Sociedade da Aparência: Endividamento, ilusão de mobilidade social, sofrimento e política no Brasil

 



Sociedade da Aparência: Endividamento, ilusão de mobilidade social, sofrimento e política no Brasil 

Vanessa Maria de Castro

Da Série: Cadernos de Estudo

Brasília, abril de 2026


Introdução

Em fevereiro de 2026, 80,2% das famílias brasileiras estavam endividadas, o maior índice da série histórica (CNC, 2026a). Este dado não é apenas um reflexo da crise econômica; ele revela os mecanismos profundos que sustentam a dinâmica social e psíquica do endividamento. Por que tantas pessoas se endividam de forma crônica para sustentar padrões de consumo que não condizem com sua renda real? A hipótese central é que o endividamento no Brasil contemporâneo expressa, de forma estrutural, os mecanismos de uma “sociedade da aparência” — um regime social que impõe um modelo de vida e uma identidade que o sujeito tenta incorporar, mesmo que esta não corresponda à sua realidade material.

Nesta sociedade, a aparência vai além do físico ou do consumo superficial. Ela envolve uma construção simbólica e performática de identidade, estendendo-se ao modo de falar, aos comportamentos, à adesão a padrões culturais e à busca por um status social idealizado. O indivíduo não apenas adota um estilo de vida, mas busca uma projeção de si mesmo que corresponda aos padrões impostos pela elite, frequentemente endividando-se para sustentar essa imagem. A sociedade da aparência é, portanto, um fenômeno cultural e social no qual a busca por pertencimento a um ideal de classe superior leva à construção de uma identidade fictícia, sustentada por consumos e práticas sociais que não condizem com as condições reais do sujeito.

Essa dinâmica não é recente no Brasil. O país sempre foi caracterizado por uma divisão estrutural profunda, onde uma elite social exerce controle absoluto sobre as dinâmicas de distinção e segregação. Ao longo da história, enquanto grande parte da população vivia sem acesso a direitos trabalhistas básicos, as desigualdades de classe se tornaram mais visíveis. Hoje, esses marcadores são sustentados por instrumentos e símbolos que delimitam quem pode acessar o quê. A elite também faz parte da sociedade da aparência: ela performa sua classe à vista de todos, mas, diferentemente das camadas populares, não precisa se endividar para sustentar seus signos de distinção. Para a elite, a aparência é afirmação de poder; para os que buscam ascender, é endividamento e sofrimento.

O conceito de sociedade da aparência difere da sociedade do espetáculo de Guy Debord (1997). Enquanto Debord focaliza a crítica à mídia e à transformação da vida social em espetáculo contemplativo, o conceito aqui desenvolvido enfatiza um mecanismo mais específico e estrutural: a identificação de classe via endividamento e consumo financiado. Não se trata apenas de contemplar imagens, mas de endividar-se para sustentar uma identidade de classe que não se possui. O espetáculo de Debord é midiático; a sociedade da aparência é identitária e financeira — ela se ancora no cartão de crédito, no carnê, no financiamento, e não apenas na tela.

Para compreender essa engrenagem, o ensaio articula três dimensões analíticas. A primeira é socioeconômica: o endividamento recorde, a centralidade do cartão de crédito (85% das famílias endividadas), os lucros históricos do sistema financeiro (Itaú: R$ 46,8 bilhões em 2025) e a concentração de renda (1% mais rico detém 37,3% da riqueza nacional). A segunda é subjetiva e psicanalítica: por meio dos conceitos de identificação, Ideal do Eu e Eu Ideal em Sigmund Freud, e do estádio do espelho em Jacques Lacan, o ensaio mostra como o sujeito se apega narcisicamente a uma imagem de classe superior, consumindo não pelo uso do objeto, mas pelo reflexo que o objeto devolve de si mesmo. A terceira é política: a identificação ilusória com a classe dominante produz uma alienação política na qual o sujeito endividado passa a defender interesses que o asfixiam, tornando-se terreno fértil para a captura do ressentimento por discursos autoritários.

Reconhece-se, no entanto, uma ambiguidade central. Em um país estruturalmente desigual como o Brasil, a adoção de certos códigos de vestuário, linguagem ou consumo não pode ser reduzida apenas à alienação ou à ilusão. Para um jovem periférico, vestir-se de determinada maneira pode ser, antes de tudo, uma estratégia de sobrevivência — uma tentativa de não ser discriminado, de conseguir um emprego, de circular em espaços hostis sem carregar os signos racializados da precariedade. A sociedade da aparência opera simultaneamente como prisão e como ferramenta ambivalente de navegação social.

O Relatório de Cidadania Financeira 2025, divulgado pelo Banco Central em abril de 2026, trouxe pela primeira vez dados segmentados por gênero e raça que expõem a face mais perversa dessa engrenagem. Entre a população de baixa renda inscrita no Cadastro Único, mulheres negras pagam as maiores taxas de juros do país, chegando a 140% ao ano, enquanto homens brancos na mesma base pagam 97% (Banco Central, 2026). A diferença de 43 pontos percentuais não é um acidente nem uma falha técnica; é a expressão numérica de um sistema financeiro que opera ativamente sobre as desigualdades raciais e de gênero preexistentes. Este dado atravessa todo o ensaio como um lembrete de que a sociedade da aparência não é apenas uma armadilha psicológica, mas também uma máquina de reprodução da desigualdade estruturada por raça e gênero.

Ao final, o ensaio conecta o sofrimento produzido pela dívida às disposições políticas em um ano eleitoral decisivo, argumentando que o ressentimento gerado por essa engrenagem pode ser capturado por discursos que redirecionam a raiva contra a estrutura econômica para alvos fabricados, permitindo que o sujeito continue defendendo políticas que perpetuam a desigualdade — na esperança vã de que, preservando o sistema, preservará também a aparência de pertencer ao topo da pirâmide social.

