Os Retratos da Ausência


 

Os Retratos da

Ausência



Vanessa Maria de Castro

Brasília, maio de 2026



Em um dia qualquer, ao folhear antigos álbuns de retratos guardados dentro de caixas de fotografias, entre imagens soltas, cartas amareladas, pequenos objetos esquecidos pelo tempo e arquivos digitais espalhados entre computadores e celulares, algo silenciosamente se transforma. Os rostos começam a reaparecer diante de nós.

Certas fotografias devolvem pessoas em tempos que já não existem mais: sorrisos intactos, corpos jovens, gestos esquecidos, almoços de domingo, viagens, aniversários e pequenas cenas banais da vida cotidiana que o tempo levou sem pedir licença. Outras imagens guardam pessoas que já partiram e que agora sobrevivem apenas naquele delicado encontro entre memória, luz e afeto.

E então emerge uma das experiências mais radicais da condição humana: perceber que a morte interrompe a presença concreta, os encontros, as vozes e a convivência cotidiana, mas não consegue interromper inteiramente o amor.

A fotografia revela então sua dimensão mais melancólica e também mais humana: ela preserva presenças que o tempo já levou da vida concreta. Como sugeria Walter Benjamin, os vestígios do passado continuam cintilando nos fragmentos da memória, nos objetos, nas imagens e nas pequenas ruínas do cotidiano, como se aquilo que foi vivido recusasse desaparecer completamente.

Existe um instante muito particular da vida em que antigos retratos deixam de ser apenas fotografias. Diante de álbuns esquecidos, caixas antigas, celulares, computadores e arquivos digitais, algo silenciosamente se transforma: os rostos passam a revelar o tempo. Pessoas que um dia ocuparam a vida cotidiana agora aparecem suspensas dentro das imagens. Algumas envelheceram. Outras morreram. Outras simplesmente deixaram de existir na convivência concreta dos dias.

E então surge uma das experiências mais radicais da condição humana: perceber que a fotografia conserva presenças que o tempo já levou.

A palavra “retrato” possui algo de humano e delicado. Talvez porque exista nela uma delicadeza antiga. A palavra vem do latim retractus, ligada ao verbo retrahere, que significa “trazer de volta”, “fazer reaparecer”, “produzir uma presença”. Há algo bonito nisso, porque o retrato parece realizar exatamente esse gesto humano de tentar conservar alguém contra a passagem do tempo, como se fosse possível suspender por um instante a perda inevitável das coisas e das pessoas.

Já a palavra “fotografia” vem do grego: phôs (luz) e graphia (escrita, registro). Fotografia significa literalmente “escrita da luz”. É a luz que toca os rostos, os corpos e os instantes, deixando inscrita a existência daquele momento vivido. Talvez por isso as fotografias produzam um efeito tão singular: elas não apenas mostram alguém, mas testemunham que aquela presença esteve ali, diante do mundo e da luz, em um determinado instante da vida.

As fotografias possuem algo de mágico, belo e também melancólico. A captura de um olhar suspende o tempo. Transforma instantes comuns em permanência simbólica, deixando eternizado na imagem aquilo que a vida não conseguiria manter intacto. Um sorriso distraído, uma lágrima, um almoço de domingo, um abraço apertado e apressado, um olhar perdido ao fundo da fotografia passam a carregar uma densidade afetiva que talvez ninguém percebesse no instante exato em que a imagem foi feita. A fotografia, muitas vezes, só revela plenamente o valor de um instante depois que ele já passou. É o tempo que transforma cenas aparentemente comuns em memória, saudade e permanência afetiva.

Talvez exista aí a beleza dos retratos: conservar afetos, gestos e pequenos fragmentos da vida que continuam existindo porque foram inscritos naquela imagem e permanecem vivos na memória de quem os vê. Há, então, um instante silencioso de reconhecimento: aquele olhar continua familiar, mesmo atravessado pelo tempo, pela ausência, pela distância e, em muitos casos, pelo nunca mais.

