Quando um homem grita com uma mulher: a contrariedade, o poder e a violência no ambiente de trabalho

 

Quando um homem grita com uma mulher: a contrariedade, o poder e a violência no ambiente de trabalho

Vanessa Maria de Castro

Brasília,  julho de 2026

"Hoje, um homem gritou comigo no ambiente de trabalho".

Esta frase não descreve apenas um desentendimento entre colegas. Divergências pertencem à vida profissional, acadêmica e institucional. Pessoas que trabalham juntas podem discordar de decisões, procedimentos, interpretações e caminhos. A discordância faz parte da convivência democrática. O grito, não. O grito começa precisamente quando alguém abandona a palavra como instrumento de elaboração e passa a utilizar a voz como força de intimidação. 

Ontem, um homem gritou comigo ao telefone em uma relação de trabalho. Não havia testemunhas, mas a ausência de testemunhas não torna a cena menos violenta. O grito rompe o limite da palavra e invade o outro pela força da voz: intimida, constrange, desorganiza e procura impor uma posição de poder. A ligação terminou, mas a violência não terminou com ela. O grito permaneceu reverberando em mim, não como uma dúvida sobre o que aconteceu, mas como aquilo que ele foi: uma violência.

Permaneceu na aceleração dos batimentos, na respiração desorganizada, na tensão dos músculos, no cansaço que chegou depois e na impossibilidade de simplesmente retomar o dia como se nada tivesse acontecido. Meu corpo inteiro adoeceu. Há acontecimentos que duram poucos minutos no relógio e muitas horas dentro de nós. O corpo não conhece a falsa simplicidade com que uma agressão pode ser posteriormente narrada: “foi apenas uma discussão”, “ele estava nervoso”, “falou mais alto” ou “perdeu a cabeça”. Para quem grita, talvez o episódio termine quando sua voz se cala. Para quem recebe o grito, é no silêncio posterior que o acontecimento começa a se inscrever.

O grito como gesto de poder

Um grito não é apenas um som emitido em volume elevado. Ele é também um gesto de poder.

Quem grita procura aumentar o próprio tamanho e reduzir a presença da pessoa que está diante dele. Ocupa o espaço sonoro, interrompe a fala, quebra a continuidade do pensamento e invade o corpo de quem recebe aquela voz. O grito não procura construir um argumento. Pretende vencer sem precisar apresentar uma razão. Sua função é intimidar, desorganizar e produzir o recuo da outra pessoa.

Por isso, a pergunta não pode ser apenas: por que aquele homem ficou nervoso? O nervosismo pertence a quem o sente e não constitui autorização para agredir. A pergunta mais profunda é outra: o que faz um homem acreditar que pode gritar com uma mulher quando é contrariado?

A contrariedade, muitas vezes, revela aquilo que a cordialidade escondia.

É relativamente fácil respeitar uma mulher enquanto ela concorda, acolhe, facilita, explica, cuida e não interrompe o percurso do desejo masculino. O reconhecimento de sua autonomia é verdadeiramente colocado à prova quando ela diz não, estabelece um limite, sustenta uma decisão ou recusa a posição que lhe foi reservada. Nesse instante, o homem não se encontra apenas diante de uma opinião diferente. Encontra-se diante de uma mulher que possui vontade própria e que não reconhece nele o poder de determinar sua conduta.

Para alguns homens, essa autonomia ainda é vivida como afronta. O grito surge, então, como tentativa de restaurar uma hierarquia ameaçada. A voz masculina cresce para que a palavra feminina diminua. A mulher deve ser novamente colocada no lugar de quem escuta, compreende, tolera e apazigua.

Não se trata apenas de uma dificuldade individual de administrar emoções. Existe uma aprendizagem histórica por trás desse gesto: a autorização social concedida aos homens para exteriorizarem a agressividade e a exigência dirigida às mulheres para absorverem essa agressividade sem perturbar ainda mais o ambiente.

Dos homens se aceita que estejam exaltados. Das mulheres se exige equilíbrio mesmo quando estão sendo agredidas.

A mulher que deixa de ocupar o lugar esperado

Simone de Beauvoir demonstrou que a mulher foi historicamente constituída como o “outro”, uma existência definida a partir do sujeito masculino e em relação a ele. A mulher não é percebida, nessa estrutura, como consciência autônoma, mas como aquela que deve confirmar, complementar ou servir ao projeto masculino (Beauvoir, 2016).

