Eleições no Brasil: o primeiro turno de 2026 e o projeto da extrema-direita contra a democracia

 



Eleições no Brasil: o primeiro turno de 2026 e o projeto da extrema-direita contra a democracia

Notas de pesquisa a partir das eleições de 2018 e 2022

Vanessa Maria de Castro 

Professora e psicanalista

Brasília, 8 de outubro de 2026

Apresentação. Escrevo este texto na primeira semana após o primeiro turno das eleições de 2026, que terminou com Flávio Bolsonaro à frente de Lula. Nesses mesmos dias, laboratórios da Universidade Federal de Pernambuco pegaram fogo, estudantes relataram ameaças e o candidato que lidera a apuração passou a falar em “redemocratizar” o país.

A pergunta que orienta minha pesquisa desde 2018 é: como pensam os eleitores da extrema-direita — o que os motiva, o que temem, o que desejam e que tipo de Estado querem? Neste texto, retomo essa pergunta diante de 2026, para compreender o que se atualizou, o que se fortaleceu e o que se transformou nos discursos e afetos que sustentam esse campo. A democracia é um dos pontos dessa análise: a trajetória de 2018 a 2026 revela um projeto que busca o poder pelo voto e pela maioria no Congresso, mas que já mostrou, com a tentativa de golpe de 2022 e 2023, que não hesita em recorrer à força. Ao final, deixo em aberto uma pergunta que esta eleição impõe e que só poderá ser respondida em campo: o que esperava o eleitor que votou em Lula em 2022 e deixou de votar nele em 2026.

Para responder, retomo as duas pesquisas que fiz com eleitores e eleitoras de Jair Bolsonaro, em 2018 e em 2022, e as junto a autores que estudam a democracia e a extrema-direita e aos dados do primeiro turno. O texto tem quatro partes: as bases da análise; o primeiro turno de 2026; o segundo turno; e as conclusões.

Não escondo minha posição progressista. O compromisso deste texto, porém, é com a análise e com a precisão das fontes.

Um texto escrito no calor da conjuntura

Desde 2017, pesquiso as eleições no Brasil e as motivações do voto na extrema-direita: quem vota, por que vota e o que esse voto revela sobre a sociedade brasileira. Em 2018 e em 2022, realizei pesquisas qualitativas com eleitores e eleitoras de Jair Bolsonaro, e venho refletindo sobre a permanência das ideias bolsonaristas para além de seu principal líder (Castro, 2025a, 2025b, 2025c). Este texto é parte dessa trajetória.

Por questões de saúde, neste ano não pude voltar a campo para conversar diretamente com eleitores, como fiz nos dois pleitos anteriores. Este texto é, portanto, uma análise de conjuntura: parte dos achados daquelas pesquisas, da observação possível da linguagem política atual e de fontes documentais, acadêmicas e jornalísticas. Por ser escrito durante os acontecimentos, trabalha com informações ainda em apuração; quando um fato não está confirmado, digo isso explicitamente.

A pergunta que orienta esta pesquisa, desde 2018, é como pensam os eleitores da extrema-direita: o que os motiva, o que temem, o que desejam e que tipo de Estado querem. Sem poder voltar a campo, proponho para 2026 uma hipótese: o modo de pensar que encontrei em 2018 e em 2022 não desapareceu; atualizou-se. No centro dele está a intolerância à diferença — a recusa de reconhecer como iguais, e até como cidadãos, aqueles que pensam, vivem, amam ou creem de outro modo. O opositor deixa de ser alguém com quem se disputa e passa a ser tratado como inimigo. É esse modo de pensar que sustenta, em 2026, a campanha de Flávio Bolsonaro, que expressa, por sua composição e por seu discurso, um projeto contra a democracia: chegar ao poder pela porta da democracia — o voto, a maioria parlamentar — para, de dentro, fragilizá-la, seja pela mudança das regras, inclusive da própria Constituição, seja, se necessário, pela força, como o bolsonarismo já tentou fazer.

“Entrar pela porta da democracia para, de dentro, fragilizá-la — pelas regras ou pela força.”

Esse modo de pensar e o projeto que ele sustenta se apoiam em três dimensões, que estruturam a análise: a persistência de uma estrutura social conservadora, que historicamente tolera a exclusão; a remodelação da linguagem pública da extrema-direita, que tornou a encenação mais contida sem abandonar a violência; e o uso de uma infraestrutura informacional com ampla penetração territorial, capaz de levar esse projeto a cada município. A aparência mudou desde 2018; o modo de pensar e o projeto de excluir a diferença permanecem — e é a pergunta sobre como pensam esses eleitores que atravessa todas as partes deste texto.

As evidências: nenhum gesto de respeito à democracia

Essa hipótese não nasce de uma impressão. Ela se apoia em uma sequência de fatos públicos, em que o campo bolsonarista não fez nenhum gesto de reconhecimento das regras democráticas.

Derrotado em 2022, Jair Bolsonaro recusou-se a passar a faixa presidencial a Lula e deixou o país rumo aos Estados Unidos em 30 de dezembro, às vésperas da posse (Bolsonaro […], 2022). Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília. Em 11 de setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa armada, entre outros crimes (Supremo […], 2025). A investigação revelou que um plano chamado “Punhal Verde e Amarelo”, que previa o assassinato do presidente eleito, do vice-presidente eleito e de um ministro do Supremo, foi impresso no Palácio do Planalto (Andrade, 2026).

“Nenhuma passagem de faixa, nenhuma autocrítica, nenhum compromisso claro com o resultado das urnas.”

Nada disso produziu, no campo bolsonarista, um gesto de autocrítica. Em 7 de outubro de 2026, três dias depois do primeiro turno, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, resumiu a tentativa de golpe assim: “Discutiram de dar o golpe, mas não deram o golpe. E daí?” (Andrade, 2026). O próprio Flávio classificou o julgamento do pai como “uma grande farsa” e prometeu trabalhar pela anistia “ainda na transição” ou, se ela não for aprovada, conceder indulto ao pai e aos condenados pelo 8 de janeiro (Ribeiro, 2026; Flávio Bolsonaro promete […], 2026). Questionado em rede nacional se respeitaria o resultado caso perdesse, não respondeu; disse apenas: “Vou ser presidente da República com essas regras” (Flávio Bolsonaro promete […], 2026). E, na biografia do pai que publicou em 2017, já negava que 1964 tivesse sido um golpe, descrevia Ustra como “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e punha em dúvida as urnas eletrônicas (Em livro […], 2026).

O que liga esses fatos é a ausência de qualquer movimento democrático: nenhuma passagem de faixa, nenhum reconhecimento da derrota, nenhuma autocrítica sobre o golpe, nenhum compromisso claro com o resultado das urnas. Ao contrário, o golpe que não se consumou é tratado com indiferença, os condenados são prometidos ao perdão e o torturador é elevado a herói. É sobre essa base que a campanha de 2026 se apresenta com aparência contida.

PARTE I

As bases da análise

De onde vem o modo de pensar da extrema-direita: o referencial teórico, a estrutura social, o que as pesquisas de 2018 e 2022 revelaram sobre esses eleitores e o ambiente digital em que esse pensamento circula.

Democracia e extrema-direita: o referencial

Por que o processo democrático importa

Antes de analisar a eleição, é preciso dizer o que se entende por democracia. Na definição mínima de Adam Przeworski, a democracia é um sistema em que partidos perdem eleições: os derrotados aceitam o resultado, e os vencedores sabem que poderão perder na próxima vez (Przeworski, 2020). O voto, portanto, não basta. A democracia depende de que todos aceitem perder, de que a alternância seja possível e de que as regras não sejam reescritas por quem está no poder para nele permanecer. É esse processo — eleições livres, aceitação da derrota, limites ao poder, proteção das minorias e liberdade para divergir — que dá à democracia seu valor. Sem ele, eleições podem continuar existindo, mas deixam de decidir.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostraram que, no mundo contemporâneo, as democracias raramente morrem por golpes militares clássicos. Morrem nas mãos de líderes eleitos, que usam as próprias instituições para enfraquecê-las: capturam os árbitros, como tribunais e órgãos de controle; enfraquecem ou silenciam os adversários; e mudam as regras do jogo a seu favor. Para os autores, duas normas não escritas funcionam como grades de proteção da democracia: a tolerância mútua, isto é, o reconhecimento do adversário como legítimo, e a reserva institucional, isto é, a contenção no uso dos poderes que a lei concede (Levitsky; Ziblatt, 2018). É esse o sentido da expressão que uso ao longo deste texto: perder a democracia pela porta da democracia. Com uma diferença em relação ao modelo dos autores: no Brasil, a via legal convive com uma disposição já demonstrada de recorrer à força. O bolsonarismo não escolheu entre um caminho e outro; tentou os dois.

O que é a extrema-direita

Cas Mudde distingue duas famílias dentro da direita que se situa fora do campo conservador tradicional. A direita radical aceita formalmente a democracia, mas se opõe a elementos fundamentais da democracia liberal, como os direitos das minorias, o Estado de Direito e a separação de Poderes. A extrema-direita rejeita a própria essência da democracia (Mudde, 2022). Minha hipótese é que o bolsonarismo se move entre esses dois polos, e que a trajetória de 2018 a 2026 — da defesa do direito de matar à tentativa de golpe e à promessa de “redemocratizar” o país — indica um deslocamento em direção ao segundo.