1. Endividamento e cartografia da desigualdade no Brasil

O endividamento no Brasil não é um fenômeno homogêneo. A cartografia da dívida desenha um país dividido não apenas por renda, mas por gênero, raça, idade e território.

A distribuição regional revela desigualdades significativas. As regiões Sul e Sudeste, mais prósperas, concentram 70% da população endividada em números absolutos, com maior acesso a crédito diversificado. Já as regiões Norte e Nordeste enfrentam desafios estruturais mais graves: acesso restrito ao crédito, taxas de juros mais altas e infraestrutura financeira precária. O comprometimento da renda com despesas financeiras chega a 80,5% no Norte e 78% no Nordeste, contra 71,9% no Sul e 72,7% no Sudeste (Serasa Experian, 2025). A distância entre a maior e a menor média regional de renda é de R$ 1.627, o que significa que as regiões com menor renda destinam maior parte do orçamento ao pagamento de dívidas, reduzindo drasticamente a margem de manobra.

O quadro de inadimplência confirma essa geografia da exclusão. O país tem 74 milhões de pessoas com dívidas em atraso, e 86,41% são devedores reincidentes (CNDL/SPC Brasil, 2026). Quando se observa o percentual da população inadimplente em relação à população total da região, o Centro-Oeste (47,62%) e o Norte (47,25%) lideram o ranking, seguidos por Nordeste (44,85%), Sudeste (44,36%) e Sul (39,75%). A reincidência de 86% indica que o endividamento não é pontual, mas crônico e estrutural.

Na faixa etária, os jovens entre 18 e 29 anos são os mais vulneráveis. Cerca de 35% estão endividados, muitos por meio de cartões de crédito e empréstimos pessoais para sustentar uma imagem de ascensão apesar da renda baixa. Capturados pela sociedade da aparência e pelo imperativo da visibilidade digital, transformam consumo de curto prazo em endividamento crônico. Os jovens pagam as taxas mais altas do mercado porque não têm histórico de crédito, porque trabalham na informalidade, porque são percebidos como risco — e esse risco é precificado. As pessoas com 60 anos ou mais, embora com menor nível de endividamento (cerca de 10%), enfrentam dificuldades específicas: o crédito consignado compromete a renda fixa de aposentados e pensionistas, revelando uma transferência de renda da previdência para o setor financeiro.

As mulheres são as mais afetadas, representando 54% das pessoas com dívidas em atraso (Senado Federal, 2024a). Essa disparidade não é falha de gestão individual, mas reflexo da sobrecarga feminina na administração da escassez familiar, do trabalho doméstico não remunerado e do cuidado com a família. A dívida feminina é uma dívida coletiva: o que aparece no nome da mulher é o custo da reprodução social de toda a família.

O racismo estrutural aprofunda esse quadro. O Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central prova que o sistema financeiro pune corpos racializados (Banco Central, 2026). Entre a população de baixa renda do Cadastro Único, mulheres negras pagam 140% ao ano, mulheres brancas 128%, homens negros 110% e homens brancos 97%. A diferença de 43 pontos percentuais entre mulheres negras e homens brancos expõe um racismo algorítmico: o sistema penaliza códigos postais de periferias, nomes de bairros negros, escolas frequentadas por pessoas negras. O crédito funciona como pedágio para a cidadania: quanto mais o sujeito se afasta da norma da branquitude, maior o custo para transitar nos circuitos de consumo e reconhecimento.

O endividamento no Brasil é multifacetado: envolve gênero, raça, idade e região. O sistema financeiro não é neutro; opera ativamente sobre as desigualdades preexistentes, aprofundando o fosso entre quem paga 97% e quem paga 140% ao ano. Enquanto o sistema de precificação do crédito continuar a penalizar mulheres, negros, jovens e regiões periféricas, o endividamento deixará de ser um problema contábil para se tornar uma crise existencial e política — onde a promessa de ascensão social via consumo desmorona na inadimplência e no isolamento subjetivo.

2. Sociedade da aparência e ilusão de mobilidade social

É nesse ponto que a sociedade da aparência ganha densidade analítica. Não se trata de reduzir a aparência à frivolidade, mas de compreender uma forma social em que o consumo, a imagem e os signos de distinção passam a mediar a relação do sujeito com seu lugar no mundo. Bens como o carro, a roupa, o bairro, o celular e a estética corporal deixam de ser apenas objetos para se tornarem operadores de legibilidade social.

Pierre Bourdieu (2007) mostrou que o consumo não é neutro: ele distingue, classifica e hierarquiza os sujeitos no espaço social. Em uma sociedade desigual, os bens valem não apenas por seu uso, mas pelo valor simbólico que carregam. Não se compra somente um objeto; compra-se aquilo que ele permite significar. A aparência, nesse contexto, funciona como mediação social da posição ocupada e, ao mesmo tempo, como tentativa de deslocamento imaginário dessa posição.

A hipótese aqui proposta é que o endividamento crescente no Brasil expressa, em parte, uma ilusão de mobilidade social ascendente. Não se trata de negar a existência de dívidas de sobrevivência ou emergência. Trata-se de observar que, em uma estrutura social marcada por desigualdade persistente, o crédito e o consumo operam como promessa imaginária de ascensão. Não há mudança efetiva de classe, mas há investimento em signos de classe. A aparência oferece, assim, uma compensação simbólica diante da dificuldade concreta de deslocamento social.

3. Consumo, distinção e financeirização da existência

A centralidade do cartão de crédito no endividamento das famílias é reveladora. Em fevereiro de 2026, ele foi citado por 85% das famílias endividadas, muito acima de carnês, crédito pessoal e financiamentos (CNC, 2026a). Esse dado não é apenas financeiro: indica que a antecipação do consumo se converteu em um dos mecanismos mais disseminados de sustentação da aparência social.