Os registros parecem precisar produzir algum sentido para quem os contempla. Talvez seja justamente isso que lhes ofereça permanência. Quando ninguém mais reconhece aquele rosto, aquele olhar, aquele gesto ou aquela história, a própria fotografia também começa lentamente a perder sua inscrição afetiva no mundo. E talvez essa seja uma das formas mais humanas da memória: ela permanece viva enquanto ainda existe alguém capaz de reconhecer, no retrato, a presença de uma vida, mesmo que essa presença já não esteja concretamente entre nós.

Talvez a morte absoluta só exista quando desaparece também o último vestígio de reconhecimento, quando já não resta ninguém capaz de lembrar aquele nome, aquele rosto, aquela história ou aquele afeto. Aos poucos, deixamos de existir como memória, como narrativa e como presença emocional na vida das pessoas. Passamos a ser apenas mais um rosto entre fotografias antigas, até que os retratos sejam guardados em caixas esquecidas, queimados, apagados ou, como acontece tantas vezes no presente, simplesmente deletados.

O adeus raramente se anuncia. Talvez essa seja uma das delicadezas mais dolorosas da vida. Ele permanece escondido em uma fotografia qualquer de um dia banal ou trivial, como tantos outros. Um almoço simples, uma visita rápida, um sorriso distraído, alguém encostado ao fundo da cena sem perceber que aquela imagem carregará, no futuro, a última e derradeira presença daquele rosto entre os vivos. Ninguém sabe, no instante do retrato, que ali já existe uma despedida silenciosa inscrita pela luz.

E talvez exista algo ainda mais melancólico nisso: o adeus permanece registrado e, muitas vezes, emoldurado. Fica suspenso na parede, nos álbuns, nas gavetas, nos arquivos digitais e na memória afetiva de quem permaneceu. Somente depois o tempo revela que aquela fotografia guardava aquilo que ainda não podia ser dito: o início do nunca mais.

Em algum momento — e talvez exista algo de humano no fato de nunca sabermos exatamente quando uma presença se tornará apenas lembrança — surge uma ausência no álbum de família. E ela não acontece sem dor. Há um dia em que percebemos que determinado rosto não aparecerá mais nas próximas fotografias. Já não estará no almoço de domingo, no aniversário, no casamento, nas viagens, no batizado, no Natal, na mesa posta ou nos pequenos improvisos cotidianos da vida. A última fotografia já foi tirada, embora ninguém soubesse disso naquele instante.

Existe algo de radical nisso. A vida continua a produzir novos retratos, novas imagens, novos encontros e novas presenças, enquanto algumas pessoas permanecem eternizadas apenas nas fotografias antigas e na memória daqueles que ainda reconhecem seus rostos, seus gestos, suas vozes e seus afetos. Como se parte delas continuasse a existir naquele delicado espaço entre a imagem, a lembrança e o amor de quem permaneceu.

Sigmund Freud, em O mal-estar na civilização, descreveu o desamparo — a Hilflosigkeit — como a condição mais originária do ser humano: o estado de absoluta dependência e vulnerabilidade com o qual chegamos ao mundo, anterior a qualquer linguagem ou consciência. É a presença materna que responde, primeiro e mais radicalmente, a esse desamparo. A mãe não é apenas a primeira pessoa que amamos — ela é o primeiro abrigo contra a brutalidade de existir.

Jacques Lacan, relendo Freud em seu Seminário 4 — A relação de objeto, mostrou que a mãe constitui o sujeito precisamente por sua alternância entre presença e ausência. É a falta que inaugura o desejo. É o intervalo entre o aparecer e o desaparecer que funda a vida psíquica. A mãe é, portanto, a primeira e mais radical experiência humana de presença — e de ausência.