Jason Stanley identifica, na política fascista, a divisão permanente entre “nós” e “eles”: um “nós” puro, ameaçado, e um “eles” que deve ser temido, culpado e, no limite, eliminado (Stanley, 2018). A psicanálise acrescenta uma dimensão que esses autores não esgotam: Freud mostrou que a massa se forma pela identificação com o líder e pela hostilidade dirigida aos de fora — o laço que une o grupo é também o que exclui o diferente (Freud, 2011). É essa combinação de identificação e exclusão que encontrei nos eleitores que ouvi em 2018 e em 2022.

O bolsonarismo diante dos quatro sinais de alerta

Levitsky e Ziblatt propõem quatro sinais de comportamento autoritário que permitem reconhecer, antes que seja tarde, um político que ameaça a democracia. Basta um deles para acender o alerta (Levitsky; Ziblatt, 2018). O quadro abaixo confronta esses sinais com os fatos reunidos neste texto.

Quadro 1 — Os quatro sinais de comportamento autoritário e o bolsonarismo (2018–2026)

Sinal de alertaO que significaO que o bolsonarismo fez
Rejeição das regras democráticasNão aceitar as regras do jogo, inclusive a derrotaRecusa em passar a faixa (2022); trama golpista e 8 de janeiro (2023); condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado (2025); questionamento das urnas; Flávio não se compromete a aceitar a derrota e promete “redemocratizar” o país (2026)
Negação da legitimidade dos adversáriosTratar o opositor como inimigo, criminoso ou ameaça à naçãoO adversário como inimigo nas falas que ouvi em 2018; o julgamento do STF chamado de “farsa”; a linguagem de incêndio nas redes
Tolerância ou incentivo à violênciaAceitar, relativizar ou estimular a violência políticaDefesa do direito de matar (2018); elogio a Ustra; plano “Punhal Verde e Amarelo”; “E daí?” diante do golpe; promessa de anistia aos condenados do 8 de janeiro
Disposição para restringir liberdadesLimitar direitos de opositores, da imprensa e das instituiçõesAtaques ao Supremo e propostas de mudança no Judiciário; maioria no Senado capaz de aprovar ou bloquear ministros do STF

Fonte: elaborado pela autora com base nos sinais propostos por Levitsky e Ziblatt (2018) e nos fatos documentados neste texto (Castro, 2025a; Bolsonaro […], 2022; Supremo […], 2025; Andrade, 2026; Flávio Bolsonaro promete […], 2026; Ribeiro, 2026; Em livro […], 2026; Leite, 2026; Ravagnani, 2026).

“Basta um dos quatro sinais para acender o alerta. O bolsonarismo apresenta os quatro.”

Esse é o sentido preciso em que afirmo que o campo político liderado por Jair Bolsonaro, e agora representado por seu filho, não demonstra respeito pela democracia: não se trata de uma acusação genérica, mas da constatação de que nenhum dos critérios que a ciência política usa para reconhecer líderes democráticos é cumprido.

A estrutura conservadora e a legitimação da violência

O conservadorismo brasileiro precisa ser compreendido em sua articulação com uma formação social marcada pela escravidão e pela reprodução de hierarquias raciais, de gênero, de classe e de sexualidade. Quando caracterizo o Brasil como escravocrata, refiro-me à persistência de relações de dominação, de desumanização e de distribuição desigual de direitos, de reconhecimento e de proteção. O racismo, a misoginia e a homofobia integram essa estrutura e se expressam nas instituições, nas relações cotidianas e nas disputas políticas.

Nessa interpretação, parcelas da elite brasileira apreciam e defendem a desigualdade porque ela organiza seus privilégios e sua posição de superioridade social. A desigualdade não é apenas um problema que se deixou de resolver: pode ser uma ordem que se deseja preservar. A ampliação de direitos e a chegada de grupos historicamente excluídos a espaços de poder confrontam essa ordem — e é nesse conflito que situo a força política da extrema-direita.

É nessa estrutura que se enraíza a intolerância à diferença que está no centro do projeto analisado aqui: quem defende a hierarquia não reconhece o outro como igual, e quem não reconhece o outro como igual não precisa da democracia. Minha tese, portanto, é que a eficácia da comunicação digital se apoia na estrutura conservadora, racista, misógina e homofóbica da sociedade e nos interesses que defendem a desigualdade. O algoritmo não cria essas disposições; ele as encontra, as mede e as ativa. Compreender o alcance das plataformas exige examinar, em conjunto, a história social, os conflitos políticos, as identificações e as condições materiais de vida.

2018 e 2022: o que encontrei nas duas pesquisas

Primeira pesquisa (2018): a ostentação

A primeira pesquisa, A extrema-direita brasileira e as eleições de 2018: um diálogo com eleitores de Bolsonaro, ouviu 22 pessoas que declaravam voto em Jair Bolsonaro. Realizei entrevistas semiestruturadas e apliquei um questionário de perfil socioeconômico e cultural nas três semanas anteriores ao primeiro turno, em Brasília, com atenção especial a mulheres trabalhadoras de contextos periféricos. A abordagem qualitativa buscava compreender sentidos, identificações e desejos associados à escolha eleitoral; não se tratava de uma sondagem estatisticamente representativa do país (Castro, 2025a).

Nesses diálogos, identifiquei a negação do racismo estrutural, a resistência a políticas de igualdade, a defesa de hierarquias de gênero e de sexualidade e a legitimação da violência contra quem era construído como inimigo. A reivindicação do direito de andar armado — e de matar — não aparecia apenas como proposta de segurança pública: integrava uma representação de ordem social na qual algumas vidas valiam menos. A moralização da política permitia justificar a violência como proteção da família, da propriedade e de uma comunidade que se sentia ameaçada. Já ali, a lógica do inimigo aparecia sem disfarce: o inimigo não era alguém com quem se discordava, mas alguém a ser suprimido. A ostentação dessas posições indicava uma espécie de autorização para dizer em público o que antes encontrava maior constrangimento (Castro, 2025a).

Segunda pesquisa (2022): o silêncio constrangido

Em Entre o púlpito e a urna: religião e política nas eleições brasileiras de 2018 e 2022, retornei aos mesmos locais de trabalho — instituições públicas de uma cidade periférica do Distrito Federal. A pesquisa de 2022 também contou com 22 participações, nas duas semanas anteriores ao primeiro turno. Alguns interlocutores eram diferentes, por mudanças de emprego; a continuidade dos locais, portanto, não equivale a um acompanhamento integral das mesmas pessoas. As entrevistas foram gravadas e transcritas, com preservação das identidades. O grupo reunia moradores de regiões periféricas do Distrito Federal e de Goiás, com diferentes níveis de escolaridade, renda e pertencimento religioso (Castro, 2025b).

“Da ostentação ao silêncio constrangido: mudar a linguagem não é mudar os valores.”

A comparação revelou uma mudança decisiva na expressão discursiva: da ostentação ao silêncio constrangido, à negação e à racionalização. Em 2022, parte das pessoas entrevistadas evitava falar de racismo, de misoginia e de preconceito contra pessoas LGBTQIA+ — o que não significava o abandono dessas disposições. A fome, o custo de vida e a dificuldade de pagar as contas ganharam centralidade. A pauta econômica passou a oferecer uma linguagem mais aceitável para justificar escolhas, convivendo com valores conservadores.

Também ouvi mulheres que reconsideravam o armamentismo a partir do medo e de experiências de violência doméstica. A pesquisa registra, assim, persistências, contradições e revisões — e não um eleitorado uniforme (Castro, 2025b).

Outro achado foi a articulação entre autoridade religiosa, circulação digital e pressão sobre o voto. Registrei mensagens de WhatsApp que anunciavam, falsamente, que Lula fecharia igrejas; a vigilância de lideranças sobre fiéis; e o uso da obediência espiritual como justificativa da escolha política. Em uma das entrevistas, a ordem de um pastor interrompeu o diálogo. Algumas mulheres reconheciam melhorias de vida associadas aos governos de Lula ou expressavam maior afinidade com ele, mas enfrentavam medo, culpa e imposições religiosas.

Esses episódios mostram como necessidades materiais, pertencimento e coerção se entrelaçam. Eles descrevem práticas observadas naquele campo e não autorizam generalizações sobre todas as pessoas ou igrejas evangélicas (Castro, 2025b).

O fio que une as duas pesquisas

O que liga os dois trabalhos é a permanência de uma estrutura autoritária sob mudanças de linguagem. Em 2018, sua expressão podia ser frontal; em 2022, surgiam formas de silenciamento e de adaptação pública. O ambiente digital já participava dessas relações, articulado às redes presenciais da família, do trabalho e da religião. Meu argumento sobre 2026 se apoia nessa trajetória: mudar a apresentação de uma candidatura não significa, necessariamente, transformar os valores, as relações de poder e as práticas que a sustentam.

O ambiente digital: a escala da presença das plataformas

O relatório Digital 2026: Brazil, de Simon Kemp, apresenta estimativas de alcance publicitário que dimensionam a presença das plataformas no país — ainda que não sejam contagens de pessoas únicas nem de eleitores. No fim de 2025, o Facebook tinha audiência publicitária estimada em 109 milhões; o Instagram, em 147 milhões; o TikTok, em 131 milhões de contas de pessoas adultas; e o X, em 17,1 milhões (Kemp, 2025).

Quadro 2 — Indicadores de presença das plataformas no Brasil

PlataformaIndicadorBase de comparação
Facebook109 milhões51,3% da população total; alcance publicitário
Instagram147 milhões69% da população total; alcance publicitário
TikTok131 milhões de contas adultas80,3% da população de 18 anos ou mais; alcance publicitário
X17,1 milhões8% da população total; alcance publicitário
WhatsAppPresente em 99% dos smartphonesProprietários de smartphone; dado de 2025

Fonte: elaborado pela autora com base em Kemp (2025) e Statista (2025). As bases são diferentes e os valores não devem ser somados.