Quando essa mulher deixa de corresponder à expectativa que lhe foi destinada e se apresenta como sujeito de sua própria vontade, produz-se uma ruptura. Ela deixa de funcionar como objeto de confirmação da autoridade masculina. Sua palavra informa que existe outro desejo, outro pensamento e outro limite.

O grito pode aparecer nesse ponto exato: como recusa de reconhecer a mulher na condição plena de sujeito.

A questão não está apenas no conteúdo da divergência. Está na existência de uma mulher que não cedeu diante da vontade de um homem. Sua autonomia passa a ser interpretada como insubordinação; sua firmeza, como arrogância; sua autoridade, como abuso; e o limite que estabelece, como provocação pessoal.

Heleieth Saffioti explica que a violência de gênero não pode ser compreendida somente como resultado do temperamento de um indivíduo. Ela está vinculada a uma ordem patriarcal que distribui desigualmente poder, autoridade e legitimidade entre homens e mulheres. Essa estrutura não opera apenas nas relações íntimas. Ela atravessa as instituições, o trabalho, a política e as formas cotidianas de convivência (Saffioti, 2015).

No ambiente profissional, essa desigualdade pode aparecer de maneira aparentemente banal: interrupções constantes, desqualificação da palavra, apropriação de ideias, ironias, elevação da voz, exposição pública e questionamento sistemático da autoridade feminina. Isoladamente, cada gesto pode ser apresentado como pequeno ou acidental. Em conjunto, eles revelam uma pedagogia destinada a lembrar às mulheres que sua presença nos espaços de decisão continua sendo percebida como provisória ou condicionada.

A cena produzida pelo grito

Rita Laura Segato permite compreender a violência como uma linguagem. O ato violento não se dirige somente à pessoa imediatamente atingida; ele também transmite uma mensagem sobre poder, posição e autoridade. A violência possui uma dimensão expressiva: comunica quem acredita poder mandar e quem deve ser colocado no lugar da obediência (Segato, 2010).

Um homem que grita com uma mulher no ambiente de trabalho não expressa apenas sua raiva. Ele produz uma cena violenta.

Seu corpo, sua voz e sua agressividade comunicam que ele se considera autorizado a ultrapassar os limites da convivência profissional. Quando o grito ocorre diante de outras pessoas, essa dimensão torna-se ainda mais evidente. Existe uma destinatária imediata, mas também há uma audiência. O ato procura atingir a mulher e, simultaneamente, demonstrar uma posição de força.

A pessoa que grita tenta tomar para si o controle da narrativa. Sua voz elevada procura estabelecer quem possui autoridade para definir o que aconteceu, quem está certo e quem deverá recuar. O volume ocupa o lugar que deveria pertencer ao argumento.

Há, nesse gesto, uma tentativa de disciplinar a mulher. A mensagem não formulada pode ser compreendida: não volte a me contrariar; não imponha limites; não sustente uma decisão que frustre minha vontade; não exerça sobre mim uma autoridade que considero incompatível com o lugar que atribuo a você.

O grito, portanto, não é somente descarga. É também comando: uma manifestação de uma ordem patriarcal que historicamente autorizou homens a ocupar o lugar da autoridade e a transformar sua contrariedade em imposição. Não existe, em uma relação profissional baseada no reconhecimento entre sujeitos, nenhum lugar legítimo para o grito como forma de resolver uma divergência. Quando ele aparece, revela a tentativa de recuperar, pela força da voz, uma hierarquia que a autonomia da mulher colocou em questão.

A contrariedade e a ferida na onipotência

Sigmund Freud oferece elementos para compreender a agressividade que pode emergir quando o sujeito encontra um limite para seu desejo. A vida coletiva exige renúncia, contenção e reconhecimento da existência de outras vontades. Conviver significa admitir que o mundo não se organizará inteiramente de acordo com nossos desejos e que as outras pessoas não existem para confirmá-los (Freud, 2010).

A contrariedade impõe uma ferida à fantasia de onipotência. Ela informa que existe um limite, que a outra pessoa possui autonomia e que nem todo desejo será satisfeito. O trabalho psíquico da maturidade consiste em suportar essa falta e transformar a frustração em pensamento, palavra e negociação.

Quando esse trabalho fracassa, a diferença pode ser experimentada como humilhação. A palavra cede lugar à descarga agressiva. A voz já não procura comunicar: procura invadir.

Compreender essa dinâmica, entretanto, não significa desculpá-la. A psicanálise não pode ser utilizada para retirar a responsabilidade de quem agride. Explicar as condições psíquicas de um ato não corresponde a absolver quem o praticou. Um adulto continua responsável pela maneira como trata outra pessoa, inclusive quando está frustrado, contrariado ou enfurecido.