Michel Foucault (2008), em sua análise sobre o neoliberalismo, fornece uma chave essencial para compreender essa lógica. O neoliberalismo se caracteriza por uma governamentalidade em que os indivíduos se tornam responsáveis pela gestão de suas próprias vidas como se fossem empresas de si mesmos. Nesse regime, a liberdade é ilusória: o sistema impõe limites estruturais não questionados e transfere a culpa do fracasso para o indivíduo, desconsiderando as condições sociais e econômicas que moldam suas possibilidades reais.

Dentro dessa estrutura, o endividamento torna-se um instrumento de auto-regulação. A dívida transforma o futuro em uma obrigação presente, exigindo que o indivíduo antecipe desejos e necessidades para manter uma imagem de sucesso ou pertencimento social. O endividamento não é visto como falha estrutural, mas como problema individual — erro de cálculo, excesso de desejo, incapacidade de autogestão. O sujeito endividado é interpelado a assumir sua condição como resultado de sua própria falha moral e financeira.

Essa dinâmica não é homogênea entre os grupos sociais. Entre famílias com renda superior a dez salários mínimos, o endividamento passou de 65,5% em 2025 para 69,3% em fevereiro de 2026. Já entre famílias com renda de até três salários mínimos, a inadimplência alcançou 38,9%, e 18,6% declararam não ter condições de pagar suas dívidas (CNC, 2026a). Para as camadas mais altas, a dívida pode ser ferramenta de gestão patrimonial; para as classes populares, ela se aproxima da exaustão material e sofrimento.

Zygmunt Bauman (2008) discute como, na sociedade de consumo, os indivíduos são avaliados pela capacidade de exibir valor e integração. A aparência econômica torna-se aparência moral: a dívida fere não apenas o orçamento, mas a imagem social de si, criando uma tensão constante entre a identidade desejada e a realidade material. Esse processo é o cerne da sociedade da aparência.

4. Sofrimento, identificação narcísica e a prisão da aparência

O endividamento não produz apenas restrição material; ele produz sofrimento subjetivo. Sigmund Freud (2010) mostrou, em O mal-estar na civilização, que a vida social é inseparável de renúncia, conflito e angústia. No capitalismo contemporâneo, porém, esse sofrimento assume uma forma específica: já não se impõe apenas a renúncia, mas também a exigência de gozo. O sujeito é convocado a consumir, a mostrar-se satisfeito, a sustentar a imagem de uma vida bem-sucedida, ainda que suas condições reais não comportem essa promessa.

Essa captura subjetiva opera por meio de processos de identificação. Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud (2011) distingue duas formas cruciais para a análise da sociedade da aparência. De um lado, a identificação com o Ideal do Eu — uma instância psíquica que internaliza figuras de autoridade (pai, líder, valores sociais) e orienta o sujeito para padrões socialmente estabelecidos. De outro, o Eu Ideal — uma imagem narcísica, precoce, de perfeição e completude, formada no estádio do espelho, na qual o sujeito se vê como íntegro e desejável. Enquanto o Ideal do Eu aponta para o futuro e para o outro (a lei, o social), o Eu Ideal remete a uma imagem passada e especular de si mesmo.

Na sociedade da aparência, o sujeito busca identificar-se com o Ideal do Eu projetado pelo mercado — um padrão de sucesso (o executivo bem-sucedido, a vida de influenciador) inalcançável pela renda real média. O sofrimento emerge da distância intransponível entre o eu real e esse ideal. Ao mesmo tempo, o Eu Ideal narcísico é constantemente reativado pelas vitrines digitais das redes sociais, que devolvem ao sujeito uma imagem idealizada de si mesmo como bem-sucedido, desejado e íntegro.

Jacques Lacan (1998) aprofunda essa visão em sua teoria do estádio do espelho. O sujeito identifica-se com uma imagem idealizada de si mesmo — o Eu Ideal — que lhe parece íntegra e perfeita, gerando um desejo narcísico de ser reconhecido como bem-sucedido. O mercado, ao oferecer bens de consumo como extensões dessa imagem, promete suturar a falha entre o eu real e o eu idealizado. Como observa Lacan (2008, p. 78), "o objeto é, por natureza, um objeto perdido". A mercadoria comprada via crédito promete uma satisfação que nunca se realiza plenamente. Quanto mais o sujeito consome para sustentar sua imagem idealizada, mais a falta se reatualiza. O cartão de crédito torna-se a ferramenta de uma tentativa vã de suturar a falha entre a imagem social desejada e a precariedade material, relançando o sujeito para o próximo ciclo de dívida. O sujeito consome não pelo uso do objeto, mas pelo reflexo que o objeto devolve de si mesmo.

É preciso reconhecer uma ambiguidade central nesse processo. Em um país estruturalmente desigual como o Brasil, a adoção de certos códigos de vestuário ou consumo não pode ser reduzida apenas à alienação. Para um jovem periférico, vestir-se de determinada maneira pode ser uma estratégia de sobrevivência — uma tentativa de não ser discriminado, de conseguir um emprego, de circular em espaços hostis sem carregar os signos racializados da precariedade. A sociedade da aparência opera simultaneamente como prisão e como ferramenta ambivalente de navegação social.

Essa identificação narcísica com uma classe superior é o motor da ilusão de mobilidade. O sujeito não possui o capital, mas busca possuir o signo. Não há mudança efetiva de posição estrutural, apenas uma identidade fabricada, sustentada pelo consumo financiado. O que chamamos de mobilidade social da aparência é uma identificação simbólica com uma classe superior, movida a narcisismo e sustentada apenas pela imagem. O endividamento é o rastro material dessa tentativa desesperada de sustentar uma identidade que a estrutura econômica nega. Essa identificação atua como uma "prótese de classe": o sujeito não possui o capital, mas possui o signo. O sofrimento subjetivo nasce do conflito entre o eu-que-deve (realidade financeira) e o eu-que-aparece (fantasia narcísica de classe).