A frequência de uso é igualmente reveladora. Em julho de 2026, a Opinion Box entrevistou mil pessoas com 18 anos ou mais, proprietárias de smartphone e usuárias de WhatsApp: 97% declararam acesso diário; 37% disseram mantê-lo aberto o dia todo; e 42% afirmaram abri-lo várias vezes, mesmo sem notificações. Os resultados descrevem as pessoas pesquisadas, e não toda a população brasileira (Casagrande, 2026). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2025 a internet era utilizada em 95% dos domicílios brasileiros e em 88% dos domicílios rurais (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, 2026a). O município pequeno, portanto, não está fora desse circuito.

Cartografia do poder informacional

Para compreender como as plataformas podem interferir em uma eleição, não basta contar usuários. É preciso mapear o que elas registram, o que conseguem inferir e o que permitem fazer com essas inferências. Shoshana Zuboff chama de capitalismo de vigilância o modelo econômico em que a experiência humana é convertida em dados comportamentais, processada para prever condutas e vendida como mercado de previsões — e, no limite, como capacidade de modificar comportamentos (Zuboff, 2021). Proponho, a seguir, uma cartografia em camadas desse poder.

Primeira camada: o registro. Cada curtida, busca, visualização, pausa sobre um vídeo, compartilhamento ou deslocamento do celular gera um registro. A pessoa não precisa publicar uma opinião para ser lida: o tempo que permanece diante de um conteúdo já é um dado.

Segunda camada: a inferência. A partir desses registros, é possível deduzir o que a pessoa não declarou. Um estudo com 58 mil usuários do Facebook mostrou que apenas as curtidas permitiam prever, com alta precisão, características como orientação sexual, posição política, religião e traços de personalidade (Kosinski; Stillwell; Graepel, 2013). Quem detém os dados conhece mais sobre o público do que o próprio público declara.

Terceira camada: a segmentação. As plataformas de publicidade permitem dirigir mensagens a grupos definidos por localização, idade, interesses e comportamentos — inclusive por cidade ou por um raio em torno de um ponto. Experimentos com mais de 3,5 milhões de pessoas mostraram que mensagens ajustadas ao perfil psicológico inferido do público produzem respostas significativamente maiores do que mensagens genéricas (Matz et al., 2017). A persuasão deixa de ser dirigida a uma “opinião pública” e passa a ser calibrada para cada fração do eleitorado.

Quarta camada: a recomendação. Fora da publicidade paga, os algoritmos decidem o que cada pessoa vê, em que ordem e com que frequência. O experimento com o feed do X mostra que essa organização da visibilidade pode alterar opiniões políticas (Gauthier et al., 2026).

Quinta camada: a mensageria. No WhatsApp, as conversas pessoais são protegidas por criptografia de ponta a ponta, o que impede a leitura do conteúdo pela empresa. A força política do aplicativo está em outro lugar: na circulação por grupos de família, de igreja, de bairro e de trabalho, onde a mensagem chega com a autoridade de quem a encaminha. Em 2018, reportagem de Patrícia Campos Mello revelou que empresários contratavam disparos em massa de mensagens contra o PT pelo WhatsApp (Campos Mello, 2018) — prática que minha pesquisa de 2022 também encontrou em outra forma, na circulação de boatos religiosos.

Sexta camada: os intermediários. Entre as plataformas e as campanhas atuam agências de publicidade, consultorias de dados e empresas de monitoramento de redes, que leem tendências, testam mensagens e orientam estratégias. O caso Cambridge Analytica mostrou, em 2018, como dados de cerca de 50 milhões de perfis do Facebook foram coletados sem consentimento e usados para fins eleitorais (Cadwalladr; Graham-Harrison, 2018). Em 2026, os relatos sobre os relatórios de monitoramento elaborados por pessoas ligadas à Rockbridge situam esse tipo de intermediação no centro da campanha de Flávio (Empresários […], 2026).

Quadro 3 — Cartografia do poder informacional nas eleições

CamadaO que éO que permite em uma eleiçãoLimites e controles
RegistroCurtidas, buscas, tempo de tela, localizaçãoAcompanhar, quase em tempo real, preocupações e interesses de cada territórioDados concentrados nas empresas; acesso público restrito
InferênciaPrevisão de traços não declaradosIdentificar eleitores indecisos, temerosos ou mobilizáveisPrevisões probabilísticas, não certezas individuais
SegmentaçãoAnúncios dirigidos por local, idade e interessesMensagens diferentes para cada município ou grupoImpulsionamento eleitoral só pode ser contratado por candidatos, partidos e coligações (Brasil, 1997)
RecomendaçãoAlgoritmos que ordenam o que se vêAmpliar ou reduzir a visibilidade de temas e candidaturasCritérios pouco transparentes
MensageriaGrupos e listas no WhatsApp e no TelegramCirculação por redes de confiança, com pouca rastreabilidadeConteúdo criptografado; disparo em massa é irregular
IntermediáriosAgências, consultorias, monitoramentoLer tendências, testar e ajustar mensagensNem sempre aparecem na prestação de contas

Fonte: elaborado pela autora com base em Zuboff (2021), Kosinski, Stillwell e Graepel (2013), Matz et al. (2017), Gauthier et al. (2026), Campos Mello (2018), Cadwalladr e Graham-Harrison (2018), Empresários […] (2026) e Brasil (1997).

“Ser lido sem dizer nada: o tempo diante de um conteúdo já é um dado.”

Essa cartografia permite formular com mais precisão uma hipótese que retomarei ao analisar o resultado do primeiro turno nos municípios. Uma localidade pequena pode não aparecer individualizada em nenhuma pesquisa eleitoral nacional e, ainda assim, ser observada diariamente pelos registros digitais de seus habitantes. Quem dispõe de dados, de capacidade de análise e de recursos para segmentar mensagens pode ler as preocupações de cada território — o preço dos alimentos, a insegurança, a religião, o desejo de prosperidade — e responder a elas com mensagens próprias, testadas e ajustadas. É uma capacidade de observação e de intervenção contínua, com detalhamento e frequência que nenhuma pesquisa amostral alcança.

É preciso, contudo, registrar os limites da hipótese. As fontes disponíveis não demonstram que a campanha de Flávio tenha usado segmentação municipal sistemática, nem que tenha tido acesso a dados internos das plataformas. A verificação exigiria, por exemplo, análise das bibliotecas públicas de anúncios das plataformas, das prestações de contas e dos contratos com agências. O que a cartografia mostra é que essa capacidade existe, é acessível a quem pode pagar por ela e opera em um território onde as disposições conservadoras já estavam presentes. O algoritmo não inventa o eleitor; ele o encontra onde a história social já o preparou.

Os pequenos municípios e a construção dos desejos

O eleitorado se manifesta também por aquilo que lê, assiste, procura e consome. Nesse ambiente, as referências de uma vida desejável são permanentemente oferecidas e reelaboradas. Imagens de prosperidade, segurança, reconhecimento e pertencimento podem ganhar expressão política quando uma candidatura passa a representar a possibilidade de alcançá-las. Como psicanalista, considero indispensável examinar a relação entre comunicação digital e voto nesse plano: o da produção de sentidos, de expectativas e de desejos. A plataforma não apenas lê o desejo; ao repetir certas imagens e silenciar outras, participa de sua formação.

PARTE II

O primeiro turno de 2026

Como esse modo de pensar se expressou e avançou em 2026: os sinais autoritários de uma campanha contida, as forças que a sustentaram, o resultado nos municípios, o papel das emendas parlamentares, nos estados e no Congresso a leitura que o governo deixou de fazer do país e o eleitor que deixou Lula.

A arma fora de cena e a linguagem de incêndio

No ensaio Bolsonaro está preso, mas suas ideias continuam livres: os sombrios ecos que ameaçam a democracia, publicado neste blog em 22 de novembro de 2025, argumentei que a responsabilização de uma liderança não encerra as ideias autoritárias nem seus meios de reprodução. Escrevi, então, que esses projetos sobrevivem por meio de herdeiros simbólicos, figuras de substituição e discursos remodelados: o inimigo da democracia não desaparece com a prisão — ele se rearticula, se reorganiza, aprende (Castro, 2025c). Aquele texto ajuda a situar Flávio como portador de uma agenda que tem bases sociais, vínculos institucionais e uma história anterior à sua candidatura.

Com o acesso limitado que tive neste ano, percebo uma tentativa de retirar de cena a agressividade explícita que marcou Jair Bolsonaro, para reduzir a rejeição ao seu herdeiro. Não interpreto isso como moderação. O gesto de arma em punho saiu do palco, mas não do projeto: foi deslocado para os bastidores. À luz das pesquisas anteriores, uma encenação mais contida pode ampliar a aceitabilidade pública de um projeto sem alterar seus fundamentos. Trata-se de uma leitura da apresentação política atual, e não de um resultado obtido em novas entrevistas.

“A agressividade saiu do palco, não do projeto.”

Chamo de linguagem de incêndio uma forma de enunciação que transforma o adversário em ameaça intolerável, organiza o medo e apresenta a hostilidade como defesa legítima. Uso a expressão como categoria interpretativa da violência política, sem supor que toda divergência ou manifestação incisiva contenha esse mecanismo. Seu ponto crítico é o deslocamento do confronto entre projetos para a deslegitimação da existência e dos direitos do outro — a forma discursiva da transformação do adversário em inimigo. A contenção no palco pode conviver com uma circulação agressiva nas redes que sustentam a candidatura: o que a liderança deixa de dizer, outros dizem por ela.