Talvez por isso a ausência da mãe nos álbuns de família produza uma dor tão singular e tão difícil de nomear. Porque não se trata apenas da perda de uma pessoa. Trata-se do desaparecimento daquele que foi o primeiro e mais permanente abrigo contra o desamparo do mundo. O que emerge silenciosamente, diante daquelas fotografias, é algo muito anterior à saudade: é o reconhecimento de um abandono e de uma solidão que nenhuma outra ausência produz da mesma maneira.

A última fotografia da mãe passa a ser, para muitos filhos e filhas, a mais celebrada, a mais guardada, a mais revisitada em silêncio. Nela ainda existe, intacta, uma presença que o tempo retirou da convivência cotidiana, mas que o amor — e talvez também aquela necessidade humana mais primária de ser acolhida — ainda se recusa a abandonar.

E as fotografias passam então a carregar algo muito singular: nelas permanecem o sorriso, o gesto, o olhar e a forma única de alguém existir no mundo, mesmo depois de já não ocupar o espaço concreto da vida cotidiana. Talvez seja justamente isso que torne os álbuns de família tão humanos: eles recordam que a existência é atravessada pela passagem do tempo, pelas ausências inevitáveis e pela permanência do amor dentro da memória.

Há algo de tocante e doloroso nisso: quase ninguém imagina, ao posar para uma fotografia, que aquela poderá ser sua última imagem registrada no mundo. Ninguém sabe que aquele almoço simples de domingo será o último compartilhado, que aquele abraço apressado permanecerá como despedida involuntária, que aquele sorriso distraído capturado pela câmera sobreviverá à própria presença de quem sorriu.

Talvez por isso exista tanta melancolia quando as famílias revisitam antigos retratos. Em algum momento, alguém sempre sussurra: “essa foi sua última fotografia”, “esse foi seu último almoço”, “essa foi a última viagem”. E então a imagem muda completamente de lugar dentro da memória. O que antes parecia apenas um instante banal da vida cotidiana passa a carregar uma densidade quase insuportável de ausência, amor e permanência.

A fotografia, naquele instante, deixa de ser apenas registro. Ela se transforma em vestígio, em relíquia afetiva, em uma tentativa delicada e impossível de manter alguém ainda presente diante da violência silenciosa do tempo.

As pessoas sorriem para o retrato porque estão vivendo. E talvez seja exatamente essa simplicidade, tão humana e despretensiosa, que torne as imagens tão belas depois. O sorriso não sabe que um dia será lembrança. O olhar não imagina que, no futuro, alguém irá deter-se diante daquela fotografia tentando recuperar, ainda que por um instante, a presença de quem já partiu.

A morte produz uma ruptura real. A pessoa deixa de compartilhar conosco a experiência concreta do tempo. Não verá os próximos aniversários, as novas viagens, os filhos crescendo, os netos chegando, os encontros futuros ou os pequenos acontecimentos do cotidiano. Existe uma dor silenciosa nessa percepção, porque amar também significa desejar continuar dividindo a vida.

Mas o amor não desaparece. Ele permanece inscrito nos gestos, na memória, nos objetos, nas histórias repetidas pelas famílias e, muitas vezes, nas próprias fotografias. Talvez por isso certos retratos provoquem uma emoção tão intensa: eles carregam a marca delicada de uma presença que o tempo retirou da convivência cotidiana, mas que o afeto ainda se recusa a abandonar.

Talvez o amor seja justamente uma das poucas experiências humanas que não obedecem completamente ao tempo cronológico. Ele permanece. Continua habitando os gestos, os hábitos, as lembranças, as frases repetidas sem perceber, os gostos herdados, os modos de cuidar, as músicas, as receitas, as formas de rir e até os silêncios.

Por isso tantas pessoas guardam a última mensagem de áudio e a escutam incontáveis vezes, quase como uma tentativa impossível de manter viva uma voz que a morte interrompeu, mas que o amor ainda se recusa a abandonar. Guardam também uma fotografia antiga, um bilhete, uma peça de roupa, uma carta ou um objeto aparentemente banal. Não se trata apenas de saudade. Trata-se da tentativa humana de preservar a experiência de ter amado e de ter sido amado. Como se certos objetos ainda conseguissem conter fragmentos da presença de alguém que o tempo retirou da convivência cotidiana, mas não conseguiu retirar inteiramente da vida afetiva.