Essa dinâmica tem impactos políticos diretos. Ao se identificar narcisicamente com a classe dominante, o sujeito defende os interesses dessa classe, mesmo que colidam com suas necessidades reais. Ele defende o ideal com o qual se identifica, ainda que esse ideal o explore. Na sociedade da aparência, o indivíduo nega sua classe social real e adota os valores da classe que o explora, resultando em uma alienação política onde o sujeito sustenta as próprias engrenagens que produzem seu endividamento e sofrimento.

A dívida não é um acidente de percurso. Ela é a ferramenta e a ferida de uma sociedade que promete ascensão pelo consumo e entrega, no lugar da mobilidade real, apenas o reflexo de si mesmo no espelho do mercado — e a conta para pagar.

5. A Ilusão de Mobilidade e o Preço da Ostentação

O fenômeno da ostentação nas redes sociais deve ser analisado como uma tentativa de mobilidade social constantemente frustrada. Embora as redes sociais forneçam um palco onde qualquer pessoa pode tentar vender uma imagem de sucesso, o preço dessa tentativa é pesado: endividamento, insatisfação, comparação constante e alienação da própria identidade. O sujeito é instigado a construir um capital de aparência que não reflete a realidade de sua posição social, mas apenas uma fantasia de ascensão.

As redes sociais não são apenas espaços de interação; são campos de batalha simbólicos onde a "vida perfeita" é vendida como acessível a todos, mas a estrutura de desigualdade social impede que todos alcancem esse ideal. A ostentação transforma-se em um jogo onde o sujeito busca ser visto e desejado, mesmo que para isso precise se endividar, alterar a imagem corporal ou fazer adaptações artificiais à lógica de consumo.

Ao entrar nesse ciclo, o sujeito perde o contato com sua realidade e se vê consumido pela perpetuação do desejo e da aparência. O espetáculo não visa a satisfação, mas a perpetuação de um estado constante de insatisfação, mantendo o sujeito preso a um ciclo de consumo sem fim, sustentado pela ilusão de uma mobilidade que nunca se concretiza.

Como Byung-Chul Han (2017) argumenta, a sociedade de desempenho leva os indivíduos a acreditarem que são os responsáveis por seu sucesso ou fracasso, pressionando-os a cumprir um ideal impossível de realização. Essa busca constante por perfeição e sucesso nas redes sociais alimenta o consumo e gera um ciclo de insatisfação e ansiedade, onde a verdadeira mobilidade social se torna inalcançável.


6. Bets e fantasia de ascensão

As bets entram nesse quadro como condensação particularmente intensa da ilusão de mobilidade. Segundo o DataSenado, 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais haviam feito apostas esportivas nos 30 dias anteriores ao levantamento de 2024, o equivalente a cerca de 22,13 milhões de pessoas. Entre os apostadores, 62% eram homens, 52% tinham renda de até dois salários mínimos, 56% tinham entre 16 e 39 anos, e 58% estavam com dívidas em atraso havia mais de 90 dias (Senado Federal, 2024a; Senado Federal, 2024b).

Esse fenômeno encontra eco na teoria sociológica de Zygmunt Bauman. Para o autor, a sociedade líquido-moderna é marcada por três medos fundamentais: o medo de não conseguir se sustentar (insegurança econômica), o medo de perder o status social conquistado (insegurança de posição) e o medo de ter a integridade física ameaçada (insegurança existencial) (Bauman, 2008, p. 15-20). No contexto brasileiro de desigualdade estrutural e endividamento recorde, o primeiro medo — o de não conseguir se sustentar — é o mais imediato e paralisante. O sujeito endividado, que já vive sob a pressão de sustentar uma aparência de classe que não condiz com sua renda, vê sua sobrevivência material permanentemente ameaçada.

Ao mesmo tempo, Bauman (2005, p. 40) mostra que a sociedade de consumo marginaliza aqueles que não possuem os meios para nela participar plenamente, classificando-os como consumidores defeituosos — indivíduos que falharam em sua tarefa social primária de consumir e, por isso, são tratados como desperdício humano. O endividado crônico, o inadimplente, o trabalhador precarizado, todos são, em alguma medida, consumidores defeituosos.

As bets surgem como uma resposta desesperada a esse duplo diagnóstico: a promessa de um golpe de sorte que elimina, de uma só vez, a insegurança econômica e reabilita o consumidor defeituoso. Diferentemente da sociedade da aparência, que organiza o consumo parcelado como signo de integração social sustentado por dívidas e pelo tempo do endividamento gradual, as bets radicalizam essa lógica ao oferecer a promessa de ascensão sem mediação — um salto imediato da falta à abundância, um atalho para um novo status sem jamais alterar a estrutura de desigualdade que condena à exclusão.

Esse fenômeno é a expressão da financeirização da esperança, onde o desejo de ascensão é comercializado e convertido em um produto que alimenta ainda mais a insatisfação e a alienação. Ao oferecer a ilusão de que qualquer um pode virar o jogo a partir de um único acerto, as apostas esportivas se tornam mais uma ferramenta de distração e engano, criando um ciclo onde a busca por uma vida melhor é alimentada por falsas promessas. 

7. Gênero e gestão do empobrecimento

A miséria das mulheres não é acidental. Ela é estrutural. A feminização da pobreza designa a presença desproporcional de mulheres entre os pobres em todo o mundo. As mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais a afazeres domésticos e cuidados não remunerados em comparação aos homens, o que dificulta sua inserção no mercado de trabalho formal e as mantém em empregos precários. Quando combinada com o racismo estrutural, essa sobrecarga recai com mais violência sobre as mulheres negras e periféricas.

Juliana Galvão (2015) demonstra que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho é moldada antes mesmo da entrada no mundo profissional, por meio da segregação sexual nos cursos de graduação. Em parceria com Marcelo Medeiros (2015), avalia que não há evidências de que a educação de massa seja um fator relevante para explicar as diferenças entre os ricos e o restante da população. Em Gender Inequality in Lifetime Earnings (2022), revela que as diferenças de gênero no número de horas trabalhadas são mais importantes para as gerações mais jovens.