Os sinais que escapam do bastidor

Mesmo contida, a linguagem deixa escapar sinais. Em 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno, Flávio incluiu o nome do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — reconhecido pela Justiça de São Paulo, em 2008, como responsável por torturas durante a ditadura — entre as palavras-chave de uma transmissão ao vivo no YouTube. As palavras-chave ficam nos metadados do vídeo: não aparecem para quem assiste, mas orientam quem busca por aquele nome (Garcia, 2026). Em 6 e 7 de outubro, em Goiânia e em Brasília, ao defender mudanças na Constituição, como o fim da reeleição e a redução da maioridade penal, Flávio declarou que seria preciso “redemocratizar esse país” (Leite, 2026).

“Não se redemocratiza o que já é democrático.”

Da perspectiva psicanalítica, leio a promessa de “redemocratizar” um país democrático como um possível ato falho: um enunciado que, ao pretender dizer uma coisa, deixa escapar outra — o desejo de reorganizar a ordem democrática existente segundo a imagem do herói que esse campo político elegeu, Ustra. Trata-se de uma interpretação, e é como interpretação que a apresento; ela se apoia, contudo, em uma sequência de gestos públicos, e não em uma frase isolada.

A moral anticorrupção que não pesou

Um elemento do primeiro turno merece registro, ainda que não seja desenvolvido neste texto. Flávio Bolsonaro e sua família acumulam denúncias e investigações. Como deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, apontado como integrante da milícia de Rio das Pedras, e a mãe e a esposa de Adriano trabalharam em seu gabinete entre 2007 e 2018; as investigações sobre a chamada “rachadinha” foram encerradas em 2021, depois que o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça anularam as provas (Flávio Bolsonaro defende […], 2026). Em 2026, Flávio é investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação em caso relacionado ao Banco Master (Hughes, 2026).

“A denúncia de corrupção adere a um e escorrega no outro.”

Nada disso parece ter interferido na escolha do voto. A moral anticorrupção e antissistema que o conservadorismo mobilizou em 2018 não foi o mote de 2026: diante das denúncias contra Flávio e sua família, houve uma resiliência quase total de seu eleitorado. A acusação de corrupção, ao contrário, continua a colar em Lula e a alimentar o antilulismo. Essa assimetria — por que a denúncia adere a um e escorrega no outro — revela que o discurso moral funcionava menos como princípio do que como arma contra o adversário. É uma questão que merece análise própria, e que deixo para outro momento.

As forças que atuam na disputa

Uma eleição não se decide apenas entre candidatos. Identifico, nesta conjuntura, forças econômicas, internacionais e institucionais que tendem a pressionar pela vitória de Flávio. Algumas estão documentadas; outras permanecem como hipóteses de pesquisa.

A articulação internacional. Em 1º de outubro, reportagem da Folha de S.Paulo relatou que empresários ligados à Rockbridge Network ajudaram Flávio com serviços e aconselhamento, segundo seis pessoas próximas à campanha. Pedro Sang, apresentado em documentos internos como CEO da Rockbridge Brasil, teria ajudado a elaborar relatórios de monitoramento de redes sociais e pesquisas eleitorais, serviços que não constam da prestação de contas da campanha ao Tribunal Superior Eleitoral. A Rockbridge foi cofundada por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e reúne participantes do setor tecnológico conservador. A campanha negou ter recebido verba ou estrutura estrangeira (Empresários […], 2026). Reportagem do Jornal do Brasil descreve documentos com contribuições anuais de US$ 500 mil e US$ 1 milhão para categorias de adesão à rede; esses valores se referem à estrutura de participação proposta, e não a uma transferência comprovada à campanha, e os envolvidos negaram associação formal ou disseram que a iniciativa não avançou (Jornal do Brasil, 2026).

O mercado financeiro. A reação dos mercados ao primeiro turno foi imediata. Em 5 de outubro, o Ibovespa chegou a subir 8,33%, e o dólar caiu 4,33%, abaixo de R$ 5 — movimento que a imprensa especializada chamou de “trade Flávio Bolsonaro”, isto é, a aposta de que uma vitória da direita no Executivo e no Congresso favoreceria um ajuste fiscal (Guilherme, 2026). A preferência de agentes financeiros não é, em si, ilegítima; o que importa registrar é que ela constitui uma força com capacidade de pautar expectativas econômicas e o debate público até o segundo turno.

As elites e a mídia. Considero também que parcelas da elite econômica brasileira e de grandes grupos de comunicação, como a Rede Globo, além de agências de publicidade e de comunicação, podem atuar nessa direção. Apresento isso como hipótese de pesquisa: sua verificação exige análise sistemática da cobertura, dos investimentos e das articulações empresariais, que este texto não realizou.

A expansão eleitoral no universo municipal

A votação por município permite observar o alcance territorial do avanço de Flávio. Levantamento da Folha de S.Paulo, com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral, identificou 714 municípios em que Lula liderou no primeiro turno de 2022 e Flávio passou a liderar em 2026. O recorte corresponde às 23h de 4 de outubro, com 99,7% das urnas apuradas, sem os votos do exterior. Nesse recorte, não houve nenhuma mudança no sentido inverso (Pinhoni et al., 2026).

Quadro 4 — Estados com mais municípios que passaram de Lula (2022) para Flávio (2026)

EstadoMunicípios
Minas Gerais178
Rio Grande do Sul134
Paraná91
São Paulo90
Goiás69

Fonte: elaborado pela autora com base em Pinhoni et al. (2026) e Tribunal Superior Eleitoral (2026). Recorte das 23h de 4 de outubro de 2026, com 99,7% das urnas apuradas.

Os quatro estados com mais mudanças somam 493 municípios — 69% das 714 ocorrências. O dado localiza a concentração do avanço, mas o número de municípios não equivale ao peso de seus eleitorados.

A consistência desse deslocamento — na mesma direção, em quase todo o território — é o que torna a cartografia do poder informacional relevante para a análise. Mudanças tão homogêneas sugerem a ação de fatores que atravessam o país inteiro ao mesmo tempo. A comunicação digital segmentada é um deles; as condições econômicas, os pertencimentos religiosos e as relações de dominação são outros. Os dados localizam o avanço, mas não medem a exposição de cada município nem identificam quais pessoas mudaram de voto.

O orçamento secreto e as emendas: uma hipótese

Há um movimento que não passa pelo Executivo e que precisa entrar nesta análise: o dinheiro que chega aos municípios pelas mãos do Legislativo. O chamado orçamento secreto — as emendas de relator, distribuídas sem transparência sobre quem as indicava — foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 2022. A lógica, porém, sobreviveu em outras formas, como as emendas individuais, as de comissão e as chamadas “emendas Pix”, transferidas diretamente às prefeituras. E atingiu volumes inéditos. Entre janeiro de 2023 e agosto de 2026, o governo pagou R$ 165,4 bilhões em emendas parlamentares, 54% a mais do que na legislatura anterior, já descontada a inflação; cada deputado passou a indicar perto de R$ 40 milhões por ano; e 60% das emendas individuais de 2024 a 2026 foram para os municípios em que cada deputado tinha sido mais votado (Leitão, 2026). Em 2026, até o início de julho, R$ 26,55 bilhões em emendas já tinham sido transferidos aos municípios, cerca de 20% a mais do que no mesmo período de 2022. Um calendário aprovado pelo Congresso obrigou o próprio governo Lula a pagar parte desses recursos no primeiro semestre, antes das restrições do período eleitoral (Vargas, 2026).

“O governo pagou; quem levou o crédito, no município, foram o deputado e o prefeito.”

Minha hipótese é que essa estrutura ajuda a explicar o resultado desta eleição. O dinheiro federal chegou aos municípios — e chegou em volume recorde —, mas chegou com o nome do deputado e do prefeito, e não com o do governo. O Executivo pagou; quem levou o crédito, na ponta, foram os parlamentares e as lideranças locais, em sua maioria de partidos de centro e de direita. Isso ajuda a entender por que a política pública chegou a esses municípios sem se converter em voto para Lula, e por que o Congresso se reelegeu mesmo reprovado pelo eleitor: 330 dos 513 deputados eleitos já tinham mandato, uma renovação de cerca de 36%, bem abaixo da média histórica de 46%, embora apenas 18% dos eleitores avaliassem o trabalho do Congresso como bom ou ótimo (Leitão, 2026). Nesse sentido, esta eleição pode ser, em parte, resultado da própria estrutura do orçamento secreto e de seus sucessores: um circuito que liga o Legislativo diretamente às prefeituras e que passa ao largo do Executivo — e do castelo de cristal.

É preciso, contudo, cautela. Emendas e votos aparecem associados, mas a associação não prova que um causou o outro: os deputados também enviam recursos para onde já têm apoio, e há casos em que o município mais beneficiado deu menos votos ao parlamentar (Melo, 2026). A relação entre as emendas e a mudança do voto presidencial nos municípios é uma hipótese que precisa ser investigada, e não uma conclusão.

O desgaste de lideranças evangélicas e a recomposição conservadora

Considero relevante o desgaste de representantes tradicionais da bancada evangélica, ao mesmo tempo em que ascendem lideranças mais diretamente identificadas com o bolsonarismo. Segundo Anna Virginia Balloussier, dos cinco deputados que presidiram a bancada desde 2018 e concorreram em 2026, apenas Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) se reelegeu. A mesma reportagem registra que os dois deputados mais votados do país, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), são evangélicos, assim como André Fernandes (PL-CE), o quarto mais votado (Balloussier, 2026).

