, degradação institucional e brutalidade econômica é tão intenso que a resposta frequentemente aparece pela via da infantilização estética da crítica. O horror é rapidamente convertido em meme, música romântica, ironia leve, montagem afetiva e entretenimento compartilhável. Como se o psiquismo coletivo precisasse adoçar a violência do acontecimento para conseguir suportá-lo.

Diante do insuportável, ri-se.

Mas o problema político é justamente este: quando tudo vira meme, nada permanece tempo suficiente para produzir elaboração crítica duradoura. O escândalo perde densidade ética. A indignação desaparece rapidamente. A memória política se dissolve. E então até os acontecimentos mais graves começam a circular apenas como mais um episódio passageiro do entretenimento digital.

Quem sabe seja exatamente aí que a esquerda esteja perdendo a disputa contemporânea das narrativas.

E a pergunta mais séria seja esta: por que parte da esquerda, que afirma defender ética, democracia, direitos humanos e responsabilidade pública, demonstra tamanha dificuldade de sustentar simbolicamente o horror político sem imediatamente transformá-lo em entretenimento? O que acontece com uma cultura política quando ela já não consegue mais permanecer diante do absurdo e precisa convertê-lo rapidamente em meme para suportar a própria realidade?

A consequência é grave. A esquerda perde a disputa da narrativa. Perde a capacidade de organizar simbolicamente os fatos. Perde permanência crítica. E sem permanência crítica, até os escândalos mais graves rapidamente deixam de produzir efeito político.

Narrativa não é meme.
Narrativa é memória.
Narrativa é permanência.
Narrativa é capacidade de sustentar socialmente a gravidade da realidade.

Hoje, infelizmente, a extrema direita compreende isso muito melhor.

Referências

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. São Paulo: Editora 34, 1998.

ARENDT, Hannah. Verdade e política. In: ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2016.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 1905.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Como citar
CASTRO, Vanessa Maria de. Do inferno ao purgatório: a esquerda brasileira perdeu a disputa das narrativas nas redes sociais. Palavra em Transe, Brasília, maio. 2026. (Série: Cadernos de Estudo). Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2026/05/do-inferno-ao-purgatorio-esquerda.html

Autora

Vanessa Maria de Castro

Professora da Universidade de Brasília (UnB), psicanalista. Desenvolve pesquisas sobre extrema-direita, sofrimento político, financeirização da vida, sociedade da aparência e os impactos das redes sociais sobre a democracia e os direitos humanos. Seus estudos buscam compreender como o sofrimento social contemporâneo é capturado e reorganizado politicamente por meio das narrativas, das imagens e dos afetos que circulam nas plataformas digitais.

Este ensaio integra a série Cadernos de Estudo, espaço de reflexão crítica dedicado à análise das dinâmicas contemporâneas de poder, subjetividade, política e violência simbólica.

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