Frequentemente, o homem que grita afirma ter “perdido o controle”. Essa formulação precisa ser examinada com cuidado. Mesmo as chamadas perdas de controle costumam possuir destinatários socialmente selecionados. Muitos homens que gritam com mulheres não utilizam o mesmo tom diante de homens que reconhecem como superiores, mais poderosos ou capazes de responder à agressão.

Isso indica que o grito não é completamente cego. Ele atravessa cálculos sobre quem pode ser intimidado e diante de quem é prudente conter-se. O gênero participa desse cálculo.

A violência que continua depois do silêncio

Quando o grito termina, inicia-se uma segunda violência.

A mulher precisa recompor o rosto, controlar a voz, organizar o pensamento e continuar trabalhando. Precisa avaliar quem presenciou a cena, o que será contado, como o acontecimento será interpretado e se sua reação será utilizada contra ela. Precisa tomar cuidado para que o sofrimento produzido pela agressão não seja apresentado como prova de fragilidade, instabilidade ou despreparo.

A pessoa agredida passa, assim, a administrar as consequências da agressão, enquanto aquele que gritou pode tentar transformar sua conduta em um episódio banal, provocado pelo cansaço, pelo excesso de trabalho, pela pressão institucional ou pela própria mulher que o contrariou.

Essa inversão é antiga: primeiro, desorganiza-se uma mulher; depois, utiliza-se sua desorganização para negar a violência que a produziu.

O corpo, contudo, não obedece a essa operação discursiva. Ele reconhece a ameaça, reage à invasão e guarda aquilo que a linguagem ainda não conseguiu organizar. Por isso, dizer que meu corpo adoeceu não é uma metáfora excessiva. É reconhecer que a violência atravessa a matéria de que somos constituídas.

O sofrimento não está apenas na lembrança do que foi dito. Ele permanece no corpo que foi submetido à brutalidade de uma voz que tentou se impor sobre sua existência.

Devolver o grito a quem gritou

Escrevo porque preciso devolver o acontecimento à linguagem. Não para torná-lo menor, mas para impedir que permaneça apenas como dor alojada dentro de mim.

Escrever também é recusar a inversão das responsabilidades. Uma mulher não provoca um grito por sustentar uma posição. Não produz a agressão por contrariar uma vontade. Não se torna responsável pela incapacidade de outro adulto de transformar frustração em palavra.

Nenhuma mulher deve aceitar a violência para demonstrar maturidade, generosidade, companheirismo ou compromisso institucional. Preservar o ambiente de trabalho não pode significar sacrificar a própria dignidade. A responsabilidade pela preservação desse ambiente pertence, antes de tudo, a quem precisa aprender a discordar sem agredir.

Não desejo responder ao grito com outro grito. Tampouco desejo transformar uma pessoa inteira no pior gesto que ela praticou. Reconhecer a humanidade de quem agride, entretanto, não exige apagar a agressão. É possível recusar a vingança e, ao mesmo tempo, exigir responsabilidade. É possível desejar que alguém compreenda o que fez sem oferecer o próprio corpo como lugar de repetição desse aprendizado.

O respeito não é comprovado durante a concordância. Ele se revela diante do limite.

Um homem que reconhece uma mulher como sujeito pode sentir raiva, frustração e desacordo. Pode argumentar, interromper a conversa, pedir tempo, retirar-se e retomá-la quando recuperar as condições de falar. O que ele não pode fazer é converter sua contrariedade em autorização para intimidar.

Hoje, um homem gritou comigo no ambiente de trabalho. O acontecimento atravessou meu corpo e alterou profundamente o meu dia. Escrevê-lo é uma forma de retirar o grito de dentro de mim e colocá-lo no lugar ao qual pertence: sob a responsabilidade de quem gritou e diante da reflexão coletiva sobre as estruturas que ainda tornam esse gesto possível.

Meu silêncio depois do ocorrido não significa consentimento. Meu adoecimento não significa fraqueza. Minha tentativa de compreender não significa absolvição.

Continuo com minha palavra.

É justamente porque continuo com ela que posso afirmar: nenhuma divergência e nenhum nível de contrariedade concedem a um homem o direito de gritar com uma mulher.

Referências

Beauvoir, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. 2 v.

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930–1936). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 13–122. (Obras completas, v. 18).

Saffioti, Heleieth Iara Bongiovani. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Perseu Abramo, 2015.

Segato, Rita Laura. Las estructuras elementales de la violencia: ensayos sobre género entre la antropología, el psicoanálisis y los derechos humanos. 2. ed. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2010.

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