Esses dados permitem falar em esvaziamento de parte da representação tradicional e em recomposição de sua autoridade política — não em redução do eleitorado evangélico ou de sua influência. Minha hipótese é que a identificação bolsonarista e a presença cotidiana de influenciadores digitais podem ganhar mais peso, inclusive entre pessoas que seguem vinculadas a suas igrejas. A autoridade religiosa e a autoridade construída nas plataformas podem se associar, disputar espaço ou se reforçar mutuamente. A pesquisa de 2022 ajuda a pensar esse problema, embora não tenha medido essa transformação parlamentar de 2026.

A recomposição religiosa é parte de um movimento maior: a mudança do próprio Congresso.

O mapa do poder em 2027: governadores, Câmara e Senado

O resultado legislativo do primeiro turno já está definido e muda as condições de governo para quem vencer em 25 de outubro. Na Câmara dos Deputados, o PL passa a ter a maior bancada, com 121 cadeiras, contra 99 eleitas em 2022. O campo progressista — a federação PT/PCdoB/PV, o PSB, a federação PSOL/Rede e o PDT — elegeu 124 deputados, dois a menos que em 2022, o equivalente a 24,2% da Casa (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP, 2026b). Somados PL, a federação União Progressista (PP e União Brasil), Republicanos, Novo e Missão, a direita e a centro-direita alcançam 260 dos 513 deputados — mais que a maioria absoluta.

Quadro 5 — Composição da Câmara dos Deputados: eleitos em 2022 e em 2026

Partido ou federaçãoEleitos em 2022Eleitos em 2026Variação
PL99121+22
PT/PCdoB/PV8088+8
União Progressista (União Brasil e PP)10687−19
PSD4243+1
Republicanos41410
MDB4236−6
Podemos¹1827+9
PSB1415+1
PSOL/Rede1415+1
PSDB/Cidadania1811−7
Novo310+7
PRD/Solidariedade²127−5
PDT176−11
Avante75−2
Missão—1+1
Total513513

Fonte: elaborado pela autora com base em Grandchamp (2022), para os eleitos em 2022, e em Teixeira (2026) e Barbosa (2026), para os eleitos em 2026. Notas: (1) em 2022, Podemos (12) somado ao PSC (6), incorporado depois; (2) em 2022, Patriota (4) e PTB (1), que formaram o PRD, somados a Solidariedade (4) e Pros (3), incorporado ao Solidariedade; (3) em 2022, União Brasil (59) e PP (47). A comparação é com os eleitos em 2022, e não com a bancada atual, que mudou com as trocas de partido.

Figura 1 — Quem ganhou e quem perdeu cadeiras na Câmara

Figura 1 — Variação de cadeiras na Câmara dos Deputados entre as eleições de 2022 e de 2026. Fonte: elaborada pela autora com base no Quadro 5.

O mapa mostra quem ganhou poder. O PL foi o grande vencedor, com 22 cadeiras a mais, e o Novo mais que triplicou sua bancada. A federação liderada pelo PT cresceu 8 cadeiras, mas o restante do campo progressista praticamente não se moveu, e o PDT perdeu quase dois terços de sua bancada. As maiores perdas ficaram com partidos do chamado Centrão: União Brasil e PP, que neste texto classifico como centro-direita, perderam 19 cadeiras; MDB e PSDB/Cidadania, de centro, também encolheram. O deslocamento, portanto, não foi apenas da esquerda para a direita, mas da centro-direita fisiológica e do centro para a direita mais ideológica — o que reforça a hipótese de recomposição do campo conservador sob liderança bolsonarista.

O Senado, que historicamente tende a ser a casa mais conservadora do Congresso, será ainda mais. O PL salta de 15 para 28 senadores e passa a ter a maior bancada; o PSD, que tinha 14, cai para 4 (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP, 2026a).

Quadro 6 — Composição do Senado Federal a partir de 2027

PartidoAtual2027Variação
PL1528+13
PT910+1
MDB98−1
União Brasil36+3
PP86−2
Republicanos65−1
PSD144−10
PSB64−2
Novo03+3
PSDB42−2
Podemos32−1
PDT21−1
Rede01+1
Solidariedade110
Avante10−1
Total8181

Fonte: Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP (2026a). Projeção sem considerar mudanças de partido posteriores à eleição.

Agrupando os partidos, a direita e a centro-direita (PL, União Brasil, PP, Republicanos e Novo) somam 48 senadores; o campo progressista (PT, PSB, PDT e Rede), 16; e os partidos de centro (MDB, PSD, PSDB, Podemos e Solidariedade), 17. Os números importam porque definem o que é possível aprovar. Uma emenda constitucional exige 49 votos no Senado e 308 na Câmara; a aprovação de um indicado ao Supremo Tribunal Federal exige 41 senadores; o afastamento de um ministro do Supremo, 54 (Ravagnani, 2026).

Quadro 7 — Blocos no Congresso eleito em 2026 e limiares de votação

BlocoSenado (81)Câmara (513)
Direita e centro-direita48260
Centro17129
Campo progressista16124
Emenda constitucional (3/5)49308
Maioria absoluta41257

Fonte: elaborado pela autora com base em DIAP (2026a; 2026b), Teixeira (2026) e Ravagnani (2026). A classificação em blocos é da autora e pode variar conforme o critério adotado.

Os governadores

O mesmo movimento aparece no Executivo dos estados. Vinte estados elegeram governador já no primeiro turno; outros seis e o Distrito Federal decidem em 25 de outubro (Penteado, 2026; Chein, 2026).

Quadro 8 — Governadores eleitos no primeiro turno de 2026 e disputas de segundo turno

RegiãoEleitos no primeiro turnoSegundo turno (1º e 2º colocados)
SulPR: Sergio Moro (PL); RS: Luciano Zucco (PL); SC: Jorginho Mello (PL)—
SudesteSP: Tarcísio de Freitas (Republicanos); MG: Cleitinho Azevedo (Republicanos)RJ: Douglas Ruas (PL), 49,3% × Eduardo Paes (PSD), 42,8%; ES: Lorenzo Pazolini (Republicanos), 49,7% × Ricardo Ferraço (MDB), 34,1%
Centro-OesteGO: Daniel Vilela (MDB); MT: Otaviano Pivetta (Republicanos); MS: Eduardo Riedel (PP)DF: Celina Leão (PP), 49,9% × Leandro Grass (PT), 34,5%
NorteRO: Marcos Rogério (PL); RR: Arthur Henrique (PL); AP: Dr. Furlan (PSD); PA: Dr. Daniel (Podemos)AM: Omar Aziz (PSD), 40,6% × Maria do Carmo (PL), 24,5%; AC: Mailza Assis (PP), 49,8% × Alan Rick (Republicanos), 32,3%; TO: Professora Dorinha (União), 45,5% × Vicentinho Júnior (PSDB), 43,9%
NordesteBA: Jerônimo Rodrigues (PT); CE: Elmano de Freitas (PT); PI: Rafael Fonteles (PT); MA: Eduardo Braide (PSD); PE: Raquel Lyra (PSD); SE: Fábio Mitidieri (PSD); PB: Lucas Ribeiro (PP); AL: JHC (PSDB)RN: Allyson (União), 36,9% × Cadu de Lula (PT), 36,2%

Fonte: elaborado pela autora com base em Penteado (2026) e Chein (2026).

A comparação com 2022 é eloquente. Naquele ano, o PT elegeu quatro governadores (Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte) e o PSB, três (Maranhão, Espírito Santo e Paraíba); o PL elegeu dois (Rio de Janeiro e Santa Catarina) (Queiroz, 2022). Em 2026, o PT garantiu três, todos no Nordeste, e disputa outros dois em segundo turno — no Rio Grande do Norte, praticamente empatado, e no Distrito Federal, em desvantagem. O PSB não elegeu nenhum. O PL já elegeu cinco e pode chegar a sete. O Sul inteiro passou a ser governado pelo PL, e os dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais, ficaram com o Republicanos.

O mapa do poder: Executivo e Legislativo

Reunindo os três níveis — governos estaduais, Câmara e Senado —, o deslocamento fica visível em conjunto.

Quadro 9 — Conservadores e progressistas no Executivo estadual e no Legislativo: 2022 e 2026

InstânciaDireita e centro-direitaCentroCampo progressista
Governadores eleitos em 2022 (27)1197
Governadores eleitos no 1º turno de 2026 (20 de 27)¹1073
Câmara: eleitos em 2022 (513)249139125
Câmara: eleitos em 2026 (513)260129124
Senado: composição atual (81)323217
Senado: composição a partir de 2027 (81)481716

Fonte: elaborado pela autora com base em Queiroz (2022), Penteado (2026), Grandchamp (2022), Teixeira (2026) e DIAP (2026a). Classificação da autora: direita e centro-direita = PL, União Brasil, PP, Republicanos, Novo e Missão (União Brasil e PP integram o chamado Centrão e foram aqui classificados como centro-direita); centro = MDB, PSD, PSDB, Podemos, Solidariedade, PRD e Avante; campo progressista = PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT. (1) Sete unidades decidem em 25 de outubro: a direita e a centro-direita disputam todas e já têm garantida ao menos uma (Acre); o campo progressista disputa duas (Rio Grande do Norte e Distrito Federal).