Nancy Fraser (2020, p. 87) mostra que o trabalho de cuidar, alimentar e sustentar emocionalmente os trabalhadores é condição de possibilidade para a produção de mais-valia, mas permanece invisível e não remunerado: "a reprodução social é o trabalho que constitui os sujeitos humanos e sustenta os laços sociais; sem ela, a produção econômica seria impossível". O capitalismo extrai cada vez mais trabalho gratuito das mulheres, gerando sobrecarga que explode nos momentos de crise econômica e endividamento.

Silvia Federici (2017, p. 115) demonstra que a caça às bruxas na Europa teve como objetivo destruir o controle feminino sobre os corpos, subordinando o trabalho das mulheres à reprodução da força de trabalho masculina. Para Federici (2019), o trabalho doméstico não remunerado é a base oculta do capitalismo. No capitalismo financeirizado, o endividamento opera como disciplinamento: mulheres endividadas são forçadas a aceitar trabalho precário e intensificar o trabalho doméstico.

Rita Segato (2020) mostra que o patriarcado foi agravado pela colonialidade moderna, configurando um patriarcado de alta intensidade. Para Segato (2018), o corpo das mulheres foi a primeira colônia — o primeiro território a ser explorado, estabelecendo o modelo para todas as outras formas de extração de riqueza.

Segato (2003) desenvolve o conceito de mandato de masculinidade: a exigência social imposta aos homens de demonstrarem sua virilidade por meio de sete potências (física, sexual, bélica, econômica, política, intelectual e moral). No contexto do endividamento e das apostas, os homens (62% dos apostadores) buscam no risco da aposta exercer a potência econômica. As mulheres (54% das dívidas em atraso) arcam com a gestão da escassez — uma expressão direta do mandato de masculinidade que transfere o custo material das escolhas masculinas para o trabalho invisível das mulheres.

Segato (2014) introduz o conceito de pedagogia da crueldade: um sistema que dessensibiliza os sujeitos, tornando a violência banal e funcional ao capitalismo. O sistema financeiro que lucra com o endividamento das mulheres e as bets que lucram com a esperança dos homens endividados são exemplos dessa pedagogia: o sofrimento alheio torna-se produto, e a empatia, um obstáculo.

O dano social do endividamento não se distribui de forma homogênea. Quando a renda colapsa, são as mulheres que absorvem o peso da administração da escassez. O paradoxo é cruel: a sociedade da aparência cobra das mulheres uma performance estética e de consumo que as endivida, enquanto o sistema financeiro lucra com essa inadimplência. O endividamento possui, portanto, uma economia de gênero: a gestão cotidiana do empobrecimento recai sobre as mulheres, especialmente as negras e periféricas, que carregam sozinhas o peso da escassez.


8. Raça e o custo da aparência

O Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central, divulgado em abril de 2026, tornou mensurável de forma inédita a dimensão racial do endividamento no Brasil. Ao segmentar os dados por intersecção de raça e gênero, o relatório revelou que mulheres negras de baixa renda (CadÚnico) pagam as maiores taxas de juros do país: 140% ao ano. Mulheres brancas pagam 128%, homens negros pagam 110% e homens brancos pagam 97% (Banco Central, 2026). A diferença de 43 pontos percentuais entre mulheres negras e homens brancos não é um acidente técnico; é a métrica de um sistema desenhado para extrair riqueza do trabalho reprodutivo e da vulnerabilidade feminina racializada.

A tradição do pensamento negro brasileiro — de Lélia Gonzalez e Abdias Nascimento a Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento — já havia demonstrado que o racismo no Brasil não é um conjunto de atos isolados de preconceito, mas uma estrutura que organiza a distribuição de poder, riqueza e acesso. Sueli Carneiro (2023) desenvolveu o conceito de dispositivo de racialidade: o mecanismo social que institui uma hierarquia baseada na cor da pele, elevando a branquitude como norma e subalternizando a população negra por meio de práticas institucionais — incluindo as financeiras. Lélia Gonzalez denunciava o "racismo cordial" que opera de forma velada mas estrutural. Abdias Nascimento demonstrou como o genocídio do povo negro era uma política de Estado desde a abolição incompleta.

No caso do sistema financeiro brasileiro, a segmentação das taxas de juros por raça e gênero não resulta de uma política explícita de discriminação. Resulta de um conjunto de práticas, algoritmos e critérios de avaliação de risco que traduzem em precificação as desigualdades sociais e raciais preexistentes. O efeito objetivo é a transferência sistemática de renda dos tomadores negros para as instituições financeiras. A escravidão não foi um acidente histórico; foi o motor da acumulação primitiva do capitalismo. O sistema financeiro contemporâneo, ao cobrar mais caro de quem já tem menos, atualiza esse padrão histórico de extração.

O relatório do Banco Central (2026) também mostra que as mulheres negras estão mais expostas a modalidades de crédito mais caras: o rotativo e o parcelamento do cartão representam 23% de sua carteira de crédito, enquanto o microcrédito produtivo — que poderia alavancar pequenos negócios — responde por apenas 4%. O endividamento de risco atinge 15,4% das mulheres tomadoras de crédito contra 12,1% dos homens. O sistema financeiro não apenas cobra mais caro da população negra, mas também a direciona para as linhas de crédito mais onerosas e menos produtivas.

A sociedade da aparência adquire uma dimensão adicional sob essa perspectiva racial. A pressão para performar uma imagem de classe — via consumo de bens como televisão, geladeira e celular — recai sobre a população negra periférica com a mesma intensidade que sobre outros grupos sociais. No entanto, o custo do crédito para sustentar essa performance é significativamente maior. O parcelado cobra um preço mais alto de quem já paga mais caro por moradia precária, transporte ineficiente e serviços públicos de pior qualidade.