E talvez seja por isso que datas como o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Natal e os aniversários atravessem tantas dimensões da existência. São datas que reorganizam a memória afetiva, porque tornam mais visíveis as presenças e também as ausências.

Quando a mãe já não aparece mais nas fotografias da família, algo se desloca dentro de nós de uma forma que dificilmente se consegue nomear. A última fotografia dela passa a ser, para muitos filhos e filhas, a mais celebrada, a mais guardada, a mais revisitada. Não por acaso — mas porque nela ainda existe, intacta, uma presença que o tempo retirou da convivência cotidiana, mas que o amor ainda se recusa a abandonar.

Talvez a memória seja justamente isso: não uma recusa da ausência, mas a capacidade humana de continuar oferecendo presença simbólica àquilo que marcou nossa existência.

Talvez seja justamente por isso que a filosofia tenha percebido na fotografia algo muito maior do que um simples registro técnico da realidade. Roland Barthes, em A Câmara Clara, escreveu que toda fotografia carrega silenciosamente a afirmação de que “isso foi”. A imagem testemunha que alguém realmente esteve diante da luz, do mundo e da vida em um instante que jamais poderá retornar da mesma forma. Já Walter Benjamin percebia nos retratos, nos vestígios e nas imagens uma tentativa humana de resistir ao desaparecimento absoluto, como se a memória ainda pudesse oferecer alguma permanência àquilo que o tempo inevitavelmente leva.

Seja de alguém vivo ou de alguém que já morreu, toda fotografia fala sempre de um tempo passado que não retorna em hipótese alguma. Existe algo de radical nesse congelamento do instante. A beleza talvez esteja justamente aí: a fotografia preserva aquilo que a vida já começou a perder no exato momento em que a imagem foi produzida.

Com o passar dos anos, as fotografias revelam algo ainda mais brutal: já não somos os mesmos. O rosto muda, os corpos envelhecem, as pessoas desaparecem, os lugares se transformam, os afetos se reorganizam. A fotografia deixa então de ser apenas lembrança e passa a ser também evidência da ação contínua do tempo sobre todas as coisas.

E talvez exista uma pergunta silenciosa que acompanha todos os retratos sem que ninguém perceba no instante do clique: qual será nossa última fotografia? Em muitas famílias existe aquela imagem que, somente depois, passa a ser reconhecida como “a última foto”. O último sorriso, o último almoço, a última viagem, o último Natal, a última presença diante da câmera e da vida compartilhada.

Depois disso, resta a fotografia. E dentro dela permanece, em silêncio, aquilo que o tempo não conseguiu apagar inteiramente, o amor.


E talvez exista uma beleza muito própria nisso.

No fundo, talvez fotografar sempre tenha sido uma tentativa humana de enfrentar o esquecimento. Uma maneira delicada de dizer ao tempo que algumas vidas, alguns amorese algumas presenças merecem permanecer um pouco mais entre nós.



REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

BENJAMIN, Walter. Pequena história da fotografia. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 91-107.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-1957). Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.


Como citar

CASTRO, Vanessa Maria de. Os Retratos da Ausência. Brasília, Blog Palavra em Transe, maio de 2026. https://palavraemtranse.blogspot.com/2026/05/os-retratos-da-ausencia.html


Sobre a autora

Vanessa Maria de Castro, neste ensaio, articula fotografia, memória, psicanálise e filosofia para refletir sobre a passagem do tempo, a ausência e a permanência do amor diante da perda. A partir de retratos de família, arquivos afetivos, mensagens, objetos cotidianos e imagens atravessadas pelo tempo, o texto investiga como a fotografia preserva vestígios da existência humana e transforma lembranças em uma delicada resistência ao esquecimento.


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