O quadro mostra três movimentos simultâneos. A direita e a centro-direita cresceram em todos os níveis, com o salto mais forte no Senado. O centro encolheu, sobretudo no Senado, onde o PSD perdeu dez cadeiras. E o campo progressista, que já era minoritário, foi reduzido nos governos estaduais — de sete para, no máximo, cinco governadores — e ficou estagnado na Câmara e no Senado.

A leitura desses números é direta. Se Flávio vencer, terá uma base favorável na Câmara, no Senado e na maioria dos governos estaduais, inclusive nos estados mais populosos: a direita e a centro-direita — contando União Brasil e PP, partidos do Centrão cuja adesão costuma ser negociada caso a caso — já têm maioria absoluta nas duas Casas e estão a um voto, no Senado, do quórum de emenda constitucional. As propostas que ele anunciou — fim da reeleição, redução da maioridade penal, mudanças no sistema tributário e no Judiciário — dependem justamente de emendas (Leite, 2026). Se Lula vencer, governará com um Congresso no qual o campo progressista ocupa menos de um quarto das cadeiras, com um Senado de maioria conservadora capaz de aprovar ou bloquear indicações ao Supremo e com governadores aliados concentrados quase apenas no Nordeste. A governabilidade, nesse cenário, seria extremamente difícil.

“A extrema-direita cresceu dentro de um governo progressista — e é isso que revela a fragilidade do governo.”

Há, porém, uma conclusão que vai além dos cenários. O mapa dos governadores, da Câmara e do Senado mostra que a extrema-direita cresceu mesmo sob um governo progressista. O núcleo bolsonarista — PL e Novo — passou de 102 para 131 deputados e de 15 para 31 senadores, praticamente dobrando sua presença no Senado. No mesmo período, o campo progressista ficou estagnado: tinha 125 deputados eleitos em 2022 e elegeu 124 em 2026; no Senado, passa de 17 para 16 cadeiras; e, nos governos estaduais, cai de sete governadores para três eleitos no primeiro turno (Queiroz, 2022; Penteado, 2026; Grandchamp, 2022; Teixeira, 2026; Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP, 2026a, 2026b). Quatro anos de governo, com a máquina federal, programas sociais e realizações a apresentar, não foram suficientes para ampliar a base progressista nos estados e no Parlamento nem para conter o avanço do adversário.

Esse é o grande cenário que a eleição de 2026 desenha, e é nele que se vê a fragilidade do governo. A extrema-direita não cresceu apesar da presença de um governo progressista no poder, mas durante ela — o que confirma, no plano institucional, o que o castelo de cristal sugere no plano da escuta: o governo governou, mas não conseguiu converter sua gestão em força política no território, enquanto o adversário organizava, município a município, a sua.

O castelo de cristal: o governo que não leu os municípios

A cartografia do poder informacional não elimina a crítica à própria gestão do governo Lula. Ao contrário, torna-a mais necessária. Minha hipótese é que, no primeiro turno, o governo e sua campanha não leram nem compreenderam o que estava acontecendo nos municípios — e que isso é, antes de tudo, uma questão de gestão de governo, e não apenas de estratégia eleitoral.

“Os relatórios diziam uma coisa; os municípios viviam outra.”

Para nomear esse problema, proponho a imagem do castelo de cristal: uma estrutura de governo que enxerga o país a partir de seus próprios relatórios, interlocutores e critérios de êxito, mas tem dificuldade de reconhecer como a população interpreta sua experiência cotidiana. O cristal sugere transparência; o encastelamento, porém, mantém separados quem decide e quem vive as consequências das decisões. Em minha leitura, o governo ficou encapsulado: dispunha de dados, programas e realizações, mas não conseguiu ler o seu interior — o interior do país, das cidades pequenas e médias, e o interior de sua própria base social, onde a melhora vivida convivia com novas aspirações, frustrações e medos.

Essa dificuldade não começa na campanha. Um governo que acompanha os municípios sobretudo por indicadores de execução — recursos transferidos, programas implantados, obras entregues — pode saber o que fez em cada lugar sem saber o que cada lugar pensa do que foi feito. A campanha herda essa forma de olhar. Houve investimento em impulsionamento — R$ 13 milhões, segundo a própria campanha — e acompanhamento de métricas, o que impede tratar sua atuação digital como inexistente (R7, 2026). Mas ferramentas de medição não substituem a capacidade de escuta. Quem conquistou acesso a bens e direitos quer ampliá-los e garantir sua continuidade; uma comunicação apoiada sobretudo no reconhecimento de trajetória e de entregas fala ao passado, enquanto o eleitor pergunta pelo futuro.

A mudança de liderança em 714 municípios, quase toda em uma única direção, é o indicador mais forte dessa interpretação. Enquanto uma parte da disputa lia cada território com instrumentos de observação contínua, a outra parecia lê-lo a partir do centro. Uso o castelo de cristal como categoria analítica, aplicável a governos de diferentes orientações, e não como juízo sobre pessoas.

O eleitor que deixou Lula: uma questão de política pública

A pergunta que mais me interessa como pesquisadora, depois deste primeiro turno, não é apenas por que Flávio cresceu, mas por que Lula encolheu. O que esperava o eleitor que votou em Lula em 2022 e deixou de votar nele em 2026? O que ele esperava que o governo fizesse e o governo não fez, ou deixou de fazer?

Os números tornam essa pergunta incontornável. Lula teve cerca de 3,4 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022 (Struck, 2026), e sua participação nos votos válidos caiu em 98,2% dos municípios brasileiros (Madeira, 2026). Entre as unidades da Federação, cresceu apenas no Amapá e no Distrito Federal (Struck, 2026). A queda foi maior justamente onde o Estado chega com mais dificuldade: nos municípios com menos de 5 mil habitantes, a perda foi de 7,2 pontos percentuais, mais que o dobro da média nacional, de 3,3 pontos; nos municípios em que a agropecuária responde por mais da metade da economia local, chegou a 8,8 pontos; nas capitais, foi de apenas 0,6 ponto (Lima, 2026). Nos municípios com maior cobertura do Bolsa Família, a queda foi praticamente igual à dos municípios com menor cobertura — cerca de 4 pontos em ambos (Madeira, 2026).

“Flávio cresceu em todas as instâncias sem estar no governo. Quem estava no governo era um governo progressista.”

Os indicadores econômicos tornam a pergunta ainda mais intrigante. Em 2026, o desemprego caiu para 5,4% no segundo trimestre, e a renda média real ficou acima da registrada um ano antes (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, 2026b); a inflação acumulada em doze meses recuou para 4,22% em agosto (IPCA […], 2026). Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias bateu recorde: em março, 80,4% tinham dívidas e 29,6% estavam com contas em atraso (Barreto, 2026); e a informalidade alcançava 37,4% dos ocupados (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, 2026b). Os números agregados da economia melhoraram; a vida financeira de muitas famílias, nem tanto. Pode estar aí parte da distância entre o que o governo mostrava e o que as pessoas viviam.

As pesquisas de opinião ajudam a ver quais urgências pesaram. No início de setembro, a violência era a principal preocupação para 31% dos eleitores, muito à frente da economia (16%), da saúde (14%) e da corrupção (14%) (Quaest […], 2026). Em agosto, o Datafolha mostrava Lula à frente entre mulheres, católicos, pretos e eleitores com renda de até dois salários mínimos, e Flávio à frente entre evangélicos e entre quem ganha mais de dois salários mínimos (Schroeder, 2026). A segurança pública, tema central do discurso da extrema-direita, aparece assim como uma das urgências que podem ter pesado mais do que a defesa da democracia — e como uma área em que o governo não conseguiu oferecer uma resposta que o eleitor reconhecesse.

Esse último dado é revelador. Ele indica que a perda não se explica apenas pela ausência de políticas de transferência de renda: onde elas chegaram com mais força, Lula perdeu quase tanto quanto onde chegaram menos. Há algo acontecendo no plano das políticas públicas — na forma como chegam, no que deixam de atender, nas expectativas que não acompanham — que os dados agregados não revelam, mas que nenhuma explicação séria pode ignorar. Pode haver o efeito do algoritmo, da segmentação, do dinheiro e do apoio internacional; mas não posso, como pesquisadora, atribuir o resultado apenas ao adversário. Flávio cresceu em todas as instâncias — nos municípios, nos estados, na Câmara e no Senado — sem estar no governo. Quem estava no governo era um governo progressista. Essa é a grande questão que esta eleição coloca.

Os dados municipais não mostram como votou cada pessoa, nem por que mudou de voto (Madeira, 2026). Responder a essa pergunta exige voltar a campo e ouvir o eleitor que deixou Lula: o que ele esperava, o que deixou de receber, o que passou a desejar. É essa a pergunta que orientará a próxima etapa desta pesquisa. E é também nesse eleitor que se decide o segundo turno: é nele que Lula pode recuperar terreno ou perder ainda mais.

PARTE III

O segundo turno

Quando o adversário vira inimigo — o modo de pensar em ação: a violência política como risco, os incêndios e as ameaças, e a mobilização estudantil que se tornou alvo.

Violência política: o que 2018 e 2022 ensinam

A preocupação com a linguagem de incêndio, apresentada na segunda parte, não é abstrata. A eleição de 2018 foi marcada por violência política. Na madrugada seguinte ao primeiro turno daquele ano, em Salvador, o mestre de capoeira Moa do Katendê foi morto com doze facadas depois de declarar seu voto; o inquérito da Polícia Civil da Bahia concluiu que o crime foi motivado por divergência político-partidária (Inquérito […], 2018). Em julho de 2022, em Foz do Iguaçu, o guarda municipal e dirigente do PT Marcelo Arruda foi assassinado durante sua festa de aniversário pelo então policial penal Jorge Guaranho, apoiador de Bolsonaro, condenado em 2025 a 20 anos de prisão (Júri […], 2025).

