Primeiro como tragédia, depois como farsa: a construção de uma farsa

 



Primeiro como tragédia, depois como farsa: a construção de uma farsa



Vanessa Maria de Castro

Brasília, 9 de março de 2026

“A história se repete: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”

— Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852)


É difícil não lembrar dessa formulação diante do que o Brasil já viveu com a chamada Operação Lava Jato e dos modus operandi que hoje aparecem associados à atuação do ministro do STF André Mendonçae de seu gabinete nas frentes que envolvem o INSS e o Banco Master — instituição financeira mencionada no debate público em razão de possíveis conexões políticas com setores da extrema-direita.


Novamente surgem elementos que lembram aquele período: seleção de alvos investigativos, apagamento ou menor visibilidade de determinadas conexões do caso, vazamentos seletivos e a construção progressiva de narrativas públicas de forte caráter moralizante. Esse processo costuma ganhar grande repercussão no sistema midiático. No debate público recente, chama atenção o papel de grandes veículos de comunicação — especialmente a Rede Globo — na amplificação dessas narrativas, fenômeno que também foi amplamente discutido durante o período da Lava Jato ao longo da década de 2010.


Conflito político é parte normal da democracia. Como observa Giorgio Agamben, o problema surge quando os próprios dispositivos jurídicos passam a ser mobilizados de modo a produzir situações de exceção dentro da aparência de normalidade institucional (AGAMBEN, 2003). O risco não está na existência de posições políticas no interior das instituições, mas na possibilidade de que procedimentos jurídicos sejam instrumentalizados para produzir efeitos políticos específicos.


Nesse cenário, também é importante evitar simplificações: o ministro Alexandre de Moraes não possui trajetória vinculada à esquerda. Ainda assim, tornou-se alvo preferencial de setores da extrema-direita justamente por ter conduzido institucionalmente os processos relativos aos ataques de 8 de janeiro e à tentativa de ruptura da ordem democrática.


Oito anos depois da prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, e novamente em um ano eleitoral, a reaparição de dinâmicas semelhantes suscita preocupações sobre possíveis impactos institucionais no debate público e no processo político.


Como lembrava Hannah Arendt, processos autoritários muitas vezes não começam com a ruptura aberta da legalidade, mas com o uso estratégico das próprias instituições para fins de poder (ARENDT, 1951). Também se observa o que Pierre Bourdieu descreveu como poder simbólico: a capacidade de impor determinadas interpretações da realidade como evidentes, ocultando as relações de força que as sustentam (BOURDIEU, 1989). Em termos institucionais, isso dialoga ainda com o alerta de Carl Schmitt sobre como decisões jurídicas podem ser capturadas por disputas de poder (SCHMITT, 1922). E, como advertia Walter Benjamino próprio direito pode tornar-se instrumento de violência quando passa a preservar determinadas estruturas de poder (BENJAMIN, 1921).


Talvez por isso a observação de Marx permaneça tão atual: a história se repete — primeiro como tragédia, depois como farsa.


Mais do que a repetição de episódios isolados, o que parece emergir é a reativação de um método político-jurídico de produção de crise, no qual investigações, vazamentos e narrativas públicas passam a operar como instrumentos de reorganização do campo político.


Referências


AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2003.


ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1951.


BENJAMIN, Walter. Para uma crítica da violência. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1921.


BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.


MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. 1852.


SCHMITT, Carl. Teologia política. 1922.

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