O que o relatório do Banco Central permite visualizar é a operação concreta do racismo estrutural no sistema financeiro. A diferença de 43 pontos percentuais entre mulheres negras e homens brancos não é uma anomalia. É a expressão numérica de um processo histórico de exclusão e precarização que o sistema financeiro não apenas reproduz, mas também monetiza. O endividamento crônico é uma das formas contemporâneas de perpetuação da desigualdade racial — uma perpetuação que ocorre não apesar do sistema financeiro, mas por meio dele e em benefício dele.

9. A Contradição Estrutural: Endividamento e Lucro no Sistema Financeiro

A sociedade da aparência no Brasil se constrói em uma contradição estrutural. Enquanto milhões de famílias se endividam para sustentar uma aparência de sucesso, o sistema financeiro se beneficia diretamente dessa dívida. O endividamento não é apenas consequência da falta de planejamento financeiro, mas uma estratégia de sobrevivência no contexto de desigualdade estrutural (CNC, 2026a).

Paradoxalmente, enquanto a classe trabalhadora arca com os altos custos do crédito, os bancos brasileiros seguem apresentando lucros históricos. Em 2025, o Itaú Unibanco obteve lucro líquido recorrente de R$ 46,8 bilhões, alta de 13,1% em relação ao ano anterior. O Santander Brasil reportou lucro de R$ 4,08 bilhões no quarto trimestre de 2025, crescimento de 39% (NeoFeed, 2026). Enquanto as famílias endividadas tentam sustentar um padrão de consumo e status, o sistema financeiro lucra com o endividamento.

A elite econômica do Brasil não enfrenta as mesmas dificuldades. O 1% mais rico detém 37,3% da riqueza nacional, enquanto os 10% mais ricos concentram 64,2% da renda do país (Fenati, 2025). Os mais ricos não dependem de endividamento para sustentar seu estilo de vida; preservam sua posição privilegiada enquanto a classe trabalhadora segue imersa em um ciclo de dívidas e frustração.

Essa contradição não é apenas econômica, mas também política. Ao se identificar narcisicamente com a classe dominante — um processo analisado na seção 4 —, o sujeito endividado passa a defender interesses que o asfixiam. Ele defende o ideal com o qual se identifica, ainda que esse ideal o explore. A alienação política gerada por essa identificação impede a verdadeira mobilização das classes trabalhadoras, que muitas vezes defendem políticas que reforçam o sistema financeiro sem perceber que tais políticas prejudicam suas próprias condições de vida.

10. Endividamento e disposição política em 2026

É nesse terreno de contradição que a eleição de 2026 se realizará. A eleição de 2026 será realizada em 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro (TSE, 2026). Não há relação mecânica entre dívida e voto, mas há uma articulação profunda entre o endividamento e a disposição afetiva diante da política. A dívida reorganiza o cotidiano, comprime a renda e intensifica a sensação de fracasso, produzindo um estado de saturação que é terreno fértil para a captura subjetiva.

Nesse campo, o neoliberalismo atua reforçando a culpabilização individual, interpretando a dívida como falha de conduta e não como efeito de uma estrutura que estimula a financeirização da vida. O impacto político mais insidioso, no entanto, reside na identificação narcísica com uma classe social superior. Ao sustentar o Eu Ideal da classe dominante por meio do consumo financiado, o sujeito drena sua própria consciência de classe. Ele passa a defender interesses que materialmente o asfixiam, pois, no plano do imaginário, já não se percebe como parte da massa trabalhadora precarizada, mas como um par dos detentores do capital.

Essa identificação ilusória leva à negação da realidade material e, consequentemente, à negação da luta de classes. O indivíduo adota os valores e ideologias da classe dominante para manter a coesão de sua identidade fabricada. O sofrimento gerado pela dívida é deslocado: em vez de se tornar revolta contra a estrutura econômica — contra os bancos que lucram com juros de 140%, contra as bets que apostam na desgraça alheia —, converte-se em ressentimento contra quem está no poder.

A concentração da dívida entre os jovens aprofunda ainda mais essa dinâmica. Cerca de 35% dos jovens entre 18 e 29 anos estão endividados, muitos com parcelamentos que comprometem 24, 36 ou até 48 meses de sua renda futura. O que significa para um jovem de 22 anos saber que seu salário já está comprometido pelos próximos quatro anos? Significa que ele não consegue projetar. Não consegue planejar. Não consegue acreditar em promessas de governo para daqui a 5 ou 10 anos, porque seu próprio futuro imediato já foi alienado por parcelas. O endividamento não apenas comprime a renda; ele comprime a própria capacidade de imaginar um amanhã diferente. Sem futuro, não há política. Sem futuro, não há projeto de sociedade. Há apenas a gestão da escassez no presente.

Aqui reside o ponto central deste ensaio. O governo implementou políticas sociais relevantes — Desenrola Brasil, renegociação de dívidas, aumento do salário mínimo, programas de transferência de renda. São medidas inegáveis. No entanto, seu retorno político é limitado porque a dívida absorve grande parte do ganho real do trabalhador. O que entra por uma política social, em grande medida, sai pela fatura do cartão de crédito, pelos juros do rotativo ou pela parcela do consignado. A dívida compromete não apenas a renda presente, mas também o futuro. O jovem com parcelamentos de longo prazo tem seu salário futuro já alocado antes mesmo de recebê-lo. O futuro foi roubado antes de chegar.

Roubado por quem? Pelo sistema financeiro que cobra 140% de juros das mulheres negras. Pelos bancos que registram lucros históricos de R$ 46,8 bilhões. Pelas bets que lucram com a esperança dos desesperados. Pela sociedade da aparência que impõe o consumo como condição de pertencimento. E pela extrema-direita que defende este sistema.