Nas fontes que consultei, não identifiquei episódio de gravidade comparável associado ao primeiro turno de 2026. Minha hipótese é que a passagem para o segundo turno pode alterar esse quadro. Quando a disputa se polariza entre dois nomes e a diferença é pequena, a hostilidade contida tende a encontrar mais ocasiões para se manifestar. A arma que estava escondida nos bastidores pode voltar à cena.

Incêndios e ameaças nas universidades

Nesta semana, a linguagem de incêndio ganhou uma dimensão que ultrapassa a metáfora. Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), três incêndios ocorreram em pouco mais de uma semana: em um laboratório do Departamento de Física, em 30 de setembro; no Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, em 5 de outubro; e, na noite de 7 de outubro, no prédio da antiga Diretoria de Inovação e Empreendedorismo, que abrigava laboratórios de fármacos, inovação terapêutica, informática e genética e amostras de pesquisas sobre câncer, obesidade, Covid-19, TDAH e autismo. O reitor estimou o prejuízo em cerca de R$ 100 milhões. Não houve vítimas, e a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar as causas (Abreu, 2026; Hora do Povo, 2026). Em Teresina, uma área da Embrapa Meio-Norte queimou entre a noite de 5 e o dia 6 de outubro, atingindo cerca de oito hectares de vegetação e parte do Jardim Botânico da cidade; as causas não haviam sido divulgadas (Toledo, 2026).

“Quando o fogo atinge laboratórios e pesquisas de décadas no mesmo momento em que estudantes são ameaçados, o clima de intimidação já produz efeitos.”

Ao mesmo tempo, estudantes passaram a relatar ameaças. O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE) afirmou que estudantes da UFPE receberam, horas antes do incêndio do dia 7, mensagens que falavam em “explodir o departamento” e faziam referência a Flávio Bolsonaro; ele pediu investigação à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (Abreu, 2026; Hora do Povo, 2026). Em 8 de outubro, um veículo do Rio de Janeiro divulgou capturas de tela e áudios atribuídos a grupos de mensagens com referências a “tacar fogo na UFF” e a agredir uma liderança estudantil da Universidade Federal Fluminense; o próprio veículo ressalva que a autenticidade e a autoria do material ainda precisam ser verificadas (Vital, 2026). Até o momento em que escrevo, não há comprovação de relação entre essas mensagens e os incêndios.

É justamente por isso que a investigação é indispensável. Do ponto de vista da pesquisa, o que importa registrar é que, independentemente do que as perícias venham a concluir, o clima de intimidação já produz efeitos sobre quem estuda, pesquisa e se mobiliza.

A mobilização estudantil

A resposta mais visível ao resultado do primeiro turno veio das universidades. Em 5 de outubro, um dia depois da votação, uma assembleia de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, transformou-se em marcha. No dia seguinte, a União Nacional dos Estudantes (UNE) aprovou apoio a Lula no segundo turno e anunciou uma mobilização permanente até o dia da votação (Xavier, 2026). Em 7 de outubro, milhares de estudantes marcharam no centro do Rio de Janeiro; segundo a Associated Press, uma das participantes disse lutar “pelo Brasil, não por Lula”, vestindo a camisa verde e amarela para reivindicar as cores nacionais (Hughes, 2026). Nos dias seguintes, o movimento se espalhou por universidades de todas as regiões do país, de Salvador a Porto Alegre, de Belém a Brasília, organizando assembleias e atos em pelo menos quinze estados e no Distrito Federal (Passos, 2026).

As pautas declaradas vão além do voto: financiamento da educação pública, assistência estudantil, manutenção do Pé-de-Meia, fim da escala 6×1, soberania nacional e oposição a uma eventual anistia a Jair Bolsonaro (Passos, 2026; Xavier, 2026). Para esta pesquisa, a mobilização interessa por duas razões. Ela recoloca a juventude universitária como sujeito político. E ela expõe esses estudantes, ao mesmo tempo, à reação descrita acima. A sequência — mobilização, ameaça, incêndio — é exatamente o tipo de configuração em que a linguagem de incêndio pode deixar de ser metáfora. Os estudantes que se mobilizam deixam de ser vistos como adversários em uma disputa democrática e passam a ser tratados como inimigos.

Um segundo turno tensionado

Escrevo este texto na primeira semana após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Flávio terminou a votação com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos (Tribunal Superior Eleitoral, 2026). Mais de 33 milhões de eleitores, 21,07% do eleitorado, não compareceram às urnas; somados aos votos brancos e nulos, são cerca de 39,1 milhões de pessoas que não escolheram nenhum dos candidatos (Omena, 2026). Tudo pode acontecer daqui até 25 de outubro.

O que os dados desta semana permitem antecipar é um segundo turno tensionado. De um lado, uma mobilização juvenil e sindical que se organiza nas universidades e nas ruas de todo o país. De outro, uma reação que se manifesta nas redes — a ágora desta campanha — e que, em alguns casos, já assume a forma de ameaça. Entre os dois, uma candidatura que se apresenta de modo contido, mas cujos sinais públicos — Ustra nos metadados, a “redemocratização” no discurso — indicam que a arma não saiu do projeto.

Os cenários não são simétricos. Flávio encontrou um caminho: um nicho territorial e social, uma linguagem ajustada a ele e um apoio internacional que, em minha leitura, expressa a presença crescente dos Estados Unidos — um império que vem estendendo suas garras sobre a política brasileira. Lula, em contrapartida, tem uma chance pequena, mas real. Pelo que os dados do primeiro turno indicam, uma reversão dificilmente ocorreria sem uma mudança na própria estrutura da campanha, na forma de ler e de falar com os municípios onde perdeu terreno. E, mesmo vencendo, enfrentaria o Congresso descrito acima.

PARTE IV

Reflexão, discussão e conclusão

O que o texto permite afirmar sobre como pensam os eleitores da extrema-direita, o que ainda está em aberto e o que esperar do segundo turno.

Reflexão e discussão

Desde 2018, minhas pesquisas mostram o uso das redes sociais articulado a disposições autoritárias e a relações presenciais de poder. Em 2026, esse quadro se aprofundou: uma capilaridade municipal sustentada por uma infraestrutura de observação e de segmentação que poucos atores podem acessar, e uma linguagem que contém a agressividade no palco sem abandoná-la nos bastidores. Não atribuo o avanço de Flávio exclusivamente ao algoritmo nem a apoios externos. Ele encontra sustentação em um Brasil marcado pela herança escravocrata, pelo racismo, pelo patriarcado e pela defesa de privilégios. A recomposição parlamentar, o desgaste de lideranças evangélicas tradicionais e a ascensão de novos representantes bolsonaristas precisam ser lidos em conjunto.

Desde 2018, é da democracia que estamos falando

O título deste texto fala em um projeto da extrema-direita contra a democracia. Não o uso como figura de retórica, mas como síntese do que as pesquisas vêm mostrando desde 2018. Naquele ano, ouvi eleitores reivindicarem o direito de andar armado e de matar. Em 2022, encontrei o silêncio constrangido, a coerção religiosa e a desinformação nos grupos de mensagens. Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos Três Poderes foram invadidas, e a tentativa de golpe foi levada ao Supremo Tribunal Federal. Em 2026, o herdeiro desse campo fala em “redemocratizar” o país. São momentos diferentes de uma mesma relação com a democracia: tolerada quando favorece, contestada quando impõe limites e agora reivindicada como algo a ser refeito.

“A democracia é a condição para que os historicamente excluídos possam disputar o poder.”

Isso importa tanto no Brasil porque a nossa democracia é recente e foi conquistada. Depois de 21 anos de ditadura, entre 1964 e 1985, a Constituição de 1988 reconheceu direitos sociais, a igualdade racial e de gênero e a participação popular como fundamentos da República. Em uma sociedade formada pela escravidão, a democracia não é apenas um regime de eleições: é o que permite que negros, mulheres, pobres, indígenas e pessoas LGBTQIA+ disputem o poder, reivindiquem direitos e sejam reconhecidos como sujeitos. Por isso, um projeto que fragiliza a democracia é, no fundo, um projeto de restauração da ordem hierárquica descrita na primeira parte deste texto. Defendê-la não é defender um governo ou um partido; é defender as regras que permitem que governos e partidos mudem pelo voto, que as minorias sejam protegidas mesmo quando perdem, que a imprensa, as universidades e a ciência funcionem sem medo, e que a divergência não seja tratada como crime. São exatamente esses espaços — as universidades em chamas, os estudantes ameaçados, o Supremo na mira de uma maioria parlamentar — que aparecem sob pressão nesta eleição.

A tese central

À luz dos fatos aqui reunidos — a recusa de passar a faixa em 2022, o 8 de janeiro e a condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado, a promessa de anistiá-lo, a indiferença diante do golpe que não se consumou, a recusa em se comprometer com o resultado das urnas, o elogio a Ustra, a promessa de “redemocratizar” o país e a maioria conservadora no Congresso —, sustento que o projeto de Flávio Bolsonaro é fragilizar a democracia tal como a Constituição de 1988 a definiu. Não tenho a leitura de que esse campo será paciente ou moderado. A eleição é a porta de entrada; o que vem depois pode ser a mudança das regras — menos alternância, menos limites ao poder de quem governa, menos proteção para quem diverge — ou, se as regras resistirem, o recurso à força, como Jair Bolsonaro já tentou entre 2022 e 2023. O bolsonarismo nunca escolheu entre o caminho legal e a ruptura: usou os dois. Ao fim desse caminho, abre-se espaço para um Estado de feição dinástica, organizado em torno da família Bolsonaro, com pouco lugar para a diferença.

