A realidade negada: identificação, denegação e psicologia das massas na política contemporânea
Série: Caderno de Estudos
A realidade negada: identificação, denegação e psicologia das massas na política contemporânea
Introdução
O presente ensaio investiga, a partir de um quadro teórico psicanalítico e psicossocial, por que grupos sociais aderem e mantêm fidelidade a líderes políticos mesmo quando esses líderes demonstram, de forma objetiva e documentada, comportamentos contraditórios, violentos, corruptos, misóginos, racistas ou agressivos. O argumento central é que tal adesão não é primariamente ideológica ou racional. Ela é estrutural e psíquica, fundada nos mecanismos de identificação libidinal com o líder, formulados por Sigmund Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), de identificação imaginária especular, desenvolvidos por Jacques Lacan em Escritos (1998), de produção de verdade emocional por repetição e símbolo, analisados por Gustave Le Bon em Psicologia das Massas (2013), e de redução da dissonância cognitiva, proposta por Leon Festinger em A Theory of Cognitive Dissonance (1957). O ensaio demonstra que a imagem do líder é construída como contrafactual, não como representação da realidade objetiva, mas como projeção dos desejos, medos e ideais do grupo. A narrativa política sistemática, a ritualização simbólica e as plataformas digitais contemporâneas constituem os principais instrumentos dessa construção. O texto analisa casos concretos da extrema-direita brasileira e situa o fenômeno em uma perspectiva histórica que se estende do século XIX ao presente.
1 LIDERANÇA, MASSA E NEGAÇÃO DA REALIDADE
Um fenômeno recorrente na política contemporânea é a fidelidade demonstrada por parcelas significativas da população a líderes cujas ações, discursos e históricos biográficos violam abertamente preceitos éticos, legais e civilizatórios. O apoio persistente a figuras públicas que manifestam misoginia, racismo, homofobia ou corrupção, ou que adotam posturas violentas e contraditórias, desafia explicações baseadas apenas na racionalidade ou em interesses materiais.
Em 2018, durante a campanha presidencial brasileira, Jair Bolsonaro, candidato com décadas de registros públicos de declarações misóginas, racistas e homofóbicas, que havia sido expulso do Exército por indisciplina e cuja trajetória parlamentar era marcada por baixa expressão legislativa, foi eleito presidente da República com mais de 57 milhões de votos (TSE, 2018). Nos anos seguintes, diante de denúncias de corrupção, de uma gestão da pandemia marcada por intensas controvérsias políticas e sanitárias, e de condutas que contradiziam sistematicamente os valores proclamados pelo próprio presidente, sua base de apoio permaneceu sólida. Em 2022, ele obteve mais de 58 milhões de votos na tentativa de reeleição (TSE, 2022).
Esse fenômeno desafia a análise racionalista: como os eleitores podem apoiar alguém cuja realidade objetiva contradiz tão frontalmente a imagem que projeta de si mesmo? A evidência factual frequentemente não dissolve a adesão. A resposta usual, baseada em ignorância, manipulação ou interesses materiais, é insuficiente para explicar a intensidade emocional, a fidelidade às contradições e a hostilidade que a crítica ao líder desperta nos seguidores.
O presente ensaio propõe que a adesão a líderes contraditórios, violentos ou corruptos não é primariamente um fenômeno de engano ou manipulação. Trata-se de um fenômeno estrutural e psíquico. Ela obedece a mecanismos estudados por Gustave Le Bon (2013), que analisou como símbolos, gestos e repetição consolidam a adesão coletiva; por Sigmund Freud (1921; 1917), que explorou a identificação libidinal com o líder, a projeção da agressividade em inimigos simbólicos e a melancolia coletiva; e por Jacques Lacan (1985; 1998), que concebeu o eu imaginário, o líder como objeto do grande Outro e a função dos símbolos e rituais na manutenção da adesão. Complementa-se essa perspectiva com Leon Festinger (1957), que descreveu a dissonância cognitiva e os mecanismos psíquicos que sustentam crenças coletivas mesmo diante de evidências contrárias.
O argumento central deste ensaio é que, no centro dessa estrutura psíquica, encontra-se a construção da imagem contrafactual do líder. Essa é uma imagem que não corresponde à realidade objetiva, mas que é sustentada por repetição simbólica, ritual coletivo, narrativa política sistemática e mecanismos de defesa psíquica. É essa imagem contrafactual, e não o líder real, que gera identificação, obediência e defesa coletiva.
O ensaio está organizado em sete seções. A seção 2 apresenta os fundamentos teóricos. A seção 3 analisa a construção da imagem contrafactual. A seção 4 examina as liturgias simbólicas e o papel das plataformas digitais. A seção 5 integra a análise em um quadro psicanalítico. A seção 6 traça a perspectiva histórica. A seção 7 apresenta as conclusões.
2 O PROBLEMA TEÓRICO: QUANDO A REALIDADE NÃO IMPORTA
2.1 Gustave Le Bon: alma coletiva, símbolos e verdade emocional
Gustave Le Bon (1841-1931) foi um psicólogo e sociólogo francês considerado pioneiro no estudo da psicologia das massas. Em sua obra Psicologia das Massas (1895/2013), ele descreve como indivíduos inseridos em grupos se comportam de forma distinta de quando isolados. Segundo Le Bon (2013), quando pessoas se reúnem em massa, surge uma alma coletiva. Essa é uma mentalidade emergente que não é apenas a soma das individualidades, mas um fenômeno psíquico próprio, capaz de guiar sentimentos, crenças e ações. Essa alma coletiva amplifica emoções, reduz a racionalidade individual e cria uma forte sugestibilidade, tornando a massa impulsiva, instável e altamente receptiva à influência simbólica.
Le Bon (2013) observa que a massa é mais influenciada por imagens, gestos e símbolos do que por argumentos ou fatos lógicos. Afirmações simples, concisas e repetidas, incorporadas em rituais e gestos coletivos, transformam-se em verdades emocionais que consolidam crenças e orientam comportamentos. O líder que consegue encarnar essas emoções coletivas transforma-se em um símbolo vivo da alma da massa, estabelecendo vínculos de identificação, lealdade e obediência, mesmo diante de contradições ou comportamentos problemáticos.
Entre os princípios centrais que Le Bon (2013) identifica, destacam-se: as massas não respondem prioritariamente à razão; o símbolo vale mais que o argumento; a repetição cria verdade emocional; o líder encarna uma imagem central; a política moderna se organiza por emoção coletiva.
Ele detalha três mecanismos que tornam esses princípios eficazes. O primeiro é o prestígio do líder. A autoridade simbólica do líder supera qualquer argumento racional. Ele condensa e personifica os desejos, medos e esperanças coletivas da massa, tornando-se objeto de identificação. O segundo é a repetição. Ideias, gestos e slogans repetidos criam familiaridade e percepção de verdade. Le Bon (2013, p. 87) afirma: "A afirmação, pura e simples, desprovida de qualquer raciocínio e qualquer prova, é o meio mais seguro para gravar uma ideia no espírito das massas. Quanto mais concisa for uma afirmação, mais desprovida de qualquer aparência de prova e demonstração, mais autoridade ela exerce". O terceiro é o contágio. Estados emocionais se propagam lateralmente entre os membros da massa, dispensando qualquer avaliação racional individual. Emoções coletivas como medo, ódio ou entusiasmo se espalham rapidamente, reforçando a coesão e a mobilização do grupo.
Para Le Bon (2013), a massa é capaz de ações extremas: violência coletiva, perseguição de inimigos simbólicos, destruição de instituições ou imposição de crenças sem base lógica. A identificação com o líder, a repetição de símbolos e o contágio emocional criam vínculos profundos e duradouros, resistentes à crítica e às evidências objetivas. As contradições do líder não enfraquecem a adesão, porque a massa reage à emoção e à identificação simbólica, e não à lógica.
Le Bon (2013) também detalha como a alma coletiva influencia a moral, a ética e o comportamento social. A massa exagera sentimentos, alterna rapidamente entre heroísmo e violência, e interpreta eventos por imagens, não por evidências. A emoção coletiva se torna uma força política capaz de mobilizar, organizar e consolidar o poder. Le Bon (2013) argumenta que líderes eficazes compreendem essa dinâmica e utilizam símbolos, ritualização e repetição para consolidar autoridade, canalizando a energia emocional da massa em objetivos políticos concretos.
Outro aspecto essencial é a construção da imagem do líder. Para Le Bon (2013), o líder não representa fatos ou programas. Ele condensa os desejos e medos difusos da massa em uma figura que serve de referência emocional. Essa imagem permite que o líder seja seguido mesmo diante de comportamentos contraditórios. Gestos simbólicos, slogans repetitivos e rituais de massas são instrumentos que reforçam essa identificação. A narrativa política, quando sistematicamente repetida, torna-se eficaz não por lógica, mas pelo efeito psíquico da familiaridade.
Psicologia das Massas (LE BON, 2013) fornece as bases para compreender como a emoção se sobrepõe à razão na adesão coletiva; como a repetição e o ritual consolidam a verdade emocional; como a massa internaliza símbolos e identifica-se com o líder; e como líderes transformam emoção coletiva em poder político duradouro. A relevância desta obra é histórica e contemporânea. Desde a análise de líderes do século XX até fenômenos atuais de extrema-direita, Le Bon (2013) explica por que a adesão política muitas vezes não se dissolve diante da evidência, e como a combinação de símbolos, rituais e repetição cria vínculos psíquicos que estruturam a lealdade à liderança.
2.2 Nicolau Maquiavel: estratégia e manutenção do poder
Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um pensador, diplomata e historiador italiano cuja obra mais conhecida, O Príncipe (1532/2018), permanece central na reflexão sobre liderança e poder político. Diferentemente de Le Bon (2013), que concentra sua análise na psicologia das massas e na mobilização emocional, Maquiavel (2018) foca na arte de governar, no cálculo estratégico, na manutenção da autoridade e na organização da estrutura política para garantir o poder do líder.
Para Maquiavel (2018), a liderança eficaz depende de pragmatismo, astúcia e capacidade de adaptação. O líder deve conhecer as circunstâncias políticas, avaliar riscos, manipular alianças, controlar instituições e, quando necessário, agir de maneira moralmente ambígua para preservar sua autoridade. O objetivo não é agir segundo princípios éticos universais, mas garantir sobrevivência política e estabilidade do Estado.
A obra de Maquiavel (2018) destaca elementos centrais: a importância do controle estratégico sobre instituições e aliados; a necessidade de compreender o comportamento humano e o contexto político para antecipar desafios; o uso de símbolos, propaganda e autoridade pessoal como instrumentos para consolidar poder; e a flexibilidade moral do líder, que deve priorizar resultados políticos e estabilidade sobre moral convencional.
Enquanto Le Bon (2013) explica como a massa reage emocionalmente e se identifica com o líder, Maquiavel (2018) explica como o líder organiza, articula e mantém o poder dentro de um sistema político e social. Juntos, esses dois pensadores oferecem uma visão completa da liderança: um lado analisa a mobilização emocional das massas, e o outro a manutenção estratégica do poder político.
Essa perspectiva é crucial para compreender fenômenos contemporâneos de liderança política. A fidelidade intensa a líderes contraditórios, observada em diversos contextos históricos e atuais, só pode ser explicada considerando a conjunção entre mobilização emocional e competência estratégica. Essa conjunção mantém o vínculo entre líder e massa mesmo diante de evidências contrárias ou comportamentos incoerentes.
2.3 Sigmund Freud: identificação libidinal e a distorção do julgamento
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Sigmund Freud parte das observações de Le Bon (2013) para oferecer uma explicação do mecanismo que as fundamenta: a identificação libidinal. Para Freud (1921), o laço que mantém a massa unida não é apenas emocional na superfície. Ele é libidinal em profundidade, pois envolve um investimento de energia psíquica que transforma o líder em objeto de amor.
A estrutura descrita por Freud (1921) é precisa: cada membro da massa coloca o líder no lugar de seu ideal do eu. Essa é a instância psíquica que representa o que o sujeito quer ser, seus valores mais elevados, sua imagem de si mesmo no melhor. Quando o líder ocupa esse lugar, atacar o líder equivale, para o seguidor, a atacar o ideal de si mesmo. Daí a intensidade da defesa: ela não é defesa do líder como pessoa externa, mas defesa do eu do próprio seguidor.
Freud (1921, p. 92) afirma: "A massa é claramente mantida unida por um poder de algum tipo; e a qual poder poderia essa realização ser mais bem atribuída que ao Eros, que mantém tudo no mundo unido?"
A identificação libidinal tem uma consequência decisiva para o tema deste ensaio. Ela produz uma distorção sistemática do julgamento. O amor e o julgamento, para Freud (1921), são incompatíveis. Amar um objeto significa superestimá-lo, atribuir-lhe qualidades que ele não possui, e negar ou minimizar suas faltas. O seguidor que ama o líder não está sendo enganado por falta de informação. Ele está sendo movido por um mecanismo psíquico que transforma o líder real em líder idealizado, independentemente da evidência.
Em Luto e Melancolia (1917), Freud acrescenta uma dimensão importante. Quando o objeto amado é ameaçado ou perdido, o sujeito pode responder com uma identificação melancólica, incorporando o objeto ao próprio eu. Transposta para a dinâmica de massa, essa estrutura explica a resistência à perda do líder. Perdê-lo seria perder uma parte do eu. A adesão ao líder, portanto, não diminui diante da evidência de suas faltas. Ela pode intensificar-se como defesa contra a ameaça de perda.
2.4 Jacques Lacan: o eu imaginário e o líder como espelho coletivo
Jacques Lacan (1998) radicaliza a tese freudiana ao demonstrar que o eu não é uma entidade preexistente que, em seguida, se identifica com o líder. O eu é, desde o início, uma construção imaginária. A célebre teoria lacaniana do estádio do espelho propõe que o eu se forma a partir de uma imagem exterior, a imagem especular, com a qual o infante se identifica. Essa identificação produz a ilusão de unidade e coerência que o organismo, em si mesmo, não possui.
Essa estrutura originária da identificação especular tem um correlato político preciso. O líder carismático de massa funciona como um espelho coletivo. Ele devolve ao grupo uma imagem de si mesmo que é ao mesmo tempo reconhecível e idealizada. O grupo se vê no líder como o infante se vê no espelho: unificado, coerente, poderoso. O líder não representa o grupo como ele é. Ele representa o grupo como ele quer ser.
Lacan (1998, p. 97) afirma: "O que o sujeito encontra no outro especular não é simplesmente uma imagem de si mesmo, mas a imagem de uma completude que lhe falta".
Daí uma consequência fundamental para a compreensão da adesão a líderes contraditórios. A realidade objetiva do líder, sua violência, sua corrupção, suas contradições, é simplesmente irrelevante para a função que ele cumpre na economia psíquica do seguidor. O que importa não é quem o líder é, mas que imagem ele oferece. E se a imagem oferecida, de força, de autenticidade, de grandeza, de rejeição do politicamente correto, satisfaz uma necessidade profunda do eu do seguidor, a realidade factual do líder se torna, literalmente, um ruído de fundo.
Lacan (1985) também contribui com a teoria do grande Outro, a ordem simbólica que estrutura o campo do sujeito. O líder de extrema-direita frequentemente se apresenta como aquele que diz a verdade que o Outro (o sistema, a mídia, o establishment) oculta. Ao ocupar essa posição, ele não apenas oferece uma imagem especular. Ele oferece uma versão alternativa da ordem simbólica, um substituto para o grande Outro que o grupo sente como corrompido ou hostil. A adesão ao líder é, então, também uma adesão a uma realidade alternativa, o que explica sua resistência especialmente intensa à contradição empírica.
2.5 Leon Festinger: dissonância cognitiva e o paradoxo da evidência
A teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger (1957) oferece, em termos cognitivos e comportamentais, uma descrição precisa do mecanismo que impede a evidência de dissolver a adesão ao líder. Festinger (1957) identificou que, quando sujeitos com forte investimento em uma crença se deparam com evidências que a contradizem, eles não abandonam a crença. Ao contrário, ativam mecanismos de redução da dissonância que podem incluir: a desqualificação da fonte da evidência; a reinterpretação da evidência como confirmação da crença; a busca ativa de informações que confirmem a crença; e a intensificação do proselitismo como forma de reduzir a ansiedade gerada pela dissonância.
O estudo clássico de Festinger (1957) sobre um grupo apocalíptico é paradigmático para a compreensão do comportamento político que aqui se analisa. Esse grupo aguardava o fim do mundo em uma data específica e, diante da não ocorrência, não abandonou a crença. Pelo contrário, a reforçou e intensificou o recrutamento. Quando um seguidor de extrema-direita se depara com evidências de corrupção do líder que venera, o mecanismo típico não é a revisão da crença, mas a desqualificação da evidência. A mídia mente, as provas foram fabricadas, os adversários estão desesperados.
Festinger (1957) descobriu ainda que a dissonância tende a ser maior quanto maior o investimento prévio na crença ameaçada. Isso tem uma implicação paradoxal e contra intuitiva para a política. Quanto mais graves as evidências contra o líder, e quanto mais o seguidor havia investido emocionalmente nele, maior a energia psíquica mobilizada para defender o líder, e não para abandoná-lo. A crítica racional, nesse contexto, não apenas falha. Ela pode produzir o efeito oposto ao pretendido, aprofundando a adesão ao invés de dissolvê-la.
2.6 Quadro analítico: identificação e denegação da realidade
O quadro a seguir sintetiza as contribuições de Gustave Le Bon (2013), Nicolau Maquiavel (2018), Sigmund Freud (1921; 1917), Jacques Lacan (1985; 1998) e Leon Festinger (1957) para a compreensão da adesão das massas a líderes contraditórios e da negação da realidade. Ele organiza de forma analítica os elementos centrais de cada autor, destacando quem está mais sujeito à influência do líder, como a adesão é construída, os mecanismos de identificação e os processos de denegação da realidade, bem como os efeitos práticos sobre o comportamento coletivo.
| Autor | Datas | Obras principais | Quem está sujeito | Como a adesão é construída | Identificação | Denegação da realidade (o que é negado) | Efeito prático/comportamental |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Gustave Le Bon | 1841-1931 | Psicologia das Massas (1895/2013) | Indivíduos em grupos sugestionáveis; massas emocionais | Símbolos, gestos, slogans e ritualizações repetidas; líder encarna emoção da massa | Identificação simbólica: líder representa desejos e medos coletivos | Nega a racionalidade individual e a importância de evidências ou fatos objetivos | A massa age por emoção, repete gestos e slogans; contradições do líder são irrelevantes |
| Nicolau Maquiavel | 1469-1527 | O Príncipe (1532/2018) | Indivíduos dependentes de ordem, estabilidade e segurança | Controle de instituições, alianças estratégicas, propaganda, manipulação de símbolos | Identificação pragmática: líder percebido como autoridade e proteção | Nega a incoerência do poder e das contradições políticas; crises são reinterpretadas como estratégia | O líder mantém autoridade; coesão do grupo reforçada mesmo diante de contradições |
| Sigmund Freud | 1856-1939 | Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921); Luto e Melancolia (1917) | Indivíduos com frustrações, perdas ou inseguranças | Transferência libidinal; líder funciona como pai simbólico, absorvendo desejos e frustrações | Identificação libidinal direta com o líder (pai simbólico) | Nega a agressividade, injustiça ou violência do líder, e os efeitos de comportamentos moralmente condenáveis | Massa justifica e defende o líder; atos violentos ou discriminatórios são internalizados como normais |
| Jacques Lacan | 1901-1981 | O Seminário, Livro 11 (1985); Escritos (1998) | Indivíduos com lacunas no eu ou auto imagem incompleta | Líder como objeto especular; símbolos e ritual reforçam vínculo imaginário | Identificação imaginária: a massa projeta no líder aquilo que lhe falta | Nega fatos que contradizem a imagem idealizada do líder; realidade objetiva filtrada pelo desejo | Fidelidade resistente à crítica; coesão e lealdade mantidas mesmo diante de evidências objetivas |
| Leon Festinger | 1919-1989 | A Theory of Cognitive Dissonance (1957) | Indivíduos com crenças rígidas ou inconsistentes | Reinterpretação, justificativa ou negação de contradições | Identificação indireta: lealdade protege coerência interna | Nega informações que conflitam com crenças preexistentes ou ideologia do grupo | Evidências contrárias são neutralizadas cognitivamente; lealdade e engajamento aumentam |
Fonte: elaborado pela autora a partir de Le Bon (2013), Maquiavel (2018), Freud (1917; 1921), Lacan (1985; 1998) e Festinger (1957).
O quadro permite visualizar como diferentes dimensões, como a emocional, a simbólica, a libidinal, a imaginária e a cognitiva, se combinam para sustentar a fidelidade à liderança. Ele explica por que fatos ou comportamentos que contradizem a imagem do líder não enfraquecem a adesão. Este mapeamento oferece uma base teórica integrada para compreender fenômenos de mobilização, ritualização e coerção emocional observados em contextos históricos e contemporâneos.
3 A IMAGEM CONTRAFACTUAL DO LÍDER
3.1 A construção da imagem versus a realidade objetiva
O conceito de imagem contrafactual do líder, que propomos aqui, refere-se à construção simbólica que o grupo faz do líder em dissonância com a realidade objetiva. Não se trata de um simples equívoco ou de ignorância de fatos. Trata-se de uma construção ativa, sustentada por mecanismos psíquicos e sociais, que transforma o líder real, com suas contradições, falhas e crimes, no líder idealizado que o grupo precisa.
No caso da extrema-direita brasileira contemporânea, a imagem contrafactual de Jair Bolsonaro é ilustrativa. O líder real é, documentadamente, um militar expulso do Exército; um deputado com três décadas de trajetória parlamentar com baixa expressão legislativa; um indivíduo com histórico de declarações de ódio contra mulheres, como a frase "Não te estupro porque você não merece" dita a uma parlamentar, contra negros, com afirmações sobre quilombolas que mobilizaram processos por racismo, contra LGBTQIA+ e minorias diversas (CASTRO, 2019; 2025); alvo de investigações por corrupção, inclusive na forma de rachadinha e de desvio de joias de Estado; responsável por uma gestão da pandemia marcada por intensas controvérsias políticas e sanitárias.
A imagem construída pela massa, no entanto, é radicalmente diferente: a do patriota incorruptível, do militar disciplinado e honrado, do cristão devoto e defensor da família, do homem corajoso que enfrenta sozinho um sistema corrupto, do líder que diz o que o povo pensa. Cada elemento dessa imagem contradiz diretamente a realidade documentada. E é precisamente essa contradição, não apesar dela, mas por causa dela, que torna a imagem tão necessária. Ela não representa quem o líder é, mas quem a massa precisa que ele seja.
3.2 A narrativa política como instrumento estrutural de adesão
A narrativa política, entendida não como mero erro factual, mas como produção sistemática de narrativas que operam independentemente da verificação empírica, não é um elemento acidental na dinâmica de massa da extrema-direita. Ela é estrutural. Sua função não é informar, mas criar e manter a imagem contrafactual do líder e do grupo.
A narrativa política de extrema-direita opera em múltiplos níveis. No nível da narrativa histórica, fábrica um passado glorioso que teria sido destruído pelos adversários: o Brasil que era grande até a chegada da esquerda, a família que era sólida até a chegada da ideologia de gênero, a segurança que existia antes do desarmamento. No nível da narrativa presente, produz uma realidade alternativa: as vacinas são perigosas, as urnas eletrônicas são fraudadas, o Supremo Tribunal Federal é marxista, a mídia é controlada por interesses estrangeiros. No nível da narrativa futura, promete uma salvação impossível: apenas o líder pode salvar o país, devolver a família e restaurar a grandeza.
Do ponto de vista psicanalítico, a narrativa política cumpre a mesma função que a fantasia no plano individual. Ela preenche a falta, oferece coerência onde há fragmentação, e promete completude onde há incompletude. O sujeito que adere às narrativas conspiratórias da extrema-direita não está simplesmente mal informado. Ele está satisfazendo uma necessidade psíquica de sentido, de agência, de pertencimento a um grupo que conhece a verdade que os outros ignoram.
Hannah Arendt (1989), ao analisar o totalitarismo, identificou que o poder das narrativas totalitárias reside menos em sua verossimilhança do que em sua capacidade de organizar a realidade em um sistema coerente e abrangente. O seguidor que adere ao sistema de narrativas da extrema-direita não está acreditando em afirmações isoladas. Ele está aderindo a uma cosmologia alternativa completa, que substitui a realidade fragmentada e angustiante por uma narrativa coerente de inimigos e heróis, traição e salvação.
3.3 A contradição incorporada: violência, corrupção e heroísmo
Um dos aspectos mais desconcertantes da adesão ao líder contraditório é que, em muitos casos, a contradição não precisa ser ocultada. Ela pode ser incorporada à imagem heroica do líder. O líder violento torna-se o líder forte. O líder que profere declarações racistas e misóginas é percebido como aquele que diz o que todos pensam, mas não ousam expressar. Acusações contra o líder passam a ser reinterpretadas pelo grupo como evidência de perseguição política.
Esse mecanismo, a incorporação da contradição à narrativa heroica, é descrito por Le Bon (2013) como parte do prestígio do líder. O líder carismático tem a capacidade de transformar suas fraquezas em provas de sua força. Quando Adolf Hitler exaltava o desejo de guerra e de domínio que a moralidade convencional obrigava a reprimir, ele estava liberando, com autoridade simbólica, impulsos que estavam presentes no grupo. A adesão não era apesar da violência. A performatividade da força tornava-se elemento central da adesão grupal.
No caso brasileiro, declarações de Bolsonaro que provocaram indignação entre seus adversários, como o "não vou estuprar você", o "os quilombolas não servem nem para procriar", o "vou fuzilar a petralhada", foram, em grande medida, celebradas por seus seguidores como provas de autenticidade. A violência da declaração sinalizava que o líder não estava sujeito às restrições do politicamente correto. Ele era livre para dizer o que o grupo sente, mas que as normas sociais proibiam de expressar. A violência, aqui, convertia-se em importante operador de identificação coletiva.
O líder não precisa corresponder à realidade objetiva. Sua base de seguidores o idealiza, projeta desejos, medos e expectativas nele. Contradições e incoerências não enfraquecem a adesão porque o grupo nega a realidade e reforça a narrativa heroica. A identificação é sustentada por símbolos, rituais, gestos e plataformas digitais. Ele atua como suporte narcísico, devolvendo ao grupo uma sensação de força, pertencimento e completude que não encontram na realidade objetiva. No contexto brasileiro contemporâneo, o caso de Bolsonaro ilustra como a imagem contrafactual do líder se mantém mesmo diante de evidências objetivas contrárias, revelando a força desses mecanismos psíquicos (Le Bon, 2013; Sigmund Freud, 1921; Jacques Lacan, 1998).
4 LITURGIAS SIMBÓLICAS E PLATAFORMAS DIGITAIS
4.1 Gestos, bandeiras e performatividade corporal
A imagem contrafactual do líder não se sustenta apenas por narrativas verbais. Ela é constantemente reencenada e reforçada por uma liturgia simbólica que mobiliza o corpo, o gesto, a voz e os objetos. Essa liturgia cumpre, do ponto de vista psíquico, uma função análoga ao rito religioso. Ela materializa e consolida a identificação, transformando crenças abstratas em experiências corporais imediatas.
O gesto da arminha, o dedo indicador apontado e o polegar levantado em simulação de pistola, é um exemplo paradigmático de símbolo político condensado. Em um único gesto, ele comunica um conjunto denso de significações: celebração das armas (e, por extensão, da masculinidade e da força), rejeição do controle estatal sobre o armamento, identificação com o líder que performatiza o mesmo gesto, demarcação de fronteira entre o grupo e seus adversários. O gesto não argumenta. Ele identifica. Quem o faz diz, ao mesmo tempo, "sou do grupo" e "partilho desta imagem".
A apropriação das cores verde e amarelo da bandeira nacional funciona como um poderoso símbolo de identificação do grupo com a nação e, simultaneamente, de deslegitimação dos adversários, que se tornam antipatriotas. Nessa lógica, vestir a camiseta da seleção em uma manifestação política equivale a declarar: "estou do lado do Brasil". A contradição surge quando se observa que os líderes e familiares centrais do movimento demonstram devoção aos Estados Unidos, chegando a bater continência a figuras como Trump, enquanto reivindicam patriotismo nacional. Essa incoerência flagrante não diminui, porém, a adesão. Os apoiadores mantêm manifestações públicas intensas de pertencimento nacional. Esse fenômeno ilustra de forma clara a denegação da realidade, na qual a massa reorganiza a percepção dos fatos a partir da lógica da identificação.
Os cânticos coletivos, como "Mito!", "Brasil acima de tudo!", as aclamações ao líder e as imprecações contra os adversários, produzem o que a psicanálise das massas descreve como fusão libidinal. Essa é a dissolução provisória das fronteiras individuais no eu coletivo. Cantar em uníssono com milhares de pessoas que compartilham a mesma imagem do líder constitui uma experiência de pertencimento de enorme intensidade emocional, diante da qual o argumento racional perde força. A experiência coletiva da identificação produz um sentimento de coesão, proteção e reconhecimento mútuo que reforça a adesão ao grupo e ao líder. Nesse processo, a crítica externa tende a ser percebida não como divergência política legítima, mas como ameaça ao próprio pertencimento coletivo.
4.2 Memes, TikTok e transmissões ao vivo
As plataformas digitais contemporâneas não apenas disseminam a liturgia simbólica da extrema-direita. Elas a produzem e a amplificam em escala sem precedentes históricos. Para compreender esse papel, é necessário articular a lógica das plataformas com os mecanismos psíquicos descritos nas seções anteriores.
O meme é a forma contemporânea do que Le Bon (2013) chamava de símbolo-imagem. É uma unidade mínima de comunicação que opera por contágio emocional e não por argumento. O meme bolsonarista típico, uma fotomontagem heroica do líder, um slogan que resume a cosmologia do grupo, uma imagem que ridiculariza o adversário, não pretende demonstrar nada. Ele pretende evocar, reforçar e disseminar um estado emocional. Sua eficácia é inversamente proporcional à sua complexidade. Quanto mais simples, mais rápido e mais profundo o contágio.
O algoritmo das plataformas digitais é, do ponto de vista da psicologia das massas, uma máquina de amplificação do contágio emocional. Ao priorizar conteúdo que gera maior engajamento, e o engajamento é produzido primariamente por emoções intensas como raiva, medo e euforia, os algoritmos selecionam sistematicamente o conteúdo de maior valor libidinal para o grupo. O resultado é a câmara de eco, um ambiente informacional em que a imagem contrafactual do líder é permanentemente reforçada e nunca desafiada.
As transmissões ao vivo, as lives presidenciais, os discursos diante dos quartéis, as reuniões de militantes transmitidas por celular, introduzem um elemento novo e psiquicamente poderoso: a ilusão de contato pessoal com o líder. O seguidor que assiste à live em seu quarto, à meia-noite, e que pode comentar e receber respostas que parecem diretas, experimenta uma forma de proximidade que, psiquicamente, intensifica enormemente o efeito de identificação imaginária descrito por Lacan (1998). A distância entre o líder e o seguidor é eliminada. A tecnologia produz a ilusão de presença.
O TikTok merece destaque por sua lógica de vídeos curtíssimos de alto impacto emocional, que replica e intensifica o mecanismo de Le Bon de repetição como produtora de verdade emocional. Um usuário exposto, diariamente, a centenas de vídeos de quinze a sessenta segundos que mostram o líder em pose heróica, que ridicularizam adversários, que repetem slogans e símbolos do grupo, está sendo submetido a um processo de saturação simbólica que opera aquém do nível do julgamento racional. A verdade emocional se consolida não por demonstração, mas por acumulação e repetição.
4.3 Delírios simbólicos e interpretações místicas
Um dos fenômenos mais reveladores da dinâmica psíquica aqui descrita é a proliferação, no âmbito da extrema-direita brasileira, de leituras simbólicas de objetos e eventos triviais como sinais, presságios ou confirmações divinas. O número 17, número de Bolsonaro na urna eletrônica, foi lido em formações de pássaros, em sombras projetadas por nuvens, em sequências de placas de automóveis, em formações de patos em gramados. A figura do pato foi elevada a símbolo quase profético. Eventos climáticos foram interpretados como intervenções divinas em favor do movimento. Lideranças religiosas passaram a reproduzir narrativas dissociadas de verificação factual.
Do ponto de vista festingeriano, esses fenômenos são compreensíveis como estratégias de redução de dissonância. Diante de evidências que contradizem a crença, como a derrota eleitoral, a ausência de intervenção militar, o grupo busca ativamente sinais compensatórios que reconfirmem a crença. A intensidade da busca é proporcional à intensidade da dissonância. Quanto mais clara a derrota, mais vigorosa a leitura de presságios favoráveis.
Do ponto de vista lacaniano, essas interpretações simbólicas podem ser lidas como tentativas de suturar a falta, de encontrar, nos objetos do mundo, a confirmação de que o grande Outro, o líder, Deus, a nação, ainda está presente e que a ordem simbólica não foi definitivamente rompida. É a mesma estrutura que encontramos nas práticas de augúrio das religiões antigas. O mundo físico torna-se legível como um texto escrito pelo Outro, e a leitura desse texto é sempre tranquilizadora para quem controla os códigos da interpretação.
5 ANÁLISE PSICANALÍTICA INTEGRADA
5.1 Falta, preenchimento e o custo da identificação
A questão central de que partimos, por que as massas aderem a líderes contraditórios, violentos e corruptos, recebe, neste ponto, uma resposta que integra os quatro referenciais teóricos mobilizados. O líder contraditório oferece, precisamente por sua violência e autenticidade performática, um preenchimento provisório da falta constitutiva do sujeito que a moderação e a racionalidade dos líderes convencionais não conseguem oferecer.
O sujeito lacaniano é, por definição, marcado pela falta, pela impossibilidade de coincidência plena com qualquer imagem, qualquer ideal, qualquer identidade. A vida social moderna intensifica essa falta. A dissolução das tradições, a mobilidade social, o pluralismo de valores, a instabilidade econômica produzem sujeitos com déficits agudos de identidade, pertencimento e sentido. O líder que grita que o sistema está podre, que há inimigos que explicam o sofrimento, que o grupo é o verdadeiro Brasil, esse líder não está enganando. Ele está respondendo a um sofrimento real com uma oferta real, ainda que ilusória, de preenchimento.
O custo dessa identificação é precisamente o que Le Bon (2013), Freud (1921) e Lacan (1998) descrevem: a suspensão do julgamento crítico. Para que a identificação se mantenha, o líder deve permanecer idealizado. E para que ele permaneça idealizado, a realidade que o contradiz deve ser sistematicamente negada, distorcida ou reinterpretada. O seguidor não paga esse custo por estupidez ou má fé. Ele paga porque o que recebe em troca, identidade, pertencimento, sentido, grandeza vicária, tem um valor psíquico que a realidade factual não pode facilmente substituir.
5.2 Refratariedade à realidade como estrutura, não como erro
A recusa sistemática de evidências que contradizem a imagem do líder não é um erro epistemológico que a educação ou a informação poderiam corrigir. É uma característica estrutural da identificação libidinal. Essa distinção é fundamental para as estratégias de intervenção política e terapêutica.
A crítica racional ao líder, a apresentação de fatos, dados, documentos, não apenas falha em dissolver a identificação. Ela pode produzir o efeito de retrocesso descrito pela psicologia social, no qual a exposição a evidências contraditórias intensifica a crença original. Isso ocorre porque, no contexto da identificação libidinal, a crítica ao líder é percebida como ataque ao eu do seguidor. E contra ataques ao eu, o sistema psíquico mobiliza mecanismos de defesa, não de revisão. O seguidor que se sente atacado fecha-se ainda mais na identidade do grupo.
A refratariedade à realidade tem, ademais, uma função social dentro do grupo. Demonstrar que se é capaz de reorganizar a percepção dos fatos a partir da lógica da identificação, ignorando as evidências que os de fora aceitam, é uma prova de fidelidade e de pertencimento. Adesão às narrativas mais extravagantes, como as urnas fraudadas, o golpe comunista iminente, a vacina como instrumento de controle, torna-se um sinal de distinção. Os fracos acreditam no que a mídia diz; os fortes sabem a verdade.
5.3 O inimigo simbólico e a economia da agressividade
A agressividade é um elemento central na dinâmica psíquica da extrema-direita, e sua gestão é uma das funções mais importantes da liturgia simbólica do grupo. Freud (1921) observou que a coesão da massa depende, em parte, da canalização da agressividade para fora. O grupo se mantém unido pelo que rejeita tanto quanto pelo que ama. O inimigo simbólico, o petista, o comunista, o globalista, a imprensa, o Supremo Tribunal Federal, o marxismo cultural, cumpre uma função estrutural na economia psíquica do grupo.
O inimigo simbólico não precisa ser claramente definido. Ao contrário, quanto mais vago e onipresente, mais eficaz. O comunismo que a extrema-direita brasileira combate não é o marxismo-leninismo histórico. É um significante vazio que pode ser preenchido com qualquer conteúdo que o grupo queira rejeitar: educação sexual nas escolas, cotas raciais, regulamentação ambiental, qualquer crítica ao líder. O inimigo muda de forma sem perder a função. É sempre o responsável pelo sofrimento do grupo, e é sempre quem pretende destruir o que o grupo ama.
A hostilidade ritualizada contra o inimigo simbólico, nos cânticos, nos memes, nas transmissões ao vivo, serve como válvula de escape para a agressividade que, de outra forma, ameaçaria a coesão interna do grupo. Sem o inimigo externo, a frustração e o sofrimento real dos membros do grupo encontrariam outros destinos, possivelmente o próprio líder, que, afinal, também falha em cumprir suas promessas. A construção permanente do inimigo é, portanto, uma necessidade estrutural da dinâmica de massa.
A identificação com o líder também possui dimensão narcísica. O líder oferece ao sujeito uma imagem de força, unidade, pertencimento e grandeza que compensa sentimentos de fragmentação, impotência e perda simbólica. Ao identificar-se com essa imagem idealizada, o sujeito experimenta uma forma de reparação narcísica que reforça sua adesão ao grupo e ao líder.
6 PERSPECTIVA HISTÓRICA: DO SÉCULO XIX AO DIGITAL
Os mecanismos descritos nas seções anteriores não foram descobertos pela extrema-direita brasileira do século XXI. Eles foram identificados, sistematizados e explorados com consciência crescente ao longo dos últimos dois séculos. A análise psicanalítica aqui desenvolvida ganha substância quando confrontada com essa continuidade histórica.
Le Bon (2013) escreveu sua análise a partir das multidões revolucionárias e dos movimentos de massa do século XIX. Sua percepção de que a política moderna seria crescentemente dominada pela lógica emocional das massas não era uma crítica externa, mas uma observação empírica. O que ele não podia prever, ou preferia não admitir, era que sua obra se tornaria um manual para os engenheiros da manipulação política do século XX.
Benito Mussolini (1883–1945) leu Le Bon (2013) e aplicou conscientemente seus princípios à construção do fascismo italiano. As marchas, os uniformes negros, os discursos da varanda do Palazzo Venezia, os cânticos das camisas negras, tudo isso era planejado com precisão para produzir os efeitos de fusão libidinal, prestígio do líder e contágio emocional que Le Bon (2013) havia descrito.
Adolf Hitler (1889–1945) e Joseph Goebbels (1897–1945) operaram com ainda maior sistematização. O Ministério da Propaganda do Terceiro Reich constituiu um dos mais sofisticados aparelhos de mobilização emocional e simbólica já organizados por um Estado moderno. Os congressos de Nuremberg, com suas coreografias de luz, bandeiras e multidões uniformizadas, eram produções totais destinadas a criar experiências de fusão do eu individual no eu coletivo da nação.
Um aspecto particularmente importante dessa engenharia simbólica foi a compreensão de Hitler e Goebbels de que a política moderna não deveria atuar apenas no campo racional, mas sobretudo no plano afetivo, imagético e ritualístico. A encenação política nazista foi construída para produzir pertencimento emocional contínuo: arquitetura monumental, desfiles coreografados, símbolos visuais repetidos, uniformes, músicas, saudações coletivas e discursos performáticos transformavam a política em experiência sensorial e emocional de massa. O indivíduo deixava progressivamente de perceber-se como sujeito isolado para sentir-se parte de um corpo coletivo unificado em torno da figura do Führer. Nesse processo, a identificação com o líder passava a reorganizar a percepção da realidade, tornando a crítica, a dúvida e a divergência elementos percebidos como ameaças à unidade simbólica do grupo.
Joseph Stalin (1878–1953) e Mao Tsé-Tung (1893–1976) operaram com mecanismos estruturalmente análogos, embora com conteúdo ideológico oposto. O culto da personalidade, a liturgia política obrigatória, o inimigo de classe como equivalente funcional do inimigo racial, a narrativa política sistemática como instrumento de controle social. Em todos esses casos, a estrutura psíquica descrita por Le Bon (2013) e Freud (1921) era a mesma: a massa fundida no líder idealizado, o inimigo simbólico como válvula de escape da agressividade, a repetição como produtora de verdade emocional.
O que é radicalmente novo no século XXI não é a estrutura psíquica, mas a infraestrutura tecnológica. O rádio foi a primeira tecnologia de massa que permitiu ao líder dirigir-se simultaneamente a milhões de seguidores, criando a ilusão de presença e intimidade. A televisão estruturou a política de massa do século XX tardio. As plataformas digitais, com sua capacidade de personalização, segmentação algorítmica, transmissão em tempo real, interatividade e produção descentralizada de conteúdo, são a versão contemporânea, incomparavelmente mais poderosa, desta tecnologia.
Três diferenças específicas merecem ser destacadas. Primeiro, a eliminação da intermediação. Nas plataformas digitais, o líder transmite diretamente ao seguidor, prescindindo de editores, jornalistas ou qualquer gatekeeper institucional — controle da informação. Segundo, a participação ativa do seguidor na produção da liturgia. Cada meme compartilhado, cada live comentada, cada símbolo repostado é um ato de produção que aprofunda o investimento do seguidor na identidade do grupo. Terceiro, a personalização algorítmica. Os algoritmos constroem, para cada usuário, uma câmara de eco perfeitamente calibrada para seus estados emocionais e suas predisposições psíquicas, produzindo um ambiente informacional no qual a imagem contrafactual do líder nunca encontra resistência.
A extrema-direita brasileira é, nesse sentido, um experimento avançado de aplicação de técnicas centenárias de psicologia das massas a uma infraestrutura tecnológica sem precedentes. Compreendê-la exige, portanto, tanto o instrumental teórico clássico quanto a atenção às especificidades do novo ambiente digital.
CONCLUSÃO
Este ensaio partiu de um paradoxo: por que grupos sociais aderem e mantêm fidelidade a líderes que a realidade demonstra serem contraditórios, violentos, corruptos, misóginos, racistas e agressivos? A resposta desenvolvida ao longo das seções anteriores é que esse paradoxo é apenas aparente. Ele desaparece quando se abandona a premissa de que a adesão política é primariamente racional e se compreende que ela é primariamente psíquica.
A articulação dos quatro referenciais teóricos mobilizados, Le Bon (2013), Freud (1921; 1917), Lacan (1985; 1998) e Festinger (1957), permite uma descrição coerente da estrutura psíquica que sustenta a adesão ao líder contraditório. Le Bon (2013) fornece a descrição da massa como sistema emocional que opera por símbolo, repetição e contágio, prescindindo do argumento racional. Freud (1921) fornece a explicação do mecanismo, a identificação libidinal, que coloca o líder no lugar do ideal do eu do seguidor e torna toda crítica ao líder um ataque ao eu do próprio seguidor. Lacan (1998) aprofunda essa explicação ao demonstrar que o eu é, desde o início, uma construção imaginária que busca no outro especular a completude que não pode encontrar em si mesmo, e que o líder carismático cumpre, coletivamente, essa função especular. Festinger (1957) descreve, em termos cognitivos e comportamentais, os mecanismos pelos quais o grupo resiste às evidências que contradizem sua crença no líder, e o paradoxo pelo qual a intensidade da evidência contrária pode intensificar, ao invés de dissolver, a adesão.
O conceito de imagem contrafactual do líder, proposto neste ensaio, permite nomear o produto central desse processo. Trata-se de uma construção simbólica que não representa o líder real, mas que condensa os desejos, medos e ideais do grupo em uma imagem heroica que prescinde da realidade factual. A narrativa política, nesse contexto, não é um desvio acidental. É um instrumento estrutural de produção e manutenção dessa imagem. E a liturgia simbólica, gestos, cânticos, memes, transmissões ao vivo, interpretações simbólicas, é o conjunto de práticas que, pela repetição e pelo engajamento corporal, consolida e renova permanentemente o investimento libidinal do grupo na imagem do líder.
A perspectiva histórica desenvolvida na seção 6 demonstra que esses mecanismos têm uma continuidade que se estende ao menos do século XIX ao presente. O que é específico ao nosso momento é a amplificação tecnológica produzida pelas plataformas digitais e seus algoritmos de engajamento. Essa amplificação, ao eliminar a intermediação, ao personalizar as câmaras de eco e ao transformar cada seguidor em produtor ativo de liturgia simbólica, cria condições para a produção de massas psíquicas de uma coesão e de uma impermeabilidade à realidade sem precedentes históricos.
A implicação mais importante deste ensaio para o pensamento político progressista é, talvez, a mais desconfortável. A crítica racional ao líder contraditório não apenas é insuficiente, mas pode ser contraproducente. Para dissolver a identificação libidinal com o líder, seria necessário oferecer respostas às necessidades psíquicas reais que essa identificação satisfaz: necessidades de pertencimento, identidade, sentido, reconhecimento e grandeza. Isso exige não apenas argumentos melhores, mas política melhor. Uma política capaz de nomear e acolher o sofrimento real que alimenta o investimento na imagem ilusória, e de oferecer, no lugar da identificação regressiva, formas de laço social que não dependam da fusão no líder nem da hostilidade ao inimigo simbólico.
O líder contraditório não permanece apesar da realidade, mas porque sua função psíquica ultrapassa a realidade objetiva. Ele oferece pertencimento, identidade e reconhecimento a sujeitos atravessados por insegurança, ressentimento e sensação de perda simbólica. O vínculo que se estabelece não é apenas político. É libidinal, imaginário e afetivo. E, justamente por isso, a evidência factual frequentemente fracassa em dissolvê-lo.
Compreender a lógica psíquica do adversário não é, portanto, uma forma de complacência intelectual. É uma condição de qualquer eficácia política que pretenda ir além do diagnóstico e da indignação.
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
CASTRO, Vanessa Maria de. A Extrema-Direita Brasileira e as Eleições de 2018: Processos de Ascensão. Palavra em Transe, Paris, janeiro de 2019. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2025/05/a-extrema-direita-brasileira-e-as.html. Acesso em: 17 maio 2026.
CASTRO, Vanessa Maria de. Entre o púlpito e a urna: religião e política nas eleições brasileiras de 2018 e 2022. Palavra em Transe, junho de 2025. Disponível em: https://palavraemtranse.blogspot.com/2025/07/entre-o-pulpito-e-urna-religiao-e.html. Acesso em: 17 maio 2026.
FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Tradução de Marilene Carone. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1917/1974. v. XIV.
FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1921/2011.
LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LE BON, Gustave. Psicologia das Massas. Tradução de Mariana Sérvulo da Cunha. São Paulo: Madras, 2013.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resultados das Eleições 2018. Brasília: TSE, 2018.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resultados das Eleições 2022. Brasília: TSE, 2022.
Sobre a autora
Vanessa Maria de Castro é professora da Universidade de Brasília (UnB), psicanalista e pesquisadora, com foco na análise crítica das dinâmicas políticas, sociais e psíquicas contemporâneas. Seus estudos exploram como sofrimento social, desigualdades e precarização da vida são mobilizados politicamente, produzindo adesão coletiva a líderes e ideologias.
Na série Cadernos de Estudo, Vanessa investiga como identificação, denegação da realidade e ritualização simbólica estruturam vínculos psíquicos entre massas e líderes, oferecendo uma análise integrada das forças que moldam comportamentos políticos e sociais no Brasil e no mundo.
Comentários
Postar um comentário