O endividado sente a dor. Sabe que algo está errado. O que ele não consegue é identificar o inimigo. O sistema financeiro não tem rosto. O banco não tem endereço. A bet não aparece no noticiário como responsável. O governo, ao contrário, está lá — visível, cobrado, responsabilizado. A transferência de culpa é tão eficaz quanto perversa: o verdadeiro explorador permanece nas sombras; aquele que tenta amenizar a dor torna-se o alvo.

Essa desorientação não é acidental. Ela é produzida. O neoliberalismo privatiza o sofrimento e faz cada um acreditar que sua dívida é resultado de falhas individuais. O inimigo correto permanece invisível. O governo, visível, paga o preço.

E pagará nas urnas. O governo atual, que implementou políticas sociais e tentou resolver o problema, pouco conseguirá fazer diante da magnitude do endividamento crônico. O futuro dos jovens está comprometido por anos. O salário já não lhes pertence. A capacidade de projetar foi roubada. E, no dia da eleição, a raiva — legítima, sentida, vivida — será direcionada para quem está no poder. A extrema-direita, que defende o sistema financeiro e sempre foi adversária das políticas sociais, colherá os votos daqueles que ela ajudou a empurrar para o abismo.

O futuro foi roubado. O tempo não pertence ao jovem. A dívida o tomou. E o voto, no fim das contas, irá para quem o roubou.

Considerações finais

A sociedade da aparência não designa um fenômeno lateral. Ela nomeia uma engrenagem social em que consumo, crédito, desejo, imagem e sofrimento se articulam em torno de uma promessa de ascensão que raramente se realiza. Ao longo deste ensaio, buscou-se demonstrar que o endividamento contemporâneo no Brasil não pode ser reduzido a desordem financeira das famílias ou a falhas individuais de caráter. Ele expressa, antes, a força de uma ilusão socialmente produzida de mobilidade ascendente em uma sociedade desigual que oferece poucos caminhos reais de deslocamento.

A análise percorreu um caminho que vai dos dados macroeconômicos — 80,2% das famílias endividadas, 85% com cartão de crédito, 29,6% com contas em atraso — até as estruturas mais profundas do psiquismo, mostrando como a identificação narcísica com uma classe superior, mediada pelo Ideal do Eu projetado pelo mercado e pelo Eu Ideal reativado pelas redes sociais, transforma o consumo em um drama identitário. O sujeito não compra apenas objetos; compra o reflexo de si mesmo como alguém que aparenta pertencer. O cartão de crédito torna-se a ferramenta de uma tentativa vã de suturar a falha entre a imagem social desejada e a precariedade material, relançando o sujeito incessantemente para o próximo ciclo de dívida.

O que o Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central permitiu visualizar é a operação concreta do racismo estrutural no sistema financeiro. A disparidade de 43 pontos percentuais nas taxas de juros entre mulheres negras (140% ao ano) e homens brancos (97% ao ano) não é uma anomalia estatística. É a métrica de um sistema que historicamente desenhou suas regras de precificação para penalizar corpos racializados e feminizados. Na sociedade da aparência, onde a pressão para performar uma imagem de classe recai com mais intensidade sobre quem já é socialmente vulnerável, esse dado revela a crueldade do mecanismo: o crédito, que deveria ser ferramenta de inclusão, torna-se pedágio para a cidadania — e esse pedágio é mais caro para mulheres negras, jovens periféricos e moradores das regiões Norte e Nordeste.

Reconheceu-se, contudo, que essa dinâmica não é totalizante nem unívoca. Em um país marcado pelo racismo estrutural e pela violência simbólica contra corpos e territórios periféricos, a adoção de certas aparências pode funcionar também como estratégia de sobrevivência — um escudo contra a desqualificação, uma negociação com a desigualdade, um código de navegação em espaços hostis. Essa ambiguidade não invalida a crítica; ao contrário, a torna mais precisa: a sociedade da aparência é perversa justamente porque sequestra até mesmo as tentativas legítimas de proteção e dignidade, transformando-as em novo combustível para o consumo e o endividamento.

A dimensão política dessa engrenagem é talvez a mais preocupante. Ao se identificar narcisicamente com a classe dominante, o sujeito endividado drena sua própria consciência de classe. Ele passa a defender interesses que, materialmente, o asfixiam, pois, no plano do imaginário, ele já não se percebe como parte da massa trabalhadora precarizada, mas como um par dos detentores do capital. O sofrimento gerado pela dívida é, assim, deslocado: em vez de se tornar revolta contra a estrutura econômica — contra os bancos que lucram com juros de 140%, contra as bets que apostam na desgraça alheia —, converte-se em ressentimento contra quem está no poder.

O governo implementou políticas sociais relevantes — Desenrola Brasil, renegociação de dívidas, aumento do salário mínimo, programas de transferência de renda. São medidas inegáveis. No entanto, seu retorno político é limitado porque a dívida absorve grande parte do ganho real do trabalhador. O futuro dos jovens está comprometido por parcelamentos que se estendem por anos. O salário já não lhes pertence. A capacidade de projetar foi roubada. E, no dia da eleição, a raiva — legítima, sentida, vivida — será direcionada para quem está no poder.

A extrema-direita, que não está no poder, ocupa o lugar da oposição. Diferentemente do governo, que precisa apresentar resultados e administrar a complexidade da crise, a extrema-direita pode se limitar a apontar culpados — o governo, os impostos, as minorias, o sistema político como um todo — sem jamais oferecer soluções estruturais. Defensora do sistema financeiro, dos lucros bancários e da financeirização da vida, adversária das políticas sociais, ela colherá os votos daqueles que ajudou a empurrar para o abismo do endividamento.

Aqui reside o risco mais grave. Se o endividamento crônico não for enfrentado em suas causas estruturais — se o sistema financeiro continuar a cobrar 140% de juros das mulheres negras, se as bets continuarem a lucrar com a esperança dos desesperados, se a sociedade da aparência continuar a impor o consumo como condição de pertencimento —, o governo que está no poder perderá a eleição. E mais do que isso: a democracia sofrerá um abalo profundo. Não porque a alternância de poder seja um problema, mas porque a força que levará à alternância não será o debate de projetos, e sim o ressentimento produzido por um sofrimento que o sistema financeiro impõe e a extrema-direita aprendeu a explorar.

O endividamento funciona, assim, como um mecanismo de transferência de culpa: do sistema financeiro para o governo, dos bancos para o trabalhador endividado que vota contra si mesmo. O futuro é roubado. O tempo não pertence ao jovem. A dívida o tomou. E o voto, no fim das contas, vai para quem o roubou.

A sociedade da aparência produz, como seu efeito político mais devastador, a ausência de luta de classes. O endividado crônico não se vê como explorado. Ele se vê como um futuro rico que ainda não chegou lá. Ele não se identifica com o trabalhador ao lado, com o vizinho que também deve, com o colega que também parcela. Ele se identifica com a elite que o explora — com o estilo de vida que não pode ter, com os signos que não pode pagar, com o ideal que o mercado projeta e o endividamento consome. O neoliberalismo, ao privatizar o sofrimento e tornar cada falha individual, dissolve a consciência de classe antes mesmo que ela possa se formar. Não há "nós" contra "eles". Há apenas "eu" contra minha conta, "eu" contra meu cartão, "eu" contra meu próprio fracasso. E nessa solidão, a extrema-direita encontra o terreno fértil para colher os votos de um ressentimento que não sabe para onde ir.

O progressista que evoca consciência de classe não entende que o endividado não quer saber de onde vem. Ele quer o delírio. A fantasia de que um dia será rico é mais suportável do que a realidade de que é explorado. O cartão de crédito, o parcelamento, a vitrine digital — tudo isso alimenta a crença de que a ascensão é questão de tempo, de esforço, de sorte. A consciência de classe, ao contrário, exige que ele reconheça a dor, a exploração, a desigualdade. Exige que ele se veja como pobre, como precarizado, como explorado. E isso ele não quer. A fantasia protege. O delírio acolhe. A revolta, não.

O neoliberalismo está vencendo. Não porque suas ideias sejam boas, mas porque a dívida — ferramenta e ferida da sociedade da aparência — destruiu a capacidade de reconhecer o inimigo comum. E porque a fantasia de ascender é mais poderosa do que a realidade de resistir. Enquanto o endividado acreditar que é um milionário em formação, não haverá revolta. Haverá apenas parcelas. E o sistema, intacto, continuará a lucrar.

Nessa engrenagem, a aparência não elimina a desigualdade. Apenas a administra simbolicamente por algum tempo, enquanto a dívida se acumula, o sofrimento se intensifica e o ressentimento se torna politicamente disponível. O ensaio não oferece respostas fáceis — nem poderia. Mas espera ter contribuído com um diagnóstico lúcido de um dos mecanismos mais insidiosos do capitalismo financeirizado brasileiro: a produção sistemática de uma ilusão de mobilidade que, ao mesmo tempo que aliena o sujeito de sua classe, o prende a um ciclo de dívida e sofrimento do qual o sistema financeiro e as elites políticas saem lucrando.

Se há alguma brecha, ela talvez esteja justamente no reconhecimento dessa armadilha — na possibilidade de, ao nomear a engrenagem, começar a desmontá-la. E na urgência de fazê-lo antes que o ressentimento, canalizado pela extrema-direita, produza um abalo democrático cujas consequências ninguém pode prever.

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Como citar: 

CASTRO, Vanessa Maria de. Sociedade da aparência: endividamento, ilusão de mobilidade social, sofrimento e política no Brasil. Palavra em Transe, Brasília, abr. 2026. (Série: Cadernos de Estudo). Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2026/04/sociedade-da-aparencia-endividamento.html. Acesso em: 

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Autora: 

Vanessa Maria de Castro

Sou Vanessa Maria de Castro, professora da Universidade de Brasília (UnB), psicanalista e pesquisadora, com uma trajetória voltada à análise crítica das dinâmicas políticas e sociais, com ênfase nas suas repercussões para a democracia e os direitos humanos.

Minha grande preocupação, como pesquisadora sobre a extrema-direita, é compreender como o sofrimento produzido por estruturas econômicas e sociais — como o endividamento crônico, a financeirização da vida e a sociedade da aparência — é capturado e transformado em ressentimento politicamente manipulável. A extrema-direita não cria o sofrimento, mas aprendeu a explorá-lo com maestria. Ela não oferece soluções estruturais; oferece bodes expiatórios. E, ao fazê-lo, colhe os votos daqueles que ela mesma ajudou a empurrar para o abismo.

A série Cadernos de Estudo é um espaço de reflexão pessoal e acadêmica, onde me dedico a investigar questões que me interessam no momento. Cada caderno é uma exploração, muitas vezes, sobre temas como o poder econômico global e as suas interconexões com a geopolítica e os direitos humanos. Este ensaio, em particular, é um desdobramento dessa série, no qual busco compreender as forças que moldam o mundo contemporâneo e refletir sobre os desafios éticos e políticos que surgem neste cenário.

A série é uma forma de construir e articular saberes, interligando teoria e prática, e buscando entender melhor o mundo ao nosso redor a partir de uma perspectiva crítica e reflexiva. Neste ensaio, busquei abordar as dinâmicas de poder que moldam a economia global, explorando não apenas as corporações e os Estados, mas também os dados e as informações que controlam a nossa percepção e interação com o mundo.

Os Cadernos de Estudo refletem minha busca contínua por entender os processos que organizam as estruturas de poder e como isso se desdobra nas questões sociais, políticas e de direitos humanos. Este ensaio faz parte dessa trajetória de investigação, onde me proponho a analisar criticamente e conectar esses elementos aparentemente dispersos para construir uma visão mais ampla do cenário geopolítico atual.



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