“Uma democracia que não chega a quem mais precisa dela se torna mais fácil de abandonar.”

Essa tese não dispensa olhar para o eleitor. Para uma parte expressiva do eleitorado, a defesa da democracia não foi decisiva diante de outras urgências: a violência, as dívidas, o trabalho, o futuro dos filhos. Não interpreto isso como desprezo generalizado pela democracia, mas como sinal de que ela foi percebida, por muitos, como distante do cotidiano. O que está em disputa, portanto, é mais do que uma eleição: de um lado, um projeto civilizatório que tem na democracia e no reconhecimento da diferença a sua condição; de outro, um projeto de Estado de feição dinástica e autoritária, alinhado de forma subordinada aos Estados Unidos. É uma leitura que assumo como pesquisadora e como cidadã, e que submeto ao debate.

A meia-culpa que cabe ao governo: o castelo de cristal

Reconhecer a gravidade do projeto da extrema-direita não dispensa uma crítica ao governo; ao contrário, cobrar do governo uma meia-culpa é parte da defesa da democracia. A extrema-direita cresceu durante um governo progressista, e Lula perdeu terreno em 98% dos municípios, inclusive naqueles mais atendidos pelos programas sociais. Os burocratas não entenderam o que os municípios estavam pedindo. O governo acompanhou o país pelos seus próprios relatórios — recursos transferidos, programas implantados, obras entregues, desemprego em queda — e confundiu o que fez com o que as pessoas viveram. A Esplanada dos Ministérios não desceu do seu pedestal. Ficou encastelada em um palácio de cristal: transparente para quem estava dentro, opaco para quem estava fora.

“A Esplanada não desceu do seu pedestal.”

Não basta, por isso, denunciar o projeto do adversário, nem atribuir o resultado do primeiro turno apenas às plataformas, ao dinheiro ou ao apoio internacional. Enquanto a extrema-direita lia cada município com instrumentos de observação contínua e com uma linguagem próxima do cotidiano, o governo falava a partir do centro, com a linguagem das entregas, a um eleitorado que perguntava pelo futuro. Defender a democracia exige também uma gestão capaz de escutar — e foi essa escuta que faltou.

O maior risco desta eleição

Em menos de uma década, o bolsonarismo fez três movimentos rumo ao poder. Em 2018, chegou a ele pelas urnas. Derrotado em 2022, tentou permanecer pela força: a trama golpista culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, fracassou e foi levada ao Supremo Tribunal Federal. Em 2026, com o líder preso (Castro, 2025c), o mesmo campo conquista o Congresso, amplia sua presença no Senado e nos governos estaduais e lança o filho à Presidência. É a primeira vez que reúne, ao mesmo tempo, um candidato competitivo e maioria parlamentar. E nada indica que tenha abandonado a disposição de usar a força: o golpe que fracassou é tratado com indiferença, e seus condenados recebem a promessa de perdão.

“2018 pelas urnas, 2023 pela força, 2026 pelo herdeiro.”

É esse o maior risco desta eleição: perder a democracia pela porta da democracia. Entrar pelo voto e pela maioria parlamentar, e, uma vez dentro, dispor de todos os meios — a reforma das instituições, a captura dos árbitros e, se preciso, a força — para não sair mais. E, desta vez, a situação é diferente de 2018. Naquele ano, ainda era possível dizer que se votava em um candidato de fora do sistema, sem saber exatamente o que viria. Em 2026, depois de um governo, de uma tentativa de golpe e da prisão de seu líder, ninguém pode alegar desconhecimento do projeto em disputa. Isso não significa que todos o desejem: minhas pesquisas mostram que muitos escolhem por necessidade, por medo ou por fé, e não por adesão ao autoritarismo. Mas significa que a escolha já não pode ser atribuída ao engano.

Este texto não encerra uma investigação: registra um momento dela. Desde 2018, acompanho eleitores e eleitoras de Jair Bolsonaro em uma cidade periférica do Distrito Federal. Nesse percurso, observei a passagem da ostentação ao silêncio constrangido e, agora, a uma encenação contida que não abandona a violência, apenas a desloca para os bastidores. Em 2026, não pude voltar a campo, e as hipóteses aqui apresentadas ainda precisam ser confrontadas com a escuta das pessoas. Retomar o campo depois desta eleição será a continuidade natural deste trabalho: voltar a ouvir quem vota, com a escuta que a psicanálise ensina a sustentar, mesmo diante do que nos assusta.

Por que esse voto transitou? Um mapa para reflexão

A questão que esta eleição deixa é simples de formular e difícil de responder: por que alguém que votou em Lula em 2022 deixou de votar nele em 2026? Por que esse voto transitou — e transitou para um candidato que, sem o sobrenome Bolsonaro, seria um desconhecido para a maior parte do país? A mudança nos municípios foi radical demais para ser explicada por uma causa só, e eu não tenho, neste artigo, como responder. Não fiz pesquisa de campo sobre isso e não sei qual fator pesou mais. A queda não se concentrou apenas nas regiões do agronegócio; ocorreu em quase todo o país, inclusive onde a política pública chegou. É isso que inquieta. Essas questões dão continuidade à pergunta que orienta minha pesquisa desde 2017 — quais são as motivações do voto na extrema-direita —, agora diante de um fenômeno novo. Em vez de respostas, deixo um mapa de hipóteses para reflexão, que considero necessárias para compreender o segundo turno e para a pesquisa que virá.

“Por que alguém que votou em Lula em 2022 deixou de votar nele em 2026? Por que esse voto transitou?”

Por que esse voto transitou? Hipóteses para reflexão

  • O orçamento secreto e as emendas: o dinheiro federal chegou aos municípios em volume recorde, mas pelas mãos de deputados e prefeitos. O eleitor reconheceu o governo como responsável por esses recursos, ou reconheceu o deputado e o prefeito? Esta pode ser uma das respostas mais importantes.
  • O algoritmo e a comunicação segmentada: que mensagens chegaram a cada município, por quais canais e enviadas por quem? Quem lia o território com dados, e quem falava a ele sem lê-lo?
  • A idade dos candidatos: Lula completa 81 anos em outubro de 2026; Flávio tem 45. Em que medida a idade, a promessa de renovação e um possível etarismo pesaram na escolha?
  • O antilulismo e o antipetismo: quanto da mudança se deve a uma rejeição a Lula e ao PT, alimentada pela campanha adversária, mais do que a uma adesão a Flávio?
  • A política pública: os programas do governo chegaram a esses municípios. Como chegaram, a quem atenderam e a quem deixaram de fora? O que o eleitor reconheceu como resultado do governo?
  • A economia das famílias: por que um país com desemprego baixo e inflação controlada tem famílias endividadas como nunca, e como essa distância pesou no voto?
  • A segurança: se a violência era a principal preocupação dos eleitores, que resposta o governo ofereceu, e que resposta o eleitor ouviu do outro lado?
  • As lideranças locais e a religião: que papel tiveram prefeitos, vereadores e pastores na formação do voto nas cidades pequenas, e como a autoridade das igrejas se combinou com a dos influenciadores digitais?
  • O governo e a escuta: quem, no governo, ouvia os municípios pequenos, e o que se perdia no caminho até Brasília?
  • A democracia no voto: por que a defesa da democracia, depois do 8 de janeiro e da condenação de Jair Bolsonaro, pesou tão pouco para tantos eleitores?

A pergunta que se espera responder no futuro é: o que esperava o eleitor que votou em Lula em 2022 e deixou de votar nele em 2026? O que ele pediu e não foi ouvido? Essa não é apenas uma pergunta de pesquisa; é também a pergunta que decide o segundo turno. É nesse eleitor — nos municípios pequenos, no interior, nas regiões em que o governo perdeu terreno — que Lula pode reconquistar a vitória ou perder ainda mais.

Conclusão

Volto à pergunta que orienta esta pesquisa: como pensam os eleitores da extrema-direita? Este texto permite afirmar três coisas.

A primeira: o modo de pensar que encontrei em 2018 e em 2022 — a hierarquia, a intolerância à diferença, o adversário tratado como inimigo — não desapareceu. Passou da ostentação ao silêncio e, agora, a uma encenação contida, mas se mantém e se espalhou pelo território. Para muitos desses eleitores, a defesa da democracia não foi decisiva diante de outras urgências.

A segunda: esse modo de pensar sustenta um projeto que não demonstra respeito pela democracia. O bolsonarismo recusou-se a passar a faixa, tentou um golpe, trata essa tentativa com indiferença e promete perdoar os condenados — e cresceu em todas as instâncias, nos municípios, nos governos estaduais, na Câmara e no Senado, mesmo com um governo progressista no poder.

A terceira: o maior risco desta eleição é perder a democracia pela porta da democracia — chegar ao poder pelo voto e, de dentro, fragilizá-la, pelas regras ou pela força.

O que ainda não se sabe é como o eleitor vai decidir. O segundo turno, em 25 de outubro, dirá. É preciso esperar o resultado e ver o que acontece — e, depois dele, voltar a campo para ouvir quem vota. É o que esta pesquisa fará.


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Vanessa Maria de Castro é professora e psicanalista. Pesquisa a extrema-direita brasileira desde